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A questão meridional no futebol italiano

Mariana Vantine de Lara Villela

Quando o assunto é Campeonato de Futebol Italiano podemos afirmar a existência de uma hegemonia do norte do país. Só as regiões da Lombardia e Piemonte concentram 88 dos 116 títulos disputados de 1898 até o presente momento. Enquanto isso, o sul, denominado como Mezzogiorno (regiões Abruzos, Molise, Campania, Basilicata, Calábria, partes de Lácio e Marcas, e as ilhas da Sardenha e Sicília), tem apenas 3 títulos. Essa predominância não é aleatória. O Calcio, como é chamado na Itália, também conta a história de um país cruelmente dividido desde a sua formação, carregado de desigualdades e preconceitos.

Antonio Gramsci, nascido na Sardenha, enfatizou a questão meridional em sua obra. O filósofo via a oposição entre o Norte industrial e o Sul agrícola como instrumento da burguesia dominante para esconder a real polarização entre capital e trabalho, desarticulando uma organização unitária entre camponeses e operários. Ainda que outros pensadores e figuras políticas tenham endossado a importância de resolver essa diferença regional, pouco conseguiu ser concretizado em relação ao problema. Algumas políticas públicas foram realizadas, como a Cassa per il Mezzogiorno (1950-1992), e posteriormente, em 1998, a criação de um Departamento para a Política de Desenvolvimento e Coesão, visando a promoção do desenvolvimento regional. O fato é que não houve mudança significativa e dados socioeconômicos comprovam que o cenário de disparidade ainda é presente. Segundo o Instituto Nazionale di Statistica, no ano de 2017 o PIB per capita no Mezzogiorno chegou a ser 46% menor do que na região centro-norte.

Analisando pela ótica do futebol também é evidente a diferença. O próprio número de times do sul presentes na primeira divisão já diz sobre a situação, apenas 4 num total de 20 participantes. Alguns dados financeiros também são interessantes a serem observados. No Gráfico 1, temos os valores de mercado e as folhas salariais, em milhões de euros, dos times da Série A pertencentes às regiões de Piemonte, Lombardia e do Mezzogiorno.

Fonte: Gazzetta dello Sport e Transfermarkt.

Apesar do Napoli ter a quarta maior folha salarial do campeonato italiano, e um valor de mercado avaliado em 603,48 milhões de euros (o terceiro maior na competição), quando analisamos em uma perspectiva regional notamos a disparidade. Somando as folhas salariais dos 4 times do sul, obtemos uma quantia inferior à folha somente da Juventus e também à dos 3 times lombardos (Atalanta, Milan e Internazionale) somados. Cabe lembrar que nem sempre o clube de Nápoles configurou essa situação financeira. Em 2004 veio à falência e deixou de existir, sendo recuperado pelo atual presidente Aurelio de Laurentiis, e subindo, ano por ano, alcançou em 2007 o acesso à primeira divisão.

Sempre foi um desafio competir nesse contexto desigual. O título do Napoli na temporada 1986/87 gerou notório incômodo. Dois anos após a conquista do seu primeiro Scudetto, o clube enfrentava um cenário de intensa perseguição midiática, erros constantes de arbitragem favorecendo seus opositores e um ambiente muito hostil nos estádios. Um dos cantos mais entoados, dizia:

“Napoles cólera,

é a vergonha da Itália inteira,

E nós votamos na Lega Lombarda

Para eliminar a raça bastarda”

Torcida napolitana. Napoli x Fiorentina, Serie A 1986-87, Estádio San Paolo. Foto: Wikipedia.

Tal ambiente ampliou o caráter heroico do bicampeonato em 1989/90, foi um verdadeiro triunfo de toda a região sul do país. Em sua última entrevista como jogador do Napoli, Diego Maradona foi perguntado sobre qual o momento desagradável que passou, e respondeu:

“O ódio, o racismo, a negação nos olhares ferozes dos bergamascos e veroneses. E as vaias dos italianos contra a bandeira da minha pátria, as vaias dos italianos contra a Argentina, pela culpa unicamente de ter um napolitano como eu para levá-la a vitória”.

A história de um lugar também pode ser contada pelo futebol. Na Itália, temos uma demonstração, através do esporte, da dimensão de desigualdades e preconceitos entre as regiões. 

Esse artigo é incapaz de abordar toda a complexidade do território italiano, porém traz uma singela reflexão sobre a questão meridional. A luta por um cenário mais justo passa por políticas públicas que permitam aos clubes melhores condições de se desenvolver e servir aos interesses de suas respectivas cidades, assim como mudanças específicas no que diz respeito ao futebol: uma distribuição mais democrática de recursos, por exemplo, das cotas televisivas. Mas certamente, conhecer a história e as particularidades culturais de cada lugar, reconhecer o desequilíbrio, é o primeiro passo.


Como citar

VILLELA, Mariana Vantine de Lara. A questão meridional no futebol italiano. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 35, 2020.