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A mancha no futebol é vermelha, cor de sangue

Equipe Ludopédio

O Ludopédio é um portal voltado para a produção e difusão de discussões aprofundadas sobre uma infinidade de temas ligados ao futebol. Um dos temas mais polêmicos, as torcidas organizadas, revela divergentes visões sobre a importância deste torcedor e, em especial, sobre sua relação com a violência no esporte.

Em geral, há uma interpretação quase hegemônica na crônica esportiva que define as torcidas organizadas como “quadrilhas” de “marginais”. A contrapartida, com exceção de poucos membros da imprensa esportiva, surge na Universidade, por meio de densas pesquisas na área da história, sociologia e antropologia que descortinam um cenário muito mais complexo que a simplista visão das enfurecidas mesas redondas.

Ao longo de uma década, o Ludopédio esteve a par dos principais debates e atento às novas pesquisas de grandes autores dedicados ao aprofundamento da análise dos diferentes casos de violências físicas e simbólicas envolvendo os organizados.

Pra quem tem interesse no assunto, vale a pena consultar as obras de Maurício Murad, Luiz Henrique Toledo, Bernardo Buarque de Holanda, Heloísa Reis e Vitor Canale.

O Ludopédio compreende que quanto mais acesso à informação e ao conhecimento estiver disponível, mais próximos estaremos de um entendimento mais consciente e crítico do objeto em questão.

Eis que, um dia após a quarta-feira de cinzas, este tema volta com toda força e tragédia possível. Na madrugada do dia 02 de março, o fundador e membro da torcida organizada Mancha AlviVerde, Moacir Bianchi, foi encontrado morto com 22 tiros dentro de seu carro na zona sul de São Paulo.

Moacir Bianchi - Foto: Gabriel Uchida

Moacir Bianchi – Foto: Gabriel Uchida

A notícia apareceu nos principais portais, ainda que com pouco aprofundamento. Pouco se sabe, e pouco se questionou sobre o ocorrido. Mas pouco não é igual à nada. O jornalista Cosme Rímoli, por sua vez, trouxe um importante comentário a respeito do líder da Mancha em questão, que contesta toda a estigmatização da torcida:

“Lastimo a morte de qualquer pessoa. Ainda mais dessa maneira, executado, sem piedade. Nunca fui íntimo de Moacir. Mas percebia, de verdade, que ele era mesmo de outro tempo. Se revoltava com a violência atribuída às organizadas. Não aceitava mortes em brigas com torcidas rivais. Não tolerava drogas. Nem ouvir falar que as facções criminosas se aproximavam das torcidas pelo dinheiro que poderiam gerar. Dizia não acreditar que isso poderia acontecer. Mostrava um purismo incompatível com a realidade. A Mancha Verde era seu clã. Sua família”.

Outras informações dispersas tentam relacionar disputas políticas internas, o carnaval e timidamente apontam algum envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital).

Ainda não é possível afirmar nada. Não estamos falando de um ensaio científico, e sim de uma investigação envolvendo um crime grave, com agravantes que colocam em risco diversos personagens do futebol: torcida, polícia e até mesmo a imprensa.

Com as redes sociais, não há segredo sem sombra. Circulam em grupos do Facebook e Whatsapp fotos, vídeos, áudios e relatos sobre a madrugada do dia 02. Não iremos divulgar nenhum destes arquivos, obviamente. Em resumo, eles corroboram com a tese de Rímoli sobre uma disputa interna na Mancha: subsedes (Zona Sul, Zona Oeste, ABC e Litoral) estariam viabilizando uma aliança com o PCC, em oposição à diretriz da Sede e subsede Leste.

Para ilustrar esse rol de registros sobre o episódio, um dos áudios relembra o ataque da semana passada de 200 membros da subsede Sul aos torcedores da Sede na noite conhecida como Guerra da Turiassu.

Após uma semana, segundo esta versão, por resistir à pressão das subsedes, Bianchi foi executado. Bianchi foi vítima de sua própria criação? De alguma forma, sim. Mas como o próprio Rímoli sempre frisou, a violência presente na Mancha idealizada por Bianchi não tinha qualquer relação com o crime organizado ou com o tráfico.

ADENDO: OUTRO PONTO DE VISTA

A despeito da versão apresentada anteriormente aqui no Ludopédio e em diversos veículos de comunicação, nossa equipe passou a receber mais informações que contradizem parte desta narrativa do confronto. Segundo as novas fontes, a disputa entre Sede x Subsedes apresentada foi equivocada. Diversos membros da torcida apontam o próprio presidente da entidade, Nando Nigro, como um dos responsáveis pela aproximação com o PCC.

Esta aproximação gerou revolta das “quebradas” (subsedes) que passaram a contar com o apoio da “velha guarda”, composta de membros importantes, como o próprio Moacir Bianchi, um dos fundadores da Mancha. Como um gesto de determinação do Primeiro Comando, a chamada “Guerra da Turiassu” teve o próprio presidente da entidade espancado, e uma semana depois, Bianchi fora assassinado.

Em resumo: a queda de braço entre quem apoia a ascensão do Comando na Mancha versus quem não apoia resultou em um grande onda de violência seguida de uma pessoa executada – Moacir Bianchi, invariavelmente apoiado por diferentes testemunhas. Pouco pode se ter certeza neste momento, mas certo é que a própria desinformação sobre o caso também faz parte da estratégia do Primeiro Comando da Capital. 

A discussão mais adequada outrora era ligada à práticas do hooliganismo em nossas torcidas, assunto intensamente investigado. Ou seja, as brigas em estádios não estão relacionadas ao crime organizado, e sim às questões do torcer relacionadas à masculinidade, desigualdade social e outros símbolos culturais.

Agora a questão é outra, nitidamente. À reboque, a execução do tradicional líder da Mancha municia todo o senso comum de que realmente torcida organizada é “lugar de bandido”.

Sabemos que o crime organizado vem construindo uma grande escalada em diversos segmentos da sociedade, elegendo políticos, magistrados e claro, se apropriando de bens da nossa cultura de grande apelo emocional e coletivo, tal como as torcidas e o próprio carnaval que elas realizam. Nas organizadas, o Comando busca ser hegemônico e impõe um padrão para todos seus filiados que deve ser sumariamente obedecido.

Talvez o assassinato de Bianchi possa ser mais que um xeque-mate na resistência da Sede da Mancha. Seria este um recado para os aliados de todas as torcidas?

É preciso que tudo seja esclarecido.

Mas não podemos nos enganar. Em terra de justiça míope, o uso da lei está cada vez mais seletivo e espetacularizado, aos moldes do circo midiático consagrado na terra da Major League Soccer.

Na “guerra de gangues” da narrativa midiática, não há herói. Apenas o banho de sangue transmitido para deleite daqueles que confundem vingança com justiça, para a satisfação dos torcedores de poltrona e para os maiores interessados no aparelhamento da máfia dentro das torcidas – estes sim, com o poder de nos iludir e nos calar.