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A mulher e o futebol: de acompanhante a torcedora

Mayara de Araújo

A história do futebol está cheia de consensos, mesmo transcendendo o continente europeu, parece que sua trajetória se repete. O jogo foi do rico para o pobre, da aristocracia para o operário, do branco para o negro. Não atrevo dizer que nada mudou, pois a historiografia a respeito do esporte em muito tem avançado. Alguns estudos são importantes nesse processo de propor aos historiadores novos caminhos e perspectivas. Atenho-me principalmente a Edward Thompson[1], que em seus estudos não esteve preocupado em fazer uma história de gêneros ou história das mulheres, mas ao olhar para camponeses e seus costumes, coloca-os como agentes de sua própria história, identificando que fazendo uso de suas tradições conseguiam manter seus interesses ou adequá-los as novas realidades que vinham sendo submetidos. Essa nova forma de olhar para história, deve ser aplicada para diferentes objetos e, tem sido feito.  

No futebol e, particularmente no contexto brasileiro, uma obra que questionou a trajetória linear do esporte bretão, é a de Leonardo Afonso Pereira[2], que demonstra os conflitos em torno da recente prática na cidade do Rio de Janeiro. Não somente este, mas outros historiadores foram motivados, talvez por suas paixões, a melhor compreender as lacunas que existem em relação ao futebol. Michael Certeau, sobre a cultura popular, menciona que os estudos científicos e as obras privilegiadas, comportam vastas regiões de silêncios[3]. Logo, são esses silêncios existentes nas obras e em documentos relacionados ao esporte, que hoje buscam ser respondidos. Uma história vista de cima, aonde poucos são os atores, deixaram de ser suficientes. Compreende-se que a ausência muito tem a nos dizer, aquilo que a fonte oculta também pode ser utilizado para entender aqueles indivíduos que a história sempre buscou rejeitar.   

Hoje, não há o que se questionar sobre a presença de indivíduos para além da classe média, que também se tornam fundamentais no processo de popularização do futebol, mesmo com todos os empecilhos impostos. Entretanto, ainda hoje, a historiografia tende a enxergar apenas indivíduos do sexo masculino. O ambiente esportivo, principalmente se tratando do futebol, se torna um espaço reservado aos homens, porém isso não significa que as mulheres não tenham sido importantes no processo de consolidação do jogo na capital federal. É necessário levar em consideração, que o futebol é mais do que as quatro linhas, não é preciso estar em campo para poder estar inserido neste meio. A partir de 1910, o futebol começa a atingir sua popularidade, começando então a desbancar a principal atividade esportiva durante os anos iniciais, o remo. Em 1911, João Malaia destaca que alguns jornais, como Correio da Manhã, o Paiz e o Imparcial, começam a expor o valor dos ingressos cobrados para o acesso as arquibancadas dos clubs[4].

O que pretendo assinalar é que, a partir de 1910 o futebol deixa de ser apenas um elemento simbólico utilizado para definir a posição social dos que os praticavam, se tornando também algo capaz de proporcionar lucros. Aos poucos, ter as arquibancadas cheias vai se tornando um aspecto importante para o esporte bretão, levando inclusive a construção de estádios maiores. A partir deste momento, observamos a importância de novos indivíduos para o desenvolvimento do esporte, que estariam longe dos quadros de sócios e distantes do campo, mas que se tornam cruciais para os clubes, os torcedores. Hoje, é claro a importância dos torcedores na manutenção dos clubes de futebol.

Torcedoras dos grandes clubes paulistas nos anos 1920

Torcedoras dos grandes clubes paulistas nos anos 1920. Foto: Acervo do Museu do Futebol

A ausência da figura feminina não é algo que se limita apenas ao jogo na cidade do Rio de Janeiro, mas em praticamente todo historiografia relacionada ao futebol. Quando retratada, é vista de forma semelhante, como apenas acompanhantes dos homens de suas famílias. Uma obra bastante utilizada e que retrata essa visão, é a de Mario filho, que como jornalista e cronista, evidencia qual era a função das mulheres ou, qual a função se esperava dessas mulheres quando estavam assistindo aos famosos matches. O jornalista expõe que “jogador sem carapuça, sem faixa, era jogador sem namorada. Ou sem irmãs. Porque as irmãs não queriam que os irmãos fizessem feio”[5]. Essa percepção do autor, demonstra como o jogo e a presença das mulheres nesses ambientes se tornam importante na manutenção da masculinidade dos players.

A partir da revista Jornal das Moças, que surgiu no ano de 1914, tendo por fundadores Alváro Menezes (diretor e redator) e Agostinho Menezes (diretor responsável)[6], é possível observar que a relação que se estabelece entre as mulheres e o futebol durante a primeira metade do século XX, era algo mais íntimo do que costuma se relatar. Jornal voltado para mulheres de classe média e fundado por homens, com interesse em ditar o comportamento social e familiar da mulher, circulou entorno de cinquenta e seis anos, não só no estado do Rio de Janeiro, mas em outras regiões. Com assuntos em suma maioria, voltados para questões amorosas, dicas de moda ou culinária, típicos assuntos relacionados a figura feminina. Marcia Cezar Diogo, destaca que durante a primeira metade do século XX, as revistas passam a ter a função de propagar os padrões que eram vistos como modernos, além de educar e direcionar as mulheres aos novos valores[7]. A presença de assuntos voltados para futebol, em uma revista para mulheres, permite observar como o esporte havia se constituído um importante contribuinte no ideal moderno.

Mesmo que os espaços voltados para o esporte fossem poucos, observa-se que o jogo também estava presente na vida dessas mulheres. Não ouso afirmar que todas carregassem algum tipo de sentimento pelo recente esporte bretão, mas não se deve reduzir a frequente ida aos estádios, a um mero interesse pelos players. Uma das grandes problemáticas sobre a atuação da mulher na história, está em considerar apenas algumas atitudes. Para participar de determinado processo histórico, esta não necessariamente carece estar envolvida em manifestações nos espaços públicos ou confrontando diretamente todos os homens por serem os grandes responsáveis na definição do lugar que deveriam ocupar.

De forma interessante, E. Thompson expressa isso em um dos seus capítulos em Costumes em comum. No capítulo sobre a “venda de esposas”, o historiador não nega que o ritual representasse uma dominação masculina sobre a mulher, mas ressalta que em determinadas situações a um consenso entre ambas as partes. A mulher agia a partir de um ritual que pretendia subjuga-la, conseguindo alcançar seus interesses. Apesar de contextos completamente diferentes, o que pretendo ressaltar é que os limites impostos as mulheres, não significam ausência de ação ou participação. Se tratando do futebol, a mulher se vê proibida de entrar em campo ou ocupar o quadro de sócios dos grandes clubes cariocas. A ela é reservada as arquibancadas, aonde seu papel de torcedora é permitido e, mesmo que ignorada tal função por estudiosos, concorda-se que sem a figura do torcedor, poucos lucros teriam os clubs.  

Na revista Jornal das Moça, algumas imagens nos permitem identificar a presença feminina em locais mais restritos que as arquibancadas, como em reuniões da diretoria de alguns clubes[8]. Como apenas acompanhante de seus esposos ou não, essas imagens nos permitem observar que a participação da mulher dentro do ambiente esportivo não se restringia aos matches, que estavam mais presentes do que a historiografia aponta. Da mesma forma, é comum vê-las como responsáveis por organizar e serem anfitriãs de eventos quando seus clubes se sagravam campeões. Essa vivência com o meio desportivo e, mais especificamente, com o football, demonstra que o jogo já se sagrava presente no cotidiano dessas senhoritas. Que a proximidade com o ambiente esportivo, tenha transformado, aos poucos, a percepção destas em relação ao jogo. A própria revista, a partir de 1918, cria um concurso voltado para eleger a “torcedora mais apaixonada”, o qual recebe um grande número de inscrições[9]. Da mesma forma, expõe a criação do Bloco do America, criado por torcedoras e, que de acordo com o colunista, vinha fazendo sucesso na região[10]

Time de mulheres

Time de mulheres posa para tradicional foto nos anos 1930. Foto: Acervo Museu do Futebol.

As publicações por parte da revista, seja mobilizando as mulheres a partir de um concurso ou mencionando o envolvimento dessas com determinados clubes, permite indagar se realmente faz sentido limitar a presença feminina nos estádios, a um interesse pelo sexo masculino. As narrativas que associam a ida dessas mulheres aos matches, preocupadas unicamente, com o famoso “flirt”. Jogo de sedução que muitos cronistas destacam ocorrer nesses ambientes. Na realidade, estão determinando qual deveria ser a função da mulher dentro desses espaços. É como se a mulher só existisse a partir da figura masculina, como se seus interesses estivessem associados aos outros, nunca apenas a si própria. O problema de reforçar tais visões, é que englobam todas as mulheres dentro de uma mesma percepção, como se todas tivessem os mesmos intuitos ao frequentar um jogo. Essa forma de observar a figura feminina busca manter o ambiente esportivo reservado ao homem. A rejeição em aceitar que uma mulher possa gostar e entender do esporte, não necessariamente nutrir atração pelos jogadores, tende a delimitar o lugar de cada um dentro do ambiente que, de acordo com o sexo masculino, foi feito por e para eles. 

Já foi esclarecido o significado da palavra “torcedora”, que demonstra, justamente, a presença assídua das mulheres nos estádios. Entretanto, não as enxergam como importante também no processo de consolidação do esporte. Obviamente, que o crescimento do esporte na cidade, modifica esses ambientes tidos como privados, aonde permitiam apenas homens e famílias, que pertenciam ao mesmo grupo social, em público. Dessa forma, a presença feminina tão normal, vai se tornando incomum, porém não inexistente. São essas mulheres que, ao não poder entrar em campo, ocupam as arquibancadas e passam a nutrir sentimentos e interesse cada vez maior pelos times que torciam. A história da mulher no futebol, começa com a introdução do esporte na cidade do Rio de Janeiro, indo aos jogos inicialmente apenas para acompanhar, porém mais tarde, estabelecendo novas ligações com os clubs. Restringir o espaço da mulher, não significou falta de participação. Elas tiveram sua participação limitada, porém dentro do ambiente que as reservaram, construíram novas formas de se relacionar, forma essa, que hoje exercemos com grande paixão. 

 

Notas

[1] THOMPSON, Edward Palmer. Costumes Em Comum: Estudo Sobre Cultura Popular Tradicional. São Paulo: Companhia Das Letras, 1988.

[2] PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: Uma História Social do Futebol no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

[3] CERTEAU, Michel de. A beleza do morto. In: ______. A cultura no Plural. Campinas: Papirus, 1995

[4] MALAIA, João Manuel C. MALAIA, João Manuel. O futebol na cidade do Rio de Janeiro: microcosmo dos mecanismos de poder e exclusão no processo de urbanização das cidades brasileiras (1901-1933)”. In: Encontro Regional de História: poder, violência e exclusão, 19, 2008, São Paulo. Anais […]. São Paulo: ANPUH/SP – USP, 2008.

[5] FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2003, ed.5, 2010.

[6] SOARES, Diego; SILVA, Ursula. O jornal das moças: uma narrativa ilustradas das mulheres de 30 a 50 e sua passagem por pelotas na década. XVII Seminário de História da Arte, UFPel, 2013.

[7] DIOGO, Marcia Cezar. O moderno em revista na cidade do Rio de Janeiro. In: _______. História em cousas miúdas. Campinas: Unicamp, 2005.

[8] Jornal das Moças, ed.00054, 1916, p.32.

[9] Jornal das Moças, ed. 00144, 1918, p.16.

[10] Jornal das Moças, ed. 00087, 1916, p.29.


Como citar

ARAúJO, Mayara de. A mulher e o futebol: de acompanhante a torcedora. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 51, 2021.