17.3

A necessidade do outro (ou “A rivalidade Brasil e Argentina”)

Marcos de Abreu Melo

Muitos dos estudiosos do futebol no Brasil apontam o pertencimento clubístico como a mola propulsora da paixão do nosso povo pelo esporte bretão. Em outras palavras, é o sentimento de pertença, o fato de se ligar a um clube que faz dos brasileiros amantes do futebol. Torcer por uma agremiação, Cruzeiro, Galo, Palmeiras, São Paulo, Vasco, Flamengo, Grêmio ou Inter, vai muito além de simplesmente acompanhar os jogos do time. Torcer por um clube carrega imbuídos valores, princípios, ideais, histórias e sonhos que se diferenciam do torcer por outros clubes.

No entanto, os estudos mostram que, ao menos nas grandes cidades, esse pertencimento clubístico traz consigo a necessidade do arqui-rival, do contraponto, do diferente… Enfim, a necessidade do outro. A própria afirmação do eu depende da negação ou diminuição do outro. Assim, torcer pelo Cruzeiro, por exemplo, não é apenas diferente de torcer pelo Atlético; ser cruzeirense é não ser atleticano ou ser anti-atleticano. E vice-versa.

Mas como essa paixão e esse torcer se dão, então, com a Seleção brasileira? Eis uma questão de complicada resolução. Certamente o selecionado canarinho ativa em nosso povo alguns sentimentos meio adormecidos, próximos do nacionalismo e do ufanismo, que andam sumidos no dia-a-dia. Além disso, seu reconhecido sucesso internacional nos dá orgulho, prazer, quase um sentimento de superioridade, não muito comum em outras esferas sociais, políticas e econômicas, embora isso esteja mudando nas últimas décadas.

Não bastasse isso, historicamente a Seleção brasileira sempre teve em seu elenco jogadores de vários dos grandes clubes nacionais, o que espontaneamente gerava simpatia dos torcedores desses times agraciados nas convocações. Porém, nos últimos vinte anos, essa tendência se inverteu, com os melhores jogadores tupiniquins atuando nos ricos clubes europeus e apenas um ou outro atleta de equipes brasileiras sendo convocado para a Seleção nacional. Tal fenômeno pode ajudar a explicar a aparente diminuição do interesse do povo pela Seleção verde e amarela.

Porém, dentro de todos esses parâmetros, fica faltando a presença do outro, do arqui-rival, fator citado como importante nas relações clubísticas. A Seleção brasileira não tem um grande inimigo? É difícil afirmar com certeza. Nossa equipe tem fãs no mundo todo, mas também muitos adversários históricos. Contudo, parece claro, principalmente por parte da mídia, a necessidade da criação desse arqui-rival e tudo indica que foi a Argentina a seleção escolhida para cumprir tal papel.

Naturalmente que os diversos enfrentamentos com os hermanos em campeonatos sul-americanos (entre seleções e clubes também), em eliminatórias para Copas do Mundo e nos próprios mundiais, além da proximidade geográfica e de algumas rusgas históricas favoreceram a escolha da Argentina como o outro a ser batido. Mas parece-me inegável que a mídia, sobretudo representada pela emissora de televisão dominante no país e por alguns anúncios comerciais, tem cumprido o papel de catalisadora dessa rivalidade.

Vencer a Argentina soa, em transmissões televisivas, como o deleite supremo. Os argentinos são muitas vezes associados a aspectos negativos como catimba, soberba e deslealdade. Características que são reforçadas de maneira zombeteira em comerciais de cerveja e de outros produtos nos intervalos das partidas. Mas será que esse é de fato o sentimento do povo brasileiro para com o povo argentino? E, mais importante ainda: será que esse sentimento é recíproco, ou seja, os argentinos também nos veem com maus olhos?

É difícil dizer com certeza, mas noto que os brasileiros não têm, em geral, tanto preconceito com seus vizinhos do sul, apesar de a referida influência da mídia conseguir ativar algumas resistências, nem de longe compartilhadas por todos os cidadãos. Por outro lado, tenho conversado com vários argentinos ao longo dessa Copa do Mundo e percebo, no jeito deles e no seu discurso sobre seu país, que definitivamente eles não apresentam tantas visões negativas em relação ao Brasil. Pelo contrário, parecem ter grande admiração por nós, tanto no futebol quanto em outras esferas.

Se chegam até nós notícias de que jornais da Argentina riem-se e deliciam-se com as derrotas de nossa Seleção de futebol, parece prudente duvidar que tal sentimento corresponda ao da maioria do povo argentino. Da mesma maneira, alguns dos nossos meios de comunicação divulgaram chacotas e deboches com a eliminação da seleção argentina frente à Alemanha, contrariando uma tendência de vários brasileiros de torcer pela “Alviceleste”, por seu futebol ofensivo e bonito. Faz parte do negócio, só não podemos nos deixar enganar pelos “fazedores de opinião”.

Olha que eu ainda não falei das propagandas. Aqui no Brasil, os argentinos são usados em comerciais (sobretudo de cerveja) como os idiotas que se julgam superiores, mas que na verdade não sabem o que de fato é bom. A zombaria com os hermanos é mais importante do que falar do próprio Brasil e de suas qualidades.

O mesmo não acontece na Argentina. Tive acesso a alguns comerciais do país relacionados à Copa do Mundo de 2010 e as referências centram-se praticamente na valorização da seleção nacional e do sentimento argentino. Alguns exemplos podem ser vistos nos links para o Youtube abaixo listados:

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Comercial de um canal de esportes relacionando o futebol com animais africanos:

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Uma obra-prima de um canal de esportes, que mostra as particularidades da sociedade e do futebol argentinos [vídeo não disponível]

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Propaganda da Coca-Cola, feita também no Chile, no Paraguai e no Uruguai, mostrando as características do torcer nesses países [vídeo não disponível]

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Outra obra de arte da publicidade, assinada pela Quilmes, marca de cerveja argentina. Eu, brasileiro, arrepiei até a alma:

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Enquanto isso, meu caros, nós brasileiros ficamos assistindo bobagens de “brasileiro guerreiro” ou “argentino que vira a casaca só por tomar uma cerveja”. Tudo pela necessidade do outro. Uma lástima. E ainda dizem que nossos criadores de campanhas publicitárias são mundialmente reconhecidos por sua qualidade e criatividade. Será?

Como citar

MELO, Marcos de Abreu. A necessidade do outro (ou “A rivalidade Brasil e Argentina”). Ludopédio, São Paulo, v. 17, n. 3, 2010.