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A politização da ignorância

Carlos Augusto Magalhães Júnior

Em 1981, João Ubaldo Ribeiro publicava seu “Livro de histórias” que seria relançado em 1991 dessa vez denominado “Já podeis da pátria filhos. A obra  é composta por quinze contos, dentre eles  “ O santo que não acreditava em Deus”, que posteriormente deu origem ao filme “Deus é Brasileiro” em uma parceria do escritor baiano com o diretor alagoano Cacá Diegues. O título da segunda versão do livro é inspirado em um conto que narra uma partida entre moradores da Ilha de Itaparica e japoneses. 

Com a ironia característica de seus escritos, Ubaldo descreve a partida do ponto de vista do treinador do time local. O narrador mostra-se preocupado já antes do jogo, afirmando que os gringos:

“(…) ataca o balão de couro como se fosse inimigo(…) devido à comida que eles comem (…) e além disso eles usam foguetes e o raio lêise.”

Essa preocupação vem do histórico time de 1954 da Hungria, que “(…) vinham lá de baixo do campo parecendo uns cavalos, tudo falando hurunguês e dando aqueles passes de joelho empedrado, situque- situque”. A maneira peculiar como o time Húngaro é descrito, segue no decorrer do conto, sendo a  derrota da Hungria em 1954 explicada pelo fato de os alemães “(…)quebraram a canela do grande Purcas”.

Depois de constatar que os times russos que perdiam eram mandados pra “Libéria” o narrador do conto afirma que do ponto de vista da tática o Brasil “(…) ainda não adotou essas viadagens, aqui é goleiro, dois beques, três ralfes e cinco linhas, como sempre foi (…)” . O desenrolar da partida, genialmente descrito por Ubaldo, reserva outros momentos onde a “sabedoria” o narrador aparece novamente. 

Quase 30 anos se passaram da escrita de João Ubaldo até os dias atuais. Muita coisa mudou, muita coisa permaneceu. O contexto narrado pelo baiano, descrevendo o interior do próprio estado natal, aponta de maneira irônica uma situação de ignorância típica de regiões interioranas tupiniquins. A palavra ignorância, por sua vez, rechaçada contemporaneamente diz respeito aquele que ignora a existência ou ocorrência de algo.

Nos dias atuais, onde tudo e todos devem falar sobre qualquer assunto, assumir a ignorância é quase um oitavo pecado capital, muita coisa mudou. Porém, o acirramento dos debates causados pela polarização política do país e catalisados pelas medidas adotadas pela pandemia do Covid-19 tem trazido a tona outra face da ignorância, muita coisa permaneceu. 

Ministro do governo Bolsonaro é um dos símbolos da propagação da desinformação

Osmar Terra. Foto: Marcos Corrêa/PR.

Se o personagem do conto mistura certa inocência com vontade de saber, atualmente, e, especialmente no Brasil, o que vemos é a politização da ignorância. Não é surpresa que figuras como Osmar Terra, ministro da cidadania  e negacionista não só da pandemia, mas de outros consensos científicos, tenha ganhado voz nos últimos dias. O próprio presidente do Brasil, tem afirmado coisas sem fundamentação, talvez a mais repetida delas de que “70 por cento dos brasileiros irão se contaminar”. Sem muita surpresa também, advindo de um presidente que rechaça livros por “terem muita coisa escrita” e afirma não ler tudo que assina, afinal “além de ler tem que interpretar”. 

A grande novidade por trás desses discursos é a estratégia política usada para manipular um grupo de eleitores. A manipulação da ignorância, por meio de propagação de informações falsas orquestradamente disparadas foi não somente responsável pela eleição da chapa presidencial e da base de apoio do governo, mas é também o sustentáculo de apoio de um presidente que cada vez mais flerta com medidas ditatoriais.

Recentemente, Marcelo Freixo, contou em uma live no Facebook ao lado de Felipe Neto, como já nas eleições municipais de 2016 as Fake News agiram de imediato fazendo com que até seus vizinhos taxistas desconfiassem do então candidato. Felipe Neto que aliás, mostra como uma simples reflexão fundamentada e coerente sobre o contexto nacional já basta para que a artilharia do “gabinete do ódio” enxergue como alvo para metralhadora de notícias falsas. 

Toda essa situação é alimentada por aquilo que Adorno, ainda no final da década de 1950 identificou como Semiformação: o modo pontual e superficial que os indivíduos lidam com a informação na modernidade. Ao apontar tal situação, Adorno nos alerta para o modo como os sujeitos tem se relacionado com a cultura na modernidade.

Detlev Claussen, em seu genial ensaio “Sobre a estupidez no futebol” reflete como isso tem se dado no meio futebolístico. Segundo o autor, em um contexto onde todos devem opinar sobre o futebol , grande parte das opiniões são na verdade cópia de entrevistas que não passam de  “(…) expressões comuns, atiradas para o ar por especialistas, entrevistadores e entrevistados — para, na maior parte dos casos, nada dizerem.”

O próprio Claussen, na continuidade de seu ensaio afirma que o futebol, pode se tornar um meio de reconhecimento das relações sociais na medida em que propicie um conhecimento fecundo das “(..) próprias experiências pessoais com a bola e os acontecimentos observados na relva” e que permita aos torcedores “(…) estar ao corrente dos condicionalismos extra futebolísticos”.

Tarefa difícil, em um contexto geral. Dificuldade acentuada em um país em que as Fake News tem gabinete institucionalizado no poder executivo e legislativo. O narrador do conto de João Ubaldo Ribeiro não se importa, afinal : “Muita gente se pergunta se em vez de ganhar no futebol, não era melhor a gente viver bem igual aos gringos vivem? Isso demonstra ignorância (…)”. 


Referências 

CLAUSSEN, Detlev. Sobre a estupidez no futebol. Análise Social, v. XLI, n. 179, p. 583-592, 2006.

ADORNO, T. Teoria da Semiformação. In: Teoria crítica e inconformismo: novas perspectivas  de  pesquisa  /  Bruno  Pucci,  Antônio  A.  S.  Zuin,  Luiz  A.  Calmon  Nabuco  Lastória  (orgs.).  -Campinas, SP: Autores Associados, 2010. – (Coleção educação contemporânea).

RIBEIRO,J.U. Ja podeis da Pátria Filho. In: 22 contistas em campo/ Flávio Moreira da Costa (org.). Rio de Janeiro: Ediouro 2016