09.3

A negra estrela da ilha – Bolama, Guiné Bissau

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Para o Estrela Negra de Bolama, jogar fora é o cabo dos trabalhos. Primeiro, os jogadores têm que pedir uma piroga emprestada e mendigar dinheiro à comunidade da ilha para comprar gasolina para o barco. Como em Bolama não costuma haver dinheiro e nem sempre há uma piroga a mais, a equipa é obrigada a deslocar-se para os jogos na canoa pública, apertados no meio da multidão, entre peixes mortos e galinhas vivas. Quando o vento espicaça o mar, têm de lutar contra o enjoo e o perigo de naufrágio. Quando a maré está baixa, ficam encalhados em bancos de areia, algures nos 9km que separam Bolama de Bissau, a primeira ilha do arquipélago dos Bijagós da capital da Guiné-Bissau. Depois, quando chegam ao novo relvado sintético do estádio Lino Correia, em Bissau, escorregam constantemente porque nenhum jogador tem pitons nas chuteiras. Aliás, poucos são os que têm chuteiras. Na semana passada, com o resultado em 3-3, o guarda-redes escorregou e não conseguiu parar um remate fraco. O Estrela Negra perdeu o jogo.  Porque se sujeitam estes homens a tantas adversidades para disputar o campeonato nacional da 2ª divisão da Guiné? Não é seguramente pelo salário, pois nenhum dos 25 jogadores e dos elementos da equipa técnica recebe um único cêntimo. “O futebol faz-nos sentir vivos”, explica Silvestre Cabral, médio-defensivo de 31 anos. “E isso é importante quando se vive numa ilha morta. Não há dinheiro, não há trabalho, ninguém quer viver em Bolama. Aqui os jovens só podem fazer três coisas: estudar, nadar e jogar à bola”.

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Estrela Negra de Bolama fotografado no cais da ilha de Bolama. Foto: João Henriques.

Bolama em peso desloca-se ao cais para a partida e chegada das canoas de Bissau. É o único momento em que os bolamenses podem comprar um jornal, saber novidades, conhecer pessoas novas, adquirir comida e enganar a insularidade. A partir do momento em que viram as costas ao porto entram numa cidade-fantasma. Bolama, primeira capital da Guiné portuguesa entre 1879 e 1941, está a morrer lentamente. Outrora uma das pérolas do império ultramarino português, tem hoje a sua fachada colonial em ruínas, vacas e cabras a dormir em palácios decrépitos, hoteís e bancos perdidos nos escombros, piscinas secas e abandonadas e crateras na estrada. A cidade já teve luz eléctrica, água canalizada, fábricas e automóveis. Agora não tem nada. Não há circulação de dinheiro suficiente para comprar meios de transporte, as fábricas fecharam, não corre água nas torneiras e cortaram os cabos eléctricos para vender o cobre em Bissau. A Guiné-Bissau esqueceu-se de Bolama e os jovens foram obrigados a partir. Silvestre fez o mesmo – completou o 11º ano em Bissau e queria seguir os estudos de direito ou jornalismo. No entanto, foi obrigado a regressar à sua tabanca em Bolama para tratar da mãe. Hoje é professor de português na Escola Adventista e ganha 23 mil CFA por mês (34 euros). Só um saco de arroz para o mês inteiro custa 15 mil.

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Silvestre, professor de Português e Meios Sociais e jogador do estrela negra de Bolama. Foto: João Henriques.

Ouvir uma aula de história em África é constrangedor para um branco.“Os portugueses criaram um rede de entrepostos de escravos por África: Ceuta, Gorée, Cacheu, Mina….”, enumera Silvestre na sala de aula, perante a atenção de 15 alunos. A sala é feita de tijolos de areia amarelada e tem janelas de chapa de zinco. No quadro, Silvestre desenha os continentes europeu, africano e americano e um triângulo a ligá-los: “Isto é o comércio triangular. Os europeus levavam os escravos africanos para a América para trabalhar na produção de açúcar e cacau para a Europa”, explica. Em 1466-47, os navegadores portugueses chegaram a Bolama que fazia parte do Império do Mali e em 1588 instalaram a primeira povoação na Guiné, em Cacheu. Já no século XIX, a Inglaterra reivindicou o controlo de Bolama mas, por arbitragem do presidente norte-americano Ulysses Grant, abdicou da sua pretensão. Bolama passou a ser explorada pelos portugueses que nela prosperaram até 1973, ano da independência da Guiné. Nesse ano, os colonos foram-se embora e levaram tudo o que puderam. Não quiseram saber mais da cidade. Seguiram-se 37 anos de má governação e de instabilidade política na Guiné que deixaram Bolama num isolamento atroz. Assim se escreve a triste história de uma ilha.

Muitas vezes, Silvestre tem de faltar aos treinos e aos jogos para leccionar. “O futebol é um prazer mas não me põe comida na mesa”, diz. Cresceu na tabanca Luanda, homónima da capital angolana mas a sua antítese no que toca à agitação, com os pais e irmãos. Luanda é uma aldeia de casas com telhados de palha ou de zinco onde vivem maioritariamente membros da etnia mancanha, que são bons pastores. “No primeiro dia de aulas, agarrei-me às vacas do meu pai porque não queria ir para a escola. Gostava de pastar”, diz Silvestre. Contudo, a aldeia tem hoje menos animais, apenas uns porcos e umas galinhas subnutridas a partilharem os mesmos grãos de milho. Bolama vive essencialmente da castanha de cajú, de que a Guiné-Bissau é o sexto maior produtor mundial, e que é chamada de “diamante do povo”. Mas o preço do cajú caíu. Dantes era vendido a 200CFA /Kg(30cent/kg) e podia ser trocado directamente por 1kg de arroz, a base da alimentação guineense. “Hoje precisamos de dois quilos de cajú para um de arroz. Ainda por cima, os comerciantes escondem o arroz para inflaccionar o preço”, diz Quintino da Cunha, o chefe da tabanca.

A dor do quotidiano é sedada pela loucura do futebol. Apesar de disputar a segunda divisão nacional, o Estrela Negra pode orgulhar-se de ter sempre as bancadas preenchidas nos treinos e nos jogos. O clube está em terceiro lugar e pretende a promoção para o primeiro escalão. É compreensível. O Estrela está habituado a estar entre os melhores. Foi fundado em Abril de 1933 por um grupo de bombeiros portugueses com o nome Bombeiros Voluntários de Bolama e só mudou de nome para Estrela Negra após a independência. A sede está abandonada. O campo, rodeado por muros feitos de folha de palmeira, tem vista para o mar celeste. Sobre a terra alaranjada correm atletas com sandálias de plástico. “Treinamos todos com plástico e quando calçamos os ténis não conseguimos jogar porque não estamos habituados. É impossível jogar bem assim”, diz Guto Fortes, 36 anos. Guto já jogou quase 20 épocas com a camisola do clube. “Tudo muda quando existe um apoio. Fomos ajudados pelo Sporting de Espinho, pelo Farense e pela AMI e nessas alturas os resultados melhoraram”, diz o ponta-de-lança. A história de Guto é exemplificativa de como é a vida na Guiné, dentro e fora dos estádios. Guto tinha uma vida estável como encarregado de uma padaria com forno eléctrico. “Quando rebentou a guerra civil e a fome, em 1998, as pessoas deixaram de comprar pão cozido em forno eléctrico, mais leve, para comprar massas mais pesadas”, diz o jogador. A padaria fechou e Guto foi obrigado a regressar a Bolama e ao Estrela Negra. Apesar de ter sido um dos mais virtuosos jogadores do campeonato, não pôde sair da ilha para ajudar a família. Tornou-se pintor mas diz que em Bolama ganha três vezes menos do que em Bissau por cada obra que faz. Mesmo assim, Guto não é dos que mais se pode queixar. O treinador Anso Conte, 30 anos, não tem trabalho. Vive da solidariedade comunitária, o maior ganha-pão na Guiné-Bissau. “Se não fosse a partilha das coisas pelo povo não se podia viver neste país, diz Seco Camara, presidente do clube e funcionário do Ministério das Finanças, à mesa de um restaurante a que diz só poder ir muito raramente por falta de dinheiro. Um prato custa 5 euros.

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Chuteiras. Foto: João Henriques.

Damos a volta à ilha com João Veríssimo, 65 anos, filho de Bolama e dirigente do Estrela Negra. Vemos como Bolama representa o mosaico étnico que é a Guiné-Bissau, com 23 povos dentro do mesmo país. Na ilha, há tabancas de todas essas etnias e reina a boa vizinhança. Por exemplo, os mandingas da tabanca Gambiafada, islâmicos e comerciantes, vivem paredes meias com os mancanhas de Kassukai, animistas e pastores. Só há discussão quando as vacas dos mancanhas entram na mesquita de Gambiafada mas tudo se resolve. Num país tão pobre, é impressionante existir tanto pacifismo e uma taxa de criminalidade tão baixa. “A Guiné-Bissau tem tudo para ser um país bom”, diz Veríssimo. “Mas os nossos governantes deixaram isto na pior das condições”. Passamos agora por mangueiras, cajueiros e laranjeiras destruídos pela praga da mosca branca e pelas alucinantes construções das formigas Baga-Baga, que podem chegar aos 3 metros de altura. As Baga-Baga conseguem pôr em pé um castelo de areia em uma semana. A Guiné-Bissau está há 37 anos a tentar levantar-se como nação e não consegue sair do solo.

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Bandeira. Foto: João Henriques.

De seguida, vemos a praia de Ofir, para onde vinham passar férias as altas patentes das Forças Armadas portuguesas, esquecida e abandonada, com o passado enterrado no lodo argiloso onde cresce o mangal. Faz-se noite e voltamos à cidade. A guerra não atingiu Bolama mas a cidade parece ter sido bombardeada por sete exércitos. “Bolama mete pena. Não há filho desta terra que não tenha vontade de chorar quando a olha. Mas temos sempre esperança que a vida melhore”, diz Veríssimo. Essa esperança ouve-se até em Bissau, da boca dos jovens que trocaram a ilha pela cidade, o Estrela Negra por um clube da capital. Quando falam da sua terra dizem sempre: “Bolama desmaia mas não morre”.

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Foto: João Henriques.

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Foto: João Henriques.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup* Foi mantida a grafia original, no português de Portugal

Como citar

CARRASCO, Tiago; HENRIQUES, João; FONTES, João. A negra estrela da ilha – Bolama, Guiné Bissau. Ludopédio, São Paulo, v. 09, n. 3, 2010.