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A polarização do futebol brasileiro

Leandro Ginane

A enorme empolgação dos torcedores dos times brasileiros e parte da imprensa especializada com a derrota do Flamengo para o Liverpool não surpreende, mas levanta uma questão interessante que é reflexo do abismo que se abriu entre o Flamengo e os demais times do país, dentro e fora do campo. O Brasil, tão polarizado na política, parece estar se tornando binário também no futebol e isso é ruim para o futebol brasileiro.

A superioridade imposta no ano de 2019 pelo time da Gávea expôs a enorme fragilidade dos demais times e também da seleção da CBF, que há anos não joga como o verdadeiro futebol brasileiro. O Flamengo mudou o patamar do esporte bretão e isso despertou um sentimento de rivalidade (mesmo que não exista por grande parte dos rubro negros) em todas as partes do país, entre torcedores – que é totalmente aceitável – e parte da imprensa. Na realidade, o momento deveria ser de reconhecimento do ano histórico rubro-negro e união do futebol sul-americano que tem neste time do Flamengo a possibilidade de desafiar o Eurocentrismo no futebol.

Curiosamente, a imprensa europeia e sul-americana, enxergaram no estilo de jogo do rubro-negro brasileiro, uma forma de desafiar a superioridade europeia, mesmo com um orçamento dez vezes menor.

O ar blasé como os europeus tem encarado o torneio mundial da FIFA nos últimos vinte anos deveria envergonhar os sul-americanos, que historicamente sempre foi um seleiro de craques, como Riquelme, Juninho Pernambucano, Raí, etc, mas que se tornou um exportador de mão de obra para a Europa. Perceba que o que está em jogo não é apenas o que acontece durante os noventa minutos, mas a hegemonia histórica que passa pela colonização dos países sul-americanos por aqueles do antigo continente.

A comemoração da vitória do Liverpool sobre o Flamengo é uma demonstração míope e desesperada da grande parte da imprensa que se sente de certa forma aliviada com o resultado do jogo, uma espécie de alento ao corporativismo histórico que está sendo desafiado neste ano. A contratação de técnicos ultrapassados, que não tem resultados relevantes há mais de uma década por Palmeiras e Vasco demonstra o quanto ainda são resistentes a evolução do futebol na direção de enfrentar os melhores times do mundo.

Rio de Janeiro 21 12 2019 Torcedores assistem ao jogo do Flamengo contra o Liverpool pela final do Mundial de Clubes da Fifa, em bares da zona sul do Rio. Foto: Tânia Rêgo/Agencia Brasil.

Preferem a mediocridade e a retórica de comemorar a derrota de um time brasileiro, em vez de olhar para os próprios problemas e tentar resolvê-los. Isto é uma armadilha que certamente aumentará a distância em relação ao Flamengo nos próximos dois anos.

Por outro lado, os principais veículos internacionais exaltam o ressurgimento de um time sul-americano capaz de jogar tática e tecnicamente de igual para igual com um time europeu e isso passa longe da comemoração de derrota, mas sim reforça a esperança de que é possível enfrentar os europeus, diminuir a exportação de mão-de-obra e criar times competitivos, o que vale também para a seleção brasileira.

Findo 2019, é chegada a hora de reconhecer o que o Flamengo fez de tão diferente, aprender com ele e olhar para dentro para tentar diminuir a distância inédita que se formou no Brasil, a despeito de existir em breve – se é que já não existe – uma grande polarização entre os que estarão ao lado do Flamengo e do futebol brasileiro e os que estarão contra, que manterão o apoio ao corporativismo da CBF e aos técnicos ultrapassados que ganham milhões.

Enquanto os rubro-negros continuarão sorrindo com o peito repleto de faixas de campeão, recordes quebrados e troféus conquistados.