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A propósito dos ataques a Taison e Dentinho

Daniel Machado da Conceição

M-A-C-A-C-O

MA-CACO

MACA-CO

MA-CA-CO

Um agrupamento de letras carregado de ideologia. Não é só o beabá? Ah, se pudéssemos dizer isso sem medo do peso que a expressão carrega (!), ainda mais considerando a história de uma diáspora e de como os negros foram, outrora como hoje, tratados em terras brasilianas. No momento em que alguém se dirige a um negro (pessoa determinada) chamando-o de MA-CA-CO, o xingamento é estendido a todos os negros. Mas não é apenas a representação de um animal? Para o cidadão de bem, criacionista, não parece ser, já que para ele existe a necessidade de confirmar uma suposta posição de superioridade. A odiosa manifestação do preconceito, aliás, é proferida em público. A verbalização acontece em expediente jocoso, debochado e irônico, que promove tanto a exaltação do agressor como a humilhação da vítima.

Além de gritos racistas, torcedores do Dínamo de Kiev exaltam nacionalismo, nazismo e supremacia branca. Foto: Reprodução/Twitter.

O mesmo cidadão de bem criacionista, que aceita a ideia de todos sermos a imagem e semelhança de uma deidade, quando pensa ferir, agredir e humilhar o semelhante, busca munição na teoria evolucionista. Isso podemos observar no darwinismo social segundo o qual quem está mais próximo da natureza é selvagem, uma vez que suas práticas e pensamentos primitivos remeteriam aos primórdios da humanidade. Em outras palavras, são seres humanos que se encontram mais próximos do ancestral comum, cada um deles, portanto, um MA-CA-CO. É interessante como criacionistas movidos por valores religiosos legitimam uma teoria que veementemente negam.

Já nos anos 1970 foi reconhecido que o Homo sapiens compartilha 99% do seu DNA com os chimpanzés (MA-CA-CO). Pesquisadores americanos, nos anos 2000, confirmaram que a semelhança entre nós e tais primatas é 99,4% do código genético. O que permite argumentar uma proposta para que junto com primatas bonobos (MA-CA-CO) possam ser incluídos no gênero Homo.

Quando um xingamento é proferido, o que se quer dizer é: “Eu, Homo sapiens branco, sou resultado de uma seleção natural e a cor da pele preta é o representante legítimo do evolucionismo!”. Para diminuir o outro, as crenças criacionistas são esquecidas na exaltação da teoria científica. Quando o insulto é proclamado para rebaixar o semelhante, como a um espelho, fala-se mais sobre o que se quer negar em si mesmo. Nesse caso a negação é a confirmação do que se é.

Não é só na Europa – Torcedor do Independiente, da Argentina, imitou macaco no Maracanã para provocar torcedores do Flamengo, na final da Copa Sul-Americana de 2017. Foto: Reprodução/SporTV.

MA-CA-CO, também conhecido como mono ou pelo termo símio, que vem do latim simius, possui como significado “quem tem nariz chato” e dá destaque aos grandes primatas antropoides. Uma ofensa vociferada em cantos ou em voz agressiva procura relacionar características físicas, no caso a pele preta e outras fenotípicas, com o antepassado MA-CA-CO. Um agrupamento de sílabas que dependendo da fonética também pode bem descrever quem a profere.

Quando se deseja ofender o outro por meio da designação MA-CA-CO se está proferindo uma afronta à sua humanidade. Talvez se pretenda rebaixá-lo socialmente, promovendo sua exclusão do carrossel civilizatório. O indivíduo-alvo da ofensa pode não estar pesaroso, incomodado ou arrasado com a comparação com um mono, pois ser considerado um símio em um mundo repleto de humanos acéfalos em tempos de barbárie pode soar como elogio.

Agora, por que dói ser chamado de MA-CA-CO? Porque no Ocidente o suposto modelo civilizacional de base religiosa deveria ser capaz de excluir a diferença pelo simples fato de reconhecer a irmandade comum. As oportunidades iguais ou direitos do homem são reconhecidas por leis e tratados, os quais evocam um suposto ponto de partida comum. Neles a cor da pele não aparece como definidora de um lugar ou uma posição superior ou inferior. O criacionismo que proclama uma natureza divina não superou a contradição da sentença “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). Temos a tendência de amar o que nos é semelhante, “como a ti mesmo”. Logo, o que foge a suposta normalidade que amamos em nós pode ser alvo de ataques em expressões de fobias, isto é, medo exagerado.

No Brasil também – Torcedora do Grêmio flagrada gritando “macaco” contra o goleiro negro Aranha, na Copa do Brasil de 2014. Foto: Reprodução/ESPN Brasil.

Os xingamentos observados em eventos diversos, especificamente o grito MA-CA-CO nos estádios de futebol, não se resumem ao executor da sentença silábica e ao alvo dos ataques. Deve permitir pensar sobre a barbárie que permanece enrustida e que ganha proporções midiáticas, devendo ser combatida independente da crença religiosa ou científica.

Quando proferida, a expressão MA-CA-CO não pode se restringir ao objeto da ofensa como um ser que fosse anterior ao Homo sapiens, deve sim, indicar um cérebro talvez anterior ao MA-CA-CO. Isto é, quem grita tal ofensa ainda não desenvolveu sua capacidade cognitiva, por isso aceita o abominável. Aparenta uma atrofia ao invés de desenvolvimento, significando uma caixa craniana oca. Embora de forma um pouco idealista, posso dizer que quem profere ofensas e xingamentos contra o seu semelhante só pode ser considerada como uma pessoa MÁ e um CACO.

Sendo assim, racista quem tu és? MÁ e CACO.

Uma breve reflexão ou, por que não, uma inflexão em solidariedade a Taison, Dentinho, Balotelli, Aranha, Malcon, Lukaku, Tinga, Marcelo, Roberto Carlos, Daniel Alves, William, muitos outros atletas e personalidades, bem como, todos os anônimos que sofrem diariamente com os ataques racistas de uma pessoa MÁ e um CACO.