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A oração da torcida

Guilherme Trucco

O futebol vai voltando com portões fechados. Inexato. Inexato. O que está voltando é outra coisa qualquer. Um primo distante do futebol, se muito. Sou contra a volta do futebol agora, principalmente porque a pandemia está longe de estar controlada. Ponto 1. Agora, repare bem, para além da questão das vidas, há ainda outro problemaço: isto não é futebol.

Exatamente pela falta dela, a torcida. Sem ela não há a essência. A alma do futebol. Sem ela se petrifica a máxima que tanto odiamos: são apenas 22 marmanjos correndo atrás de uma bola.

Puritanismo meu? Nem isso.

Um estudo da Universidade de Reading, na Inglaterra, analisou os jogos das cinco principais ligas europeias desde a “volta” do futebol e comparou com resultados das mesmas ligas na temporada de 2002/2003. Conclusão: os times mandantes, com estádios fechados, não conseguiram ganhar tanto quanto com estádios cheios.

A elitização do futebol alemão. Foto: Maxpixel.

Repare. No campeonato alemão, desde o retorno, foram 72 jogos disputados em 8 rodadas. Nesse período o aproveitamento dos mandantes foi de apenas 36%, enquanto em condições normais de pressão e temperatura (estádios com torcedores) o aproveitamento é de 50,2%.

Não sou de me apoiar em números e estatísticas. Muito pelo contrário. Tendo mesmo a ignorar os fatos, pois acredito que futebol é muito mais do que o número. Entretanto, é inapelável a conclusão: o grito da torcida ganha jogos.

Para piorar, o fenômeno tem explicações sórdidas: Os times grandes como Bayern de Munique, e Borussia Dortmund (líder e vice líder atuais, e que a cada ano polarizam um campeonato enfadonho por não ter competitividade) foram o fiel da balança. Eles foram os visitantes que mais tiraram pontos dos mandantes. Não me resta outra alternativa a não ser concluir que a única forma que times de menor poder aquisitivo teriam de “igualar” as chances contra uma equipe redundantemente milionária seria através do grito apaixonado de sua torcida em casa. A mandinga apaixonante das arquibancadas, aquela corrente de energia que faz o jogador tirar fôlego de onde não tem ou acertar um chute santo que em condições normais nunca acertaria. Essa energia, com portões fechados, deixa de existir.

Tempos bons: Jogo na Rua Javari com torcida. Fonte: Acervo pessoal do autor.

O que sobra é a frieza dos dólares de investidores montando times e lavando dinheiro, e um campeonato de um mesmo e único campeão. Toda vez.

Novamente os times pequenos, tradicionais, de torcedores de bairro, apaixonados, sofrerão com cada vez menos dinheiro de contratos de televisão, e nem na ajuda do seu próprio torcedor pode se apoiar.

Ecoa na mente a pressão do Flamengo em retornar o quanto antes com o futebol, com a ganância de negociar contratos isolados, mandar e desmandar no futebol, sem pensar em seu próprio torcedor que não tem nem 10 reais, muito menos plano de dados de internet para ver transmissões pelo youtube.

A quem interessa que times de grandes investidores fiquem cada vez mais grandes e os pequenos cada vez mais pequenos?  

O silêncio de um estádio vazio é mesmo ensurdecedor.

O torcedor é a última linha de frente do verdadeiro futebol.


Como citar

TRUCCO, Guilherme. A oração da torcida.