116.25

A revista Placar chegou ao seu fim?

Marco Antunes de Lima

A Revista Placar, talvez a maior publicação esportiva da história brasileira, lançou sua nova edição, de fevereiro de 2019, como “Edição de Colecionador” com o seguinte tema: os dez anos de carreira profissional do atleta Neymar Júnior. Até aí, nada de novo. Não é a primeira revista ou publicação dedicada ao jogador brasileiro mais visto, falado e midiático da última década e não será a última publicação ou produção midiática sobre a carreira de Neymar Júnior.

Mas a polêmica causada pela publicação foi que a mesma afirmou que Neymar Júnior seria o maior jogador brasileiro pós-Pelé a desfilar pelos gramados do mundo. Placar aparentemente conseguiu o que queria: instaurar a polêmica e chamar a atenção da mídia esportiva e dos amantes do futebol para si. Nos dias seguintes dezenas de veículos de comunicação, da área esportiva, nas mais variadas formas de mídia, passaram a comentar a edição comemorativa da revista Placar. Mas será que a polêmica criada valeu a pena, tanto para a revista como para o jogador?

Capa da Revista Placar, edição de fevereiro de 2019. Foto: reprodução Placar.

Antes de tudo tentemos entender o motivo de uma edição especial desta ter saído neste momento. Primeiramente, sem dúvida, é porque Neymar Júnior está fazendo dez anos de carreira profissional. E, logicamente, não há como contestar, Neymar é o jogador brasileiro mais importante dos últimos dez anos. Tem sido a maior esperança do torcedor brasileiro nos últimos anos e é o jogador brasileiro que mais teve a sua imagem exposta no cenário do futebol e do esporte mundial. Nesse mesmo sentido não é novidade que o atleta brasileiro mais bem pago da atualidade, senão de todos os tempos, precisa sempre ter a sua imagem vinculada a todo momento, principalmente agora, em que completa dez anos como profissional e encontra-se afastado dos gramados em razão de uma nova lesão em seu pé direito. E no mundo dos negócios do futebol a coisa é mais ou menos assim: imagem é essencial, é preciso estar aparecendo nas mídias, é preciso ser comentado. E nada melhor do que uma polêmica dessa.

Obviamente, imediatamente a imprensa esportiva especializada começou a comentar a publicação. Grande parte dessa imprensa ou acompanhou Placar em seus áureos tempos ou até mesmo chegou a trabalhar na revista. Além dos jornalistas especializados, ex-jogadores, agora na atividade de comentaristas esportivos, também emitiram suas opiniões sobre a “edição de colecionador”. Na grande maioria das vezes, como você leitor já deve saber, os comentaristas discordaram veementemente da colocação da Revista Placar.

Em um debate do programa Seleção Sportv, do canal homônimo, o jornalista Sérgio Xavier, que já fora diretor da própria Revista Placar, expressou sua opinião justificando a máxima colocada pela revista que Neymar seria o melhor jogador brasileiro pós-Pelé, pois, além de sua ótima qualidade técnica, Neymar teria a capacidade de mudar uma partida maior que os outros jogadores brasileiros pós-Pele. Após ouvir as palavras de Sérgio Xavier, o ex-jogador Sérvio Petkovic ficou “pasmo e abismado” com a fala de Sérgio e não conseguia acreditar que estava ouvindo aquilo. E “Pet” está certo. Assim como diversos outros comentaristas dos mais variados veículos de comunicação que defenderam que Neymar ainda não chegou ao nível (não quer dizer que não vai ou não possa chegar) de Zico, Ronaldo Fenômeno, Ronadinho Gaúcho, Rivaldo e Romário, para citar os principais jogadores da história do futebol brasileiro pós-Pelé. O que Placar colocou em sua capa foi uma das maiores vergonhas da história do jornalismo esportivo e mancha a imagem da, talvez, maior revista esportiva brasileira de todos os tempos.

Zico fez coisas incríveis no Flamengo e na Seleção Brasileira que são indiscutíveis, com uma qualidade técnica fantástica; Romário ganhou uma Copa do Mundo como protagonista e era infinitamente mais decisivo do que Neymar; Rivaldo jogou duas Copas do Mundo em alto nível, sendo fundamental em 2002, além de ter sido, em minha opinião o melhor jogador do mundo da segunda metade da década de 90. Ronaldo Nazário foi monstruoso, ganhou uma Copa do Mundo, foi duas vezes melhor do mundo e tinha uma capacidade de explosão e decisão absurda; e Ronaldinho Gaúcho é “o bruxo”, ponto final. Ainda poderia citar outros tantos que realmente não possuem a mesma qualidade técnica de Neymar mas que tem maior importância para a história do futebol brasileiro que o jogador do PSG, como por exemplo Sócrates, Ademir da Guia, Rivelino, Careca, Bebeto, Reinaldo, entre outros (devo ter esquecido vários – peço desculpas).

É válido constatar a opinião de Renata Mendonça, do blog Dibradoras, que Neymar, no ranking dos melhores jogadores pós-Pelé “precisa ultrapassar também a maior jogadora de todos os tempos, Marta Vieira da Silva”. Apesar de ressalvar que não gosta de comparar futebol masculino e futebol feminino, Renata Mendonça é plenamente coerente em sua colocação. Neymar Júnior é excelente jogador, mas sua importância para o futebol brasileiro é infinitamente menor do que a de Marta, vencedora por seis vezes como melhor jogadora pela FIFA, prêmio que Neymar ainda cobiça, e que talvez consiga nos próximos anos.

Não consegui compreender até aqui a verdadeira intenção de Placar em produzir essa edição com essa máxima de que Neymar é o melhor jogador pós-Pelé. Se foi para criar polêmica e chamar a atenção para a revista que definha nas vendas funcionou em chamar a atenção, mas infelizmente vejo que de forma negativa. O apaixonado pelo futebol, que acompanhou ou a vida inteira de Placar ou parte de seus quase 50 anos, não me parece ter ficado satisfeito com a colocação. Em minha opinião, o que Placar fez foi ofender a história de muitos outros jogadores brasileiros, que, de certa forma, contribuíram em muito às páginas da revista. Se a intenção é vender um produto aos fãs incondicionais do atleta Neymar – e eles existem, e não são poucos – penso que essa estratégia não vá funcionar, pois a maioria desses fãs são de uma faixa etária menor (que viram jogar apenas Neymar) e que não possuem o hábito de consumir material jornalístico impresso. Se Placar lançasse um documentário no Youtube, penso que seria mais bem sucedida.

Não sei qual caminho a revista Placar irá seguir daqui para a frente, mas esta última capa demonstra que infelizmente um dos maiores ícones da cultura futebolística brasileira definha a caminho do seu fim. Espero que não. Espero que Placar possa produzir mais edições com temas importantes e polêmicos do futebol brasileiro, como por exemplo a situação que vivem os jovens das categorias de base espalhadas pelo país, ou sobre o processo de elitização dos estádios brasileiros, só para citar alguns temas em voga nas últimas semanas, ou até mesmo poder contar histórias do futebol mais emocionantes e menos midiáticas do que a do “menino Ney”.