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A “origem clubística”; e o “torcer contra”; da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2018

Cristiane Nestor de Almeida

Quase em seu fim, o ano de 2018 foi também marcado pela realização da Copa do Mundo de Futebol Masculino na Rússia.

Além da Rússia, a anfitriã, a seleção brasileira foi a primeira a garantir sua participação no Mundial, continuando a ser a única a participar de todas as edições. Nessa Copa, a participação do Brasil foi até o dia 6 de julho de 2018, quando foi eliminado por 2 a 1 pela Bélgica, nas quartas de final.

Porém, nesta edição mais do que nas outras, existiu um movimento de “torcer contra” a seleção brasileira, até mesmo para os mais aficionados por ela. Motivos podem ser os mais diversos: a cicatriz deixada pelo 7 a 1 na eliminação vexatória para a Alemanha na Copa de 2014; a corrupção política nas entidades que regem o futebol brasileiro; a elitização dos estádios elevando o preço dos ingressos e também a origem da seleção que atua quase totalmente fora do Brasil.

Diferentemente da seleção campeã – a França – e apelidada de multicultural por causa das diversas nacionalidades de seus jogadores, o Brasil manteve a nacionalidade dos seus jogadores, mas sua “origem clubística” foi quase toda internacional. Dos 23 jogadores, levados para a Rússia, apenas três deles atuam no Brasil: Cássio, Geromel e Fágner.  O quadro 1 ajuda a ilustrar essa informação.

Cássio durante treino da seleção brasileira. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

JOGADOR POSIÇÃO
CLUBE ATUAL
 
1)      Alisson Goleiro Roma
2)      Ederson Goleiro Manchester City
3)      Cássio Goleiro Corinthians
4)      Danilo Defensor / lateral Manchester City
5)      Geromel Defensor Grêmio
6)      Filipe Luís Defensor/ lateral Atlético de Madrid
7)      Marcelo Defensor/ lateral Real Madrid
8)      Marquinhos Defensor PSG
9)      Miranda Defensor Internazionale
10)   Fágner Defensor/ lateral Corinthians
11)   Thiago Silva Defensor PSG
12)   Casemiro Meio campista Real Madrid
13)   Fernandinho Meio campista Manchester City
14)   Fred Meio campista Shakhtar Donetsk
15)   Paulinho Meio campista Barcelona
16)   Philipe Coutinho Meio campista Barcelona
17)   Renato Augusto Meio campista Beijing Guoan
18)   Willian Meio campista Chelsea
19)   Douglas Costa Atacante Juventus
20)   Roberto Firmino Atacante Liverpool
21)   Gabriel Jesus Atacante Manchester City
22)   Ney mar Atacante PSG
23)   Taison Atacante Shakhtar Donetsk

 

O fator, “origem clubística”, consiste no fato de que os jogadores saem cada vez mais cedo do Brasil para jogar futebol e, possuem cada vez menos vínculo com os torcedores e com o país. Quando há jogos no Brasil a CBF não faz o mínimo de esforço para essa aproximação, elevando os preços dos ingressos, tornando o relacionamento torcedor /seleção cada vez mais distante.

O que chamou atenção é que nunca esse índice de rejeição foi tão grande, e isso se deve ao fato de que 2018 não foi apenas ano de Copa, mas também ano de eleição em nosso país, fato que marcou o país de expectativas e cercou a população em geral de incertezas, exatamente assim: esperança por ser um ano eleitoral e medo também por sê lo. O título de país do futebol também causa cada vez mais estranheza, será que ainda somos mesmo, ou o fato de sermos ainda o único país pentacampeão ainda coopera para tal título. Os números de frequentadores nos estádios também poderiam colaborar para nosso título, mas também andam meio instáveis, mesmo “juntando” os frequentadores de jogos da seleção e do campeonato brasileiro. Ou também se pensássemos nos praticantes do futebol do Brasil: profissionais, amadores, entre outros.

Somos o país do futebol? Foto: André Mourão/Mowa Press.

O mesmo vem perdendo força e temos nos aproximado cada vez mais do que Nelson Rodrigues cunhou como “complexo de vira-lata”, ou seja, uma descrença nos rumos do país, incluindo também o futebol.

Assim vivemos um delicado momento em que muitos não enxergam mais a poesia que emana dos gramados, tornando o “torcer contra”, o que seria uma espécie de hater, que são a grosso modo odiadores de algo, cada vez mais natural. Porém é possível torcer pela seleção e ter senso crítico, é possível ser torcedor e não ser alienado, o que desde 1970 vem sendo comprovado pelo intenso estudos acadêmicos voltados para este novo campo de estudo: o futebol.