138.37

A morte do ídolo: Kobe Bryant e a minha relação com o basquete

Diego Wander Thomaz

Minha história com o basquete, como espectador e praticante, é feita de aproximações e distanciamentos.

A tradição manda que experimentemos, no campo das fruições esportivas, quase que exclusivamente o futebol. É traço cultural, quase genético, do brasileiro, poder-se-ia dizer. Mas, se tomo os ensinamentos da antropologia, essa afirmação não pode passar de puro impressionismo.

De todo modo, sempre apreciei o futebol e por ele sou constantemente afetado na qualidade de torcedor (sofredor), a qual exerço desde que me entendo por gente. Com a bola nos pés, porém, quase sempre uma lástima. O que explica, em parte, minha primeira aproximação com o basquete.

Dada a inabilidade futebolística, acabei partindo, nas aulas de Educação Física, para o esporte da bola laranja. Havia duas quadras na escola em que estudava: uma, claro, destinada ao futebol, e outra mais vazia, com tabelas rústicas de madeira, que era irregularmente ocupada por jogos diversos.

Ninguém jogava basquete, na verdade (e nem havia aulas específicas para isso). Mas havia um pequeno grupo de amigos que ficava ali batendo bola, arremessando, sem correria, disputa por espaço, formação de times ou “mano a mano”.

Jogávamos uma brincadeira chamada “reloginho” (nome que, imagino, deva variar regionalmente), que consistia em arremessar a bola de vários pontos diferentes marcados no garrafão e completar a volta em torno deste, finalizando com o arremesso de 3 pontos.

Entretanto, a despeito desse contato regular com o basquete enquanto “jogo”, eu não acompanhava a modalidade, nem “torcia” por qualquer clube ou franquia.

Mais tarde, uma mudança de escola gerou novo afastamento do basquete. Os novos colegas não jogavam (ou melhor, não “brincavam” de) basquete. Até porque havia apenas uma quadra e a disputa por ela, como se pode imaginar, não era muito justa.

Entretanto, por coincidência, alguns dos novos colegas gostavam de basquete e acompanhavam (de longe, até onde era possível) a NBA. Havia algo da “cultura” do basquete estadunidense que nos chegava através de vestuários, sobretudo nos anos 1990, como as camisas do Chicago Bulls e, por algum motivo insólito, os bonés do Charlotte Hornets.

Boné do Charlotte Hornets, febre nos anos 1990 no Brasil. Foto: Pinterest

Essa “cultura” também estava presente nos jogos eletrônicos. Início dos anos 2000, lembro-me de ter adquirido um jogo de basquete da Eletronic Arts para PlayStation. Meu time favorito, sempre escolhido para as jogatinas, era o Los Angeles Lakers, de Kobe Bryant e Shaquille O’Neal. Assim, meio que sem saber, fui nutrindo simpatia pela franquia.

Posteriormente, voltei para a antiga escola e, consequentemente, a jogar o “reloginho” nas aulas de Educação Física. A propósito, nunca tive uma bola de basquete, nem frequentava quadras públicas. A escola era o único lugar em que exercia essa prática, a qual preferia manter sob uma lógica recreativa.

Ainda não absorto pelo universo da bola laranja, o contato com o basquete raramente excedia o espaço-tempo das aulas de Educação Física e a esfera descompromissada das práticas lúdicas. O futebol, falado ou jogado, ainda dominava o campo das sociabilidades esportivas nas quais estava inserido.

Findos os tempos de escola, cessado o contato constante com a bola laranja e as tabelas rústicas de madeira, fez-se um hiato de quase dez anos, nos quais eu praticamente não pensei em basquete, e “brinquei” em raríssimas ocasiões.

Esse “gosto” pela modalidade foi retomado apenas no meu último ano de graduação, quando começamos (eu e alguns amigos de turma) a acompanhar os embates dos playoffs daquela temporada (2015/16), com equipes como o Cleveland Cavaliers, de LeBron James, o Oklahoma City Thunder, de Kevin Durant, o Houston Rockets, de James Harden e o Golden State Warriors, de Stephen Curry.

Nessa mesma temporada, Kobe Bryant se aposentou. Os Lakers sequer foram aos playoffs. Mas, curiosamente, havia uma memória afetiva latente desse jogador e franquia no meu (in)consciente.

A partir de então, passei a acompanhar os jogos da liga e a vibrar com as admiráveis performances, à revelia do sistema de franquias e suas fórmulas de disputa; minha relação com esse esporte não era bem a de um “torcedor”.

Estava, afinal, tomando gosto pela emoção e tensão suscitadas por aqueles placares apertados próximos ao estouro do cronômetro, os arremessos finais “milagrosos”, as fintas, tocos e enterradas “desmoralizantes”, o trash talk, enfim, tomando gosto pela modalidade como um todo, frente ao apuro técnico e estético apresentado (ao menos na sua liga maior, a NBA).

Eis que chegamos ao fatídico ano de 2020.

Era um domingo e eu estava na casa de amigos para um almoço seguido da rodada de futebol. Não era jogo do meu time (ao contrário, era do time rival), mas estava ali pela sociabilidade, comensalidade, enfim, pelo que o futebol evoca de pretextos de toda sorte para se tomar cerveja e estar entre amigos, praticar jocosidades e passar o tempo.

Quando, em determinado momento da partida, foi dada a notícia do acidente de helicóptero que vitimou Kobe, pensei estar ouvindo coisas. Os amigos presentes, sem muita convicção, confirmaram a informação. Ato contínuo, peguei o celular e fui atrás da notícia. Minhas mãos estavam trêmulas; estava realmente em choque. Passado o primeiro impacto, acompanhado da descrença e negação, senti-me triste.

Não restava dúvida, Kobe era importante para mim. Eu o admirava. E esse sentimento não passava por uma identidade ou afeição plenamente consolidadas. Havia, porém, algo de afetivo que nutria essa relação, que me (re)conectava ao basquete.

Kobe Bryant é considerado um dos maiores jogadores da história do basquete, com 5 títulos da NBA no currículo (2000, 2001, 2002, 2009 e 2010) e 2 medalhas olímpicas de ouro (2008 e 2012). Atuou por 20 anos como profissional pela mesma franquia, o Los Angeles Lakers.

Kobe Bryant em quadra. Foto Wikipédia

No seu jogo de despedida, em 2016, Kobe encerrou sua carreira com uma performance de incríveis 60 pontos, fechando a noite com um discurso emblemático no ginásio Staples Center. Ao final, a frase de efeito que ficaria marcada: “Mamba Out!” (Black Mamba era como se denominava, uma espécie de alter ego).

Kobe era obcecado por tudo que fazia. Parecia programar cada passo de sua trajetória, digna de roteiro de filme. A propósito, sua carta de despedida ao basquete, chamada “Dear Basketball”, virou animação e ganhou até um Oscar. Uma biografia extraordinária em todos os sentidos.

Por mais uma dessas coincidências da vida, Kobe havia sido ultrapassado por LeBron James no dia anterior ao acidente como o terceiro maior “cestinha” (pontuador) da história da NBA.

LeBron, aclamado como um dos melhores de todos os tempos, já era um astro dos Lakers e grande amigo de Kobe, que lhe enviou congratulações pelo feito. Só se falava disso no mundo do basquete. O feito era de LeBron, mas a figura de Kobe, obviamente, à reboque, veio à tona.

Tudo isso um dia antes, na noite de sábado, 25 de janeiro. Na manhã de domingo, dia 26, houve o acidente. Mais tarde se soube que havia mais oito pessoas no helicóptero, incluindo sua filha Gianna Bryant (conhecida como Gigi). Ninguém sobreviveu. Kobe tinha 41 anos. Gigi, 13.

Kobe e Gianna Bryant no All-Star Game de 2016. Foto: Reprodução Twitter

Fiquei me perguntando por que a morte de Kobe me impactou tanto. O fato em si, claro, já é bastante triste. Ninguém espera que algo dessa natureza aconteça a quem quer que seja, quanto mais alguém tão emblemático. Estava aposentado havia 3 anos e meio, mas era figura presente nos jogos e eventos da NBA. Kobe não saiu do radar.

Além disso, treinava diariamente com Gigi, tida como promessa do basquete feminino. Diante de sua perda, nunca saberemos de sua realização. Resta o consolo de saber que amava o basquete tanto quanto o pai. Estavam a caminho de um jogo na Mamba Sports Academy.

Fica a impressão de que o obstinado Kobe, que tanto se dedicou ao esporte, não teve tempo de aproveitar a aposentadoria e acompanhar o crescimento das quatro filhas. E a certeza de que tinha muito ainda a contribuir com o basquete.

E emerge uma vez mais aquela sensação de vazio por não ter acompanhado tão bem quanto poderia a sua carreira. Talvez assim poderia falar com mais propriedade, quem sabe, “não vi Jordan, mas vi Kobe”.

E esse sentimento, evocado no seu último ato enquanto profissional, retorna com maior força após a sua morte. Kobe já estava aposentado, é verdade, mas ainda estava lá. E de repente não havia mais Kobe. É estranho. Afora o lamento e pesar profundos, é como se o encanto outrora emanado tivesse se perdido para sempre. O mundo do basquete, definitivamente, não será mais o mesmo.

E, no último dia 11 de outubro, como que para coroar o acervo de tributos e celebrações à vida de Kobe Bryant, o Los Angeles Lakers, de LeBron James, sagrou-se campeão dessa tão atípica temporada 2019/20. Pura coincidência, poderiam dizer. Para mim, mais uma demonstração da força incomum e admirável dessa lenda do esporte.

Rest in Power, Mamba.

Sobre a morte de ídolos e seus efeitos culturais e psicossociais, recomendo este ensaio em vídeo: 


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Como citar

THOMAZ, Diego Wander. A morte do ídolo: Kobe Bryant e a minha relação com o basquete. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 37, 2020.