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A madrinha dos estudos esportivos nas ciências humanas latino-americanas

Arlei Sander Damo, Cláudia Samuel Kessler

Simoni Guedes é, sem dúvidas, a principal responsável pela valorização da temática esportiva no espectro das ciências sociais brasileiras. Roberto DaMatta, que foi um dos inspiradores de Simoni, segundo ela própria – isto consta em entrevista que ela concedeu ao Ludopédio, inclusive – tem sido referido como o impulsionador do campo de estudos no Brasil e na América Latina. Entretanto, seria mais justo que a deferência fosse concedida a quem produziu a primeira dissertação, em 1977, e seguiu trabalhando de forma sistemática com o tema – embora não exclusivamente – ao longo de mais de quatro décadas. Simoni Guedes não apenas participou da famosa coletânea “Universo do Futebol”, como teve participação efetiva na construção de um campo de estudos esportivos através de publicações, orientações, organização de eventos, arguições em bancas e disputas por espaços institucionais.

Um dos subtemas em relação aos quais Simoni emprestou notável contribuição foi sobre a relação entre o futebol e a identidade nacional, que dominou a produção ao longo dos anos de 1980 e 1990. Dentre esses escritos deve-se destacar o diálogo com Eduardo Archetti, outro ícone dessa geração de pioneiros, pois se trata de uma reelaboração na forma de pensar as representações sobre as identidades e, talvez ainda mais importantes, as alteridades constituídas no e a partir do futebol.

Simoni Lahud Guedes era antropóloga e atuava com o futebol desde 1977. Foto: Ivana Curi.

Um outro tema, do qual ela se ocupou desde o princípio, inclusive na sua tese de doutorado, que não tem a ver diretamente com o futebol, foi a questão de gênero. Simoni teve a sensibilidade de perceber o quanto esta clivagem era importante para a compreensão do futebol como um fenômeno social e culturalmente impregnado no cotidiano dos brasileiros – mais do que das brasileiras, certamente – em particular entre os trabalhadores de classes populares urbanas. Embora este trabalho seja menos conhecido entre os pesquisadores do campo esportivo, trata-se de uma etnografia primorosa, densa e atual – em que pese realizada na década de 1980 – pois consegue captar as referências ao futebol que estão fora do espaço-tempo dos jogos ou da repercussão deles na crônica midiática.

Flamenguista das mais fanáticas, por influência de um irmão, Simoni foi a mais constante, emblemática e destacada presença nos estudos sobre futebol no Brasil, um campo hegemonicamente androcêntrico. Querida por todos, foi e sempre será a madrinha desse universo, no Brasil e na América Latina. Há outras figuras de proa neste campo, mas nenhuma acima dela!

Como citar

DAMO, Arlei Sander; KESSLER, Cláudia Samuel. A madrinha dos estudos esportivos nas ciências humanas latino-americanas. Ludopédio, São Paulo, v. 121, n. 24, 2019.