06.4

A regionalização do futebol mundial

Paulo Miranda Favero

A Fifa controla todos os passos do futebol no mundo, determinando onde, como e quando ele será realizado, e faz com que a reprodução do capital se dê nesses moldes. Atua como uma corporação, com enorme poder de influência política e econômica. Como as entidades nacionais têm de seguir seu estatuto, nada é feito contra a vontade da Fifa. Como explica Arlei Sander Damo, em sua tese de doutorado:

“Na medida em que [a Fifa] detém o monopólio sobre o espetáculo, deixa aos futebolistas opções restritas de mercado para além dos clubes que participam do circuito por ela agenciado. As possibilidades de atuação ou, preferindo-se, de remunerar o capital futebolístico, são limitadas, ainda que exista uma intensa circulação desses profissionais (…) a circulação intensa (sendo as equipes brasileiras renovadas praticamente ano a ano) e extensa, em escala planetária, é característica do atual estágio de desenvolvimento do futebol de espetáculo, sendo o mercado incompreensível se não for pensado a partir do monopólio exercido pela Fifa e sua cadeia de agências continentais, nacionais e regionais” (DAMO, 2005: 177).

Além das associações nacionais, a Fifa se espalha também em outra escala, a regional. Através das confederações continentais, ela consegue controlar cada região do planeta de maneira peculiar. A Fifa possui seis confederações regionais: Asiática; Africana; da América do Sul; Européia; da Oceania; da América do Norte, Central e do Caribe. Cada uma delas possui suas associações nacionais, mas nem sempre isso segue a regionalização geográfica mundialmente conhecida. Por exemplo, a Austrália pediu recentemente, e foi aceita, para participar da Confederação Asiática de Futebol. Um dos argumentos é que aquele país prefere disputar as eliminatórias para a Copa do Mundo no outro continente e brigar diretamente por uma vaga a ter que disputar as eliminatórias na Oceania. Neste caso, conseguiria no máximo ir até a repescagem para disputar uma vaga com o quarto classificado da América do Sul (o que na teoria é mais difícil).

Países pertencentes à América do Sul, como Suriname e Guiana, disputam competições ligadas à confederação que reúne os países da América Central, do Norte e do Caribe. Já da Uefa, a entidade que rege o futebol no continente europeu, participam países como Azerbaijão e Cazaquistão, que têm suas áreas no continente asiático, e Turquia, que apesar de ter a maior parte de seu território na Ásia (e o restante na Europa), também participa dos torneios e eliminatórias européias. Nesses casos, as associações estão mais preocupadas com o dinheiro, com o potencial de mercado e até com o status de “país europeu”, mesmo sabendo que a disputa das eliminatórias para uma Copa do Mundo na Europa ser bem mais difícil. Existe também o caso de Israel, que participa da Uefa, e nesse caso tem relevância a questão da identidade e o fato de haver muitas restrições, principalmente no Oriente Médio, à participação de Israel nos torneios regionais asiáticos. O mapa a seguir ajuda a visualizar essa diferente regionalização que a Fifa faz no mundo.

fifa

Mapa do futebol.

Outra característica que torna a Fifa uma corporação é sua ampla escala de operações. A Fifa organiza torneios, vende cotas de patrocínio, dita as regras do futebol no mundo, negocia os direitos de televisão, fornece produtos licenciados, faz parcerias com multinacionais, age politicamente sobre a negociação de jogadores, toma partido em disputas entre países, proíbe certos tipos de uniformes ou chuteiras, dispõe sobre os estádios e os torcedores etc. Tudo isso também dá à Fifa um caráter multifuncional, pois ela tem suas afiliadas espalhadas pelo mundo, participa de diversos tipos de negócio dentro do futebol e ainda escolhe onde investir mais ou menos. Assim, a entidade se expande tanto verticalmente quanto horizontalmente.

Duas outras características citadas por Roberto Lobato Corrêa também mostram o papel da Fifa como corporação. A primeira é a segmentação da corporação, ou seja, em cada associação pertencente à Fifa o futebol tem uma função diferenciada. Em algumas ele é praticamente o produto final, o que seria o “sonho de consumo” de todos os envolvidos com esse esporte. Em outros, o papel é de fornecedor de jogadores que precisam ser lapidados – o Brasil se encaixa neste perfil. Existem também outros lugares que recebem as mercadorias que não são de ponta, para onde escoam os jogadores de segundo e terceiro escalão. E no final de toda essa cadeia corporativa estão os países que ainda não têm o futebol bem desenvolvido (e onde a Fifa costuma investir pensando no futuro) . Assim, cada uma dessas associações desempenha um papel diferente – e tão importante quanto – no processo de acumulação de capital e expansão espacial da corporação – que culmina na ampliação do território do futebol.

Uma terceira característica diz respeito às diferentes localizações. Ao mesmo tempo em que a Fifa se espalha por todo planeta, ela sabe muito bem onde está pisando. E cada novo local implica um determinado mercado consumidor, uma especialização de sua mercadoria (o tipo de jogador formado em cada país é um exemplo disso) e o custo/investimento que terá de ser aplicado ali. Países europeus ocidentais com dinheiro são os compradores de jogadores de ponta, países com dinheiro de regiões com Oriente Médio e leste europeu compram atletas de nível médio e bom e países pobres exportam jogadores, de todos os níveis.

“A sociedade portadora do espetáculo não domina as regiões subdesenvolvidas apenas pela hegemonia econômica. Domina-as como sociedade do espetáculo. Nos lugares onde a base material ainda está ausente, em cada continente, a sociedade moderna já invadiu espetacularmente a superfície social. Ela define o programa de uma classe dirigente e preside sua formação. Assim como ela apresenta os pseudobens a desejar, também oferece aos revolucionários locais os falsos modelos de revolução. O espetáculo específico do poder burocrático, que comanda alguns países industriais, faz parte do espetáculo total, como sua pseudonegação geral, e seu sustentáculo. Visto em suas diversas localizações, o espetáculo mostra com clareza especializações totalitárias do discurso e da administração sociais, mas estas acabam se fundindo, no nível do funcionamento global do sistema, em uma divisão mundial das tarefas espetaculares” (DEBORD, 1997: 38-39).

Bibliografia
CORRÊA, Roberto Lobato. Corporação e Espaço – Uma Nota. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE, volume 53, nº 1, janeiro/março 1991.

DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão. Uma Etnografia do Futebol de Espetáculo a Partir da Formação de Jogadores no Brasil e na França. Trabalho de Pós-Graduação, Porto Alegre, 2005.

DEBORD, Guy. Sociedade do Espetáculo. Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

Como citar

FAVERO, Paulo Miranda. A regionalização do futebol mundial. Ludopédio, São Paulo, v. 06, n. 4, 2009.