134.28

A Ressacada e o “time do mangue”: futebol e comunidade

Felipe Matos

Há quem se pergunte qual a origem do nome “Ressacada” como denominação informal do Estádio Aderbal Ramos da Silva, em Florianópolis, a casa do Avaí Futebol Clube. Mesmo alguns torcedores avaianos ignoram a origem da designação, o que fez surgir versões fantasiosas – e provocativas – como a de que o termo teria algo a ver com a “ressaca” dos torcedores pelo time ter sido goleado por 6 a 1 no jogo de inauguração do estádio, um amistoso contra o Vasco da Gama, em 15 de novembro de 1983.

A resposta é simples, mas a questão pode servir de gatilho para se levantar alguns pontos que envolvem temas relacionados à identidade, semiótica e cultura popular no futebol, ainda que apresentados aqui de forma muito superficial.

Fundado em 01 de setembro de 1923, o Avaí mandava seus jogos no antigo campo da Federação Catarinense de Futebol na região central da cidade, o Estádio Adolfo Konder, propriedade do Governo do Estado. Em 1974 esse campo foi alienado a favor do Avaí. Localizado em área nobre da capital catarinense, a apenas alguns metros da luxuosa avenida Beira Mar Norte, o clube aproveitou o valor imobiliário de seu terreno e negociou uma permuta com uma empreiteira, que pretendia construir um shopping-center onde existia o estádio (atual Beiramar Shopping) e, em troca, ergueu o estádio da Ressacada, em um bairro suburbano da ilha de Santa Catarina, o Carianos.

Quando o estádio foi inaugurado, em 1983, ele não foi imediatamente batizado. O nome “Aderbal Ramos da Silva” só foi oficializado dois anos depois, em 1985, quando faleceu o patrono do clube, representante da oligarquia Ramos, de grande influência política e econômica em Santa Catarina.

Inaugurado sem nome, desde o anúncio da sua construção o estádio passou a ser conhecido como “Ressacada”: termo utilizado na geografia para designar áreas de planícies alagáveis, como era o terreno onde foi construída a nova casa do Leão da Ilha, aterrado inicialmente para o desenvolvimento do loteamento Santos Dumont, ainda hoje existente.

Ou seja, o campo foi construído na ressacada do bairro Carianos, uma área de influência do rio Tavares, que nasce no Morro do Sertão e do Badejo, juntando-se ao ribeirão da Fazenda, seu principal afluente, até desaguar na baía sul, atravessando um dos últimos grandes manguezais da ilha, de grande importância para o ecossistema local e que circunda o bairro.

De uma área nobre e de fácil acesso no Centro da cidade, os jogos passaram a ser realizados a cerca de quinze quilômetros do antigo campo, numa planície alagadiça circundada por um mangue, no coração de bairros como Carianos, Costeira do Pirajubaé, Rio Tavares e Tapera, áreas em que viviam populações tradicionais de pescadores, comerciários, alguma classe média e funcionários públicos, mas pouco frequentadas pela elite urbana da capital, a não ser como local de passagem, pois estão no caminho para a região sul da ilha e para o Aeroporto Hercílio Luz, vizinho ao estádio.

O estádio do Avaí passou a ser localizado numa grande área de transição entre a restinga e o mangue, com banhados que sofriam alagamento da água doce dos rios, da água salgada do mar e das chuvas. A área conhecida como ressacada tinha uma importância vital para a manutenção desse pequeno paraíso, pois o seu banhado retinha a água. Em tempos de seca, essa água era naturalmente escoada para o rio, ajudando a manter todo esse ecossistema vivo.

Estádio da Ressacada. Foto: Wikipédia

Ao ser inaugurado, o estádio tornou-se o mais moderno de Santa Catarina, com capacidade para cerca de trinta mil torcedores. No entanto, por sua localização, torcedores de clubes adversários, em especial do grande rival, o Figueirense, passaram a utilizar a expressão “time do mangue” de forma desdenhosa, como se fosse uma desonra estar naquele local. O tom depreciativo que impera é a de que o mangue é um local sujo, fedido, infestado de mosquito e frequentado por gente pobre, que serve para ser valorizada apenas no campo do simbólico na figura idealizada do “manezinho da ilha”, muito explorada na indústria econômica do turismo, mas que, na realidade, são os homens e mulheres das camadas populares do litoral catarinense.

Adicionando uma pitada de complexidade nessa narrativa que expõe conflitos sociais, o Figueirense é justamente o clube para o qual foi construído ao longo dos anos a imagem de “time do povo”, com auxílio sobretudo da imprensa esportiva, mas também por parte da historiografia, que reproduz sem criticidade muito dos discursos e das imagens que envolvem os clubes locais. Há, portanto, um cenário curioso em que torcedores do pretenso “time do povo” utilizam a expressão “time do mangue” de forma depreciativa.

Surgida como pretenso insulto, a alcunha “time do mangue” poderia ser ressignificada. O fato de estar presente no bairro Carianos permite ao Avaí associar-se à uma história da ocupação humana da região que é, seguramente, milenar e remonta aos povos que habitavam os sambaquis que existiam na ressacada. Houve ao menos cinco sambaquis nas suas imediações, todos registrados pelo arqueólogo João Alfredo Rohr, em 1959. O manguezal da Ressacada é onde o berbigão (Anomalocardia brasiliensis, em alguns estados também conhecido como “vôngole”) resiste à extinção e é onde nascem peixes e camarões. O berbigão coletado há tantos séculos poderia estar em bandeiras do clube e ser ostentado com orgulho, tamanho é o apetite local para o seu consumo.

A alcunha de “time do mangue” deveria provocar a capacidade de articular o futebol com a cultura popular, com a história dos homens e mulheres que habitaram aquele espaço. O Avaí, o “time da raça”, é também o time do mangue, das ressacadas, dos sambaquis. Dos mestres coletores de berbigão, das mulheres desconchadeiras, das lavadeiras que trabalhavam às margens do rio Tavares, dos pescadores que subiam os morros do entorno da região carregando baldes com o camarão que costumava abastecer os restaurantes bacanas da cidade e cuja venda colocava comida na mesa dos trabalhadores nascidos no bairro periférico.

Assumir-se “time do mangue” é reconhecer a importância histórica e cultural das práticas dos povos tradicionais que são a origem das comunidades existentes ainda hoje ao redor do estádio. Não se trata de questões de aprimoramento de marca ou campanhas artificiais de marketing, mas compreender o perfil de parte significativa dos seus torcedores, abrindo um diálogo direto com a comunidade que há quase quarenta anos recebeu o Avaí, fortalecendo os laços entre o futebol e a coletividade.

Futebol e sociedade não se separam e é necessário identificar na vida cotidiana os seus elementos de contato e estreitar os laços com a sua comunidade. O Avaí não nasceu em Reeperbahn como o St. Pauli; e, a Ressacada não é o Estádio An der Alten Försterei, do Union Berlin, mas, seguindo os exemplos desses dois clubes alemães, é possível olhar no espelho e se questionar qual a sua identidade, quem são os seus apoiadores, quem compõe a sua ampla e variada torcida e quais diretrizes nortearão as suas ações.

Há quatro décadas o Avaí manda seus jogos num estádio popularmente conhecido como Ressacada e ter torcedores que ainda não sabem o significado deste termo ou ter adversários que julgam a expressão “time do mangue” como pejorativa talvez sejam dois indícios de que ainda há um longo caminho a ser percorrido. São raros os clubes de futebol no Brasil que valorizam seus traços mais importantes – torcida, identidade, acolhimento, representação – e, como consequência, quase todos subestimam os desdobramentos, inclusive econômicos, que um forte senso de comunidade podem trazer.