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A mercadoria jogador de futebol

Lucas Giachetto de Araujo

Para começar a falar do jogador de futebol como mercadoria, é preciso lembrar que o futebol tem seu surgimento dentro da sociedade capitalista e, por isso, apresenta características desse sistema. Por conta disto, a acumulação, seja de títulos ou dinheiro, passa a ser o ponto central do sistema esportivo, que reproduz fielmente o sistema da qual está inserido.

O jogador de futebol, que apesar de ser o protagonista dentro de campo, responsável por grande parte da emoção do jogo, é basicamente duas coisas dentro do sistema: mercadoria e força de trabalho. Esses papéis se dão por conta de sua prestação de serviço como força de trabalho, mas tendo seu passe como algo negociável entre clubes, que o torna uma mercadoria. Quando tratado como mercadoria, trago que existe uma relação mercantil de venda/compra/troca/empréstimo entre os clubes, na qual os jogadores estão em um mercado, que podem ser negociados pelos clubes para a melhor obtenção de lucros (sejam eles financeiros ou esportivos). Vale lembrar que existem regras e limites nessas negociações, que o jogador deve ter consentimento para a transferência, que traz um carácter diferente para a relação da mercadoria jogador de futebol.

A mercadoria só é mercadoria quando posta a uma negociação, mas antes disso ela deve ser valor de uso para alguém. Esse valor de uso, quando posto para troca/venda, tem o trabalho humano aplicado nela, que vai tornar seu valor maior ou menor. Quanto mais trabalho aplicado na mercadoria, mais valor ela tem. No caso do futebol, como pode ser mensurado esse trabalho? Tempo? Gols?

Dentro do futebol, existe uma clara divisão social do trabalho, na qual alguns tipos de jogadores valerão mais que outros por simplesmente atuarem em posições diferentes. Assim, os atacantes tem um valor de mercado maior que defensores, mesmo que sejam igualmente essenciais para as vitórias. Além disso, o próprio esporte faz com que haja uma grande divisão dentro e fora do campo, já que o futebol é altamente setorizado e especializado. Num mercado internacional, as questões de nacionalidade também estão ligadas ao valor do jogador. Assim, jogadores nascidos em países mais tradicionais no esporte terão um valor maior do que os nascidos em locais sem tradição.

Foto: Guillaume de Germain/Unsplash.

Dessa forma, jogador tem seu valor mensurado por uma questão totalmente subjetiva, pois seu valor é através de uma análise qualitativa realizada pela equipe que vai contratar. Para tornar essa escolha e o preço mais racional possível, a equipe pode analisar as características do jogador, suas estatísticas, histórico de lesões, nacionalidade, idade etc., mas nunca haverá a certeza que o jogador trará os resultados esperados.

O mercado internacional do futebol está totalmente interligado, muito semelhante ao mercado internacional do comércio. Assim, existe uma relação muito clara de centro-periferia, que faz com que alguns países sejam exportadores, nesse caso de jogadores, e outros países sejam importadores. Como exemplo, temos os países sul-americanos, que contam com uma grande tradição esportiva e veem seus principais jogadores indo para países como Inglaterra e Espanha, que, no âmbito de selecionados, são seleções de tradição muito menor.

Algumas regras têm o objetivo de conter essa circulação de jogadores estrangeiros, como o limite de estrangeiros por equipe no país. Essa regra existe na maioria dos países do mundo, mas na Europa existe a questão da União Européia, a qual estipula que qualquer pessoa com a nacionalidade européia pode trabalhar como um cidadão local nos países pertencentes ao bloco. Isso aumenta a circulação de jogadores entre as ligas, e países como a Inglaterra, que tinha uma das ligas com o pior futebol, mas muito dinheiro, passam a contratar muitos jogadores, elevando a qualidade de seu futebol e a ter ainda mais dinheiro. O Brasil fica no lado oposto disso, pois seus principais atletas passam a ir para a Europa, já que os europeus têm livre circulação no continente, tornando a liga nacional mais fraca, e clubes cada vez mais endividados para tentarem manter as glórias de outros tempos.

O capitalismo, de forma idealista, vai trazer que as negociações se dão entre as mercadorias, em que as pessoas não são os principais agentes dessa relação mercantil. Contudo, em qualquer âmbito da nossa sociedade, as condições materiais são importantes, mas sem as relações pessoais, as negociações são impossíveis. O futebol não fica de fora, e os jogadores precisam de alguém para que possam jogar, aí entra a figura do empresário. Ele é o responsável por levar jogadores aos clubes, colocar os atletas no mercado etc. Essas figuras ganham cada dia mais destaque, sendo responsáveis por negociações absurdas, como o Douglas no Barcelona, ou o Keirrison no mesmo clube.

Foto: Hal Gatewood/Unsplash.

Além de uma simples mercadoria, o jogador é também uma entidade que desperta diferentes sentimentos dentro do futebol. Nele, existem valores que são mais que sua capacidade de jogar futebol, mas também uma certa áurea, quase religiosa, de que os jogadores lograrão o melhor para a equipe de seus adeptos. Mas no capitalismo isso pouco importa, e, quando importa, é somente se for para aumentar os lucros. Assim, o jogador pode ser negociado por mais que sua capacidade de jogar futebol, mas por como ele atrai dinheiro e status para a equipe. Caso muito comum com jogadores com certo nome, que vão despertar o interesse da mídia, como acontece com o Keisuke Honda sendo contratado pelo Botafogo, ou o David Beckham pelo Paris Saint Germain em 2013.

Outro fenômeno que ocorre no capitalismo, e no futebol não fica de fora, é a naturalização da mercadoria. Com ela, todas as coisas podem apresentar um preço, apesar de não serem valores. Assim, o amor, a fidelidade ou a honra, podem apresentar um preço em dinheiro, mesmo não sendo valores de fato. Dentro do futebol, isso cai na questão da venda de clubes, como o Bragantino, o Milan ou o Manchester City, em que os novos donos pouco se importam com a história das equipes, seus símbolos ou cores, estando apenas focados na acumulação de capital. Com os jogadores, as relações são mais evidentes, com jogadores se transferindo para clubes rivais, sendo algo até comum.

Essa questão não fica somente no comércio de jogadores, mas também no consumo do futebol. Assim, a periferia do sistema passa também a consumir o produto produzido na centralidade. No caso do futebol, seriam as competições televisionadas, as camisas dos clubes etc. Como exemplo, pode-se notar o aumento das vendas de camisas de clubes europeus, como as camisas infantis de futebol são mais acessíveis do que as nacionais, o aumento das transmissões dos campeonatos internacionais, e, o mais triste, os torcedores de clubes europeus. Não contente em levar nossos jogadores, uma das melhores coisas do nosso futebol, o capital também quer nossa alma.


* Este texto foi baseado em um trabalho realizado na disciplina de Teoria Sociológica I, do Programa de Pós Graduação do Instituto de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Como referência, utilizei a Primeira parte do livro “O Capital: crítica da economia política”, de Karl Marx.