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A revolta popular da Fonte Nova

André Carvalho

Três décadas depois da insurreição nas arquibancadas em Salvador, Seleção Brasileira e torcida baiana se reencontram em partida de Copa América para outro Brasil e Venezuela

 

Quando a Seleção Brasileira entrou em campo, uma monumental vaia ecoou no estádio. Era o prenúncio do que o Brasil iria enfrentar naquela cidade, primeira sede da equipe na competição. Hostilidade, rancor, revolta, ódio. Eram outros tempos, quando a Copa América tinha ares de Libertadores. Atônitos, enquanto perfilavam-se para o hino nacional, os jogadores observavam bandeiras do Brasil sendo queimadas nas arquibancadas. E no momento em que banda militar começou a tocar o hino nacional, os apupos ganharam ainda mais força. Vaias e xingamentos que não cessaram durante os 90 minutos da vitória por 3 a 1 sobre a Venezuela.

O cenário descrito acima poderia muito bem ter ocorrido em Caracas ou em alguma cancha sul-americana. Mas não. Foi na terra do “baba”, mesmo. Cidade do Salvador. Bahia. Sob os auspícios de todos os santos e orixás. E olha que, à época, nos idos de 1989, o Brasil amargava uma fila de 40 anos sem levantar o caneco do certame.

Passados 30 anos daquele insólito episódio, o escrete canarinho volta a disputar uma partida de Copa América contra a Venezuela à beira do Dique do Tororó e da Ladeira da Fonte. Nessas três décadas, muita coisa mudou, a começar pelo estádio, antes Octávio Mangabeira, hoje Itaipava Arena Fonte Nova.

A Bahia é terra dos malês, dos alfaiates insurretos. É terra de Maria Quitéria e de Carlos Marighella. Berço de um povo que, antes de ser brasileiro, tem orgulho de ser baiano. E, assim, torceu pelas equipes locais quando, em 1934, a Seleção fez uma excursão pelo Nordeste, desafiando clubes de Salvador e Recife. Uma torcida que também vaiou o Brasil de Pelé em 1969, quando o time verde-amarelo venceu o Bahia por 4 a 0 na Fonte Nova.

Nessas ocasiões, tratavam-se de confrontos do Brasil contra a Bahia e compreende-se a torcida contra a Seleção. Mas, em 1989, por que tanta hostilidade contra o time brasileiro? É preciso voltar um pouco no tempo para a melhor compreensão dos fatos.

 

O Brasil tem dono: Esporte Clube Bahia

Poucos meses antes da realização da Copa América, em fevereiro de 1989, encerrava-se o Brasileirão do ano anterior com o Bahia campeão. E, em março, Sebastião Lazaroni comandava a Seleção pela primeira vez, vencendo o Equador por 1 a 0 em Cuiabá. Nas primeiras convocações do novo treinador, três atletas que integraram o campeão brasileiro foram chamados: Zé Carlos, Bobô e Charles. Destes três, apenas Charles permaneceu no tricolor baiano na temporada, já que Bobô foi para o São Paulo enquanto o Flamengo contratou Zé Carlos.

E Charles foi bem em seus dois primeiros jogos com a equipe nacional, fazendo gols nos amistosos contra Peru e Portugal. Veio em seguida, porém, às vésperas da Copa América, uma desastrada excursão da Seleção à Europa, em que o Brasil apanhou de Suécia, Dinamarca e Suíça e só empatou com o Milan. O atleta baiano, desta vez, como todo o time, foi mal.

Quando Lazaroni anunciou, poucos dias depois, os 24 convocados para a competição continental, Charles estava fora, gerando uma enorme revolta na imprensa e na torcida baianas, que desejavam ver um prata da casa nas partidas do Brasil que seriam disputadas na Fonte Nova, contra Venezuela, Peru e Colômbia. Os torcedores, que já estavam insatisfeitos com o alto valor do preço do ingresso (o mais barato custava o equivalente a R$ 50 nos dias de hoje) estavam decididos: boicotariam a competição.

Porém, com a lesão de Careca – e cedendo à pressão da CBF, preocupada com a renda das partidas –, Lazaroni convocou Charles. E a torcida baiana fez uma enorme festa no desembarque da delegação brasileira em Salvador. Mas a alegria de Charles e dos torcedores duraria pouco, muito pouco.

 

Charles fora da lista: o início da “Revolta Popular da Fonte Nova”

Em tempos em que regulamentos eram alterados em cima da hora e o futebol era muito menos profissional do que hoje, houve uma mudança, por parte da Conmebol, no número de atletas que poderiam ser inscritos na primeira fase da competição. Seriam apenas 20 jogadores, com a possibilidade de serem trocados dois e incluídos outros dois na segunda fase.

Com essa batata quente nas mãos, Lazaroni aproveitou para fazer uma demonstração de força contra a alta cúpula da CBF, representada pelo presidente Ricardo Teixeira e pelo diretor de futebol Eurico Miranda, em um movimento que serviria para fechar o grupo em torno dele.

Sendo a convocação de Charles, realizada dias antes, uma evidente jogada política imposta pela CBF, Lazaroni optou por cortá-lo da lista dos 20 inscritos – Charles ficaria apenas treinando com a Seleção, podendo ser inscrito na segunda fase. Foi o que bastou para jornalistas e torcedores, sobretudo tricolores, explodirem em raiva. Agora era guerra.

Enquanto o jornalista Raimundo Varela se descontrolava em seu programa esportivo na TV Itapuã (SBT local), pregando o boicote da torcida, rasgando ingressos e xingando os dirigentes da CBF, o presidente do Bahia Paulo Maracajá foi ao hotel onde a Seleção estava concentrada, em Itapuã, tirando Charles de seu quarto e levando-o à concentração do Bahia, que disputava o Campeonato Baiano. “Deram esperança ao povo baiano e agora fizeram essa traição”, bradava o mandatário tricolor.

 

“Faria tudo igual”

Aos 75 anos, Paulo Maracajá está afastado da política de seu clube do coração, que dirigiu entre 1979 e 1994. Apesar de ter saído da cadeira presidencial do Bahia há 25 anos, no entanto, sua influência sobre o tricolor baiano, de acordo com o jornalista Nestor Mendes Jr., autor do livro “Nunca Mais! 25 anos de luta pela liberdade no Esporte Clube Bahia”, se deu, com maior ou menor intensidade, até 2013, quando o clube passou por um processo irreversível de democratização.

Maracajá recebeu a reportagem em sua casa, localizada no bairro do Horto, zona nobre de Salvador, e relembrou o episódio ocorrido no Hotel Quatro Rodas, classificado como um “rapto” pela imprensa carioca à época.

Paulo Maracajá concede entrevista em sua casa, no bairro do Horto, em Salvador. O ex-cartola botou lenha na fogueira na revolta dos torcedores baianos com a Seleção em 1989. Foto: André Carvalho.

“Subi, peguei as malas dele, botei no carro e fui embora. Ainda falei para torcida do Bahia não ir aos jogos na Fonte Nova. Foi um escarcéu. A imprensa do Rio ficou arretada comigo”, relembra.

“Foi uma demonstração de força. O Bahia falou mais alto ali. Eu não ia deixar o cara [Lazaroni] vir para minha terra para esculhambar meu time”.

Maracajá admite que Charles ficou em uma posição incômoda, já que mesmo fora da lista de inscritos para a primeira fase da competição, poderia treinar ao lado dos melhores jogadores brasileiros da época e tentar se manter no elenco para futuras convocações. Mesmo assim, o ex-mandatário tricolor é enfático ao afirmar: “Faria tudo igual”.

Chamado de “Eterno Presidente” por uma grande parcela da imprensa esportiva baiana, com quem, de acordo com Mendes Jr., mantinha um relacionamento, digamos, íntimo, Maracajá dirigiu o clube com mão de ferro em um tempo que o Bahia estava longe de ter a transparência e a democracia de hoje.

Sobre seus sucessores, classificados como “títeres” pelo autor da publicação que detalha o processo de democratização do clube, limitou-se a dizer que “alguns foram ligados a mim, outros não”.

Maracajá afirma não ter mais interesse na política do clube e diz que o atual presidente, Guilherme Bellintani, apesar de não ter “vivência de futebol”, é um homem “honesto e sério”.

A respeito do processo democrático no Bahia, iniciado com uma intervenção jurídica em 2013, que culminou com o estabelecimento de eleições diretas para a presidência do clube, se diz a favor, embora não tenha realizado nenhuma movimentação em prol disso durante as duas décadas e meia em que esteve oficialmente no poder.

Sebastião Lazaroni sabia que estava mexendo em um vespeiro ao barrar Charles, mas talvez não imaginasse o tamanho da enrascada que estava se metendo. Durante toda a primeira fase da competição, em que o bom futebol da Seleção custava a aparecer, muito por conta do péssimo gramado da Fonte Nova, mas também, claro, pela hostilidade implacável da torcida baiana, sua queda era dada como certa pela imprensa sulista. Ele só sobreviveria no cargo se vencesse o torneio. E foi o que aconteceu.

As boas atuações da equipe, de fato, só vieram quando os jogadores tiveram tranquilidade para treinar e jogar, e puderam atuar em gramados minimamente decentes, no Arruda, em Recife, e no Maracanã, no Rio. Antes disso, foi um “Deus nos acuda”.

Foto: Reprodução.

“Não imaginava que os torcedores fossem ficar tão revoltados”

Lazaroni foi um dos poucos técnicos que tiveram a honra máxima de comandar uma Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo, na Itália, em 1990. O baixo nível técnico apresentado pelo time na competição, que culminou na queda nas oitavas de final, no entanto, fez com que sua passagem pelo comando técnico do escrete nacional deixasse pouca saudade aos torcedores.

Sua última experiência como treinador se deu em 2016, com o Qatar SC, clube de Doha, no Catar, sede da próxima Copa do Mundo, em 2022. Atualmente residindo no Rio de Janeiro, conversou por telefone com a reportagem demonstrado a alegria e a tranquilidade que lhe faltaram naquela passagem da Seleção por Salvador em 1989.

“Tivemos que jogar três partidas com muitos protestos, com uma chuvarada de manga verde, de bagaços de laranja e de ovos no gramado. Nenhum carinho, nenhum afeto e nenhum calor humano para com a Seleção em função do bairrismo por eu ter deixado um jogador local de fora”, reclama.

Lazaroni também lembra da insensatez da organização da competição em determinar como sede a Fonte Nova, que naquele tempo tinha um dos piores gramados do país, em uma época de muita chuva em Salvador. “O campo da Fonte Nova estava, infelizmente, impraticável. Muito encharcado, pesado, muito ruim. Tínhamos que fazer buracos para tentar melhorar o escoamento da água”.

A ida a Recife para o último jogo da primeira fase, contra o Paraguai, foi um alívio. “Antes, éramos contra, mas, na realidade, foi a nossa salvação. Encontramos um outro ambiente em Pernambuco, uma chuva de calor humano e aquilo ali foi determinante para o crescimento da Seleção”, afirma o ex-treinador do escrete canarinho.

A boa vitória sobre o Paraguai no estádio do Santa Cruz deixou Lazaroni aliviado, sabendo que poderia, a partir dali, trabalhar com mais tranquilidade para buscar o título continental que a Seleção não conquistava há 40 anos.

“Cada público tem o futebol que merece”, desabafou, na saída do gramado. A frase ficou célebre. “Isso eu não falaria hoje. Mas acho que ali era um sentimento de revolta por conta de todo o tratamento negativo que recebemos”, pondera.

De fato, foram dias difíceis em Salvador. “Não imaginava que os torcedores fossem ficar tão revoltados. Porque o povo baiano gosta de futebol. Então, foi uma surpresa e uma decepção ao mesmo tempo. Mas faz parte da nossa vida de treinador. Quando você ganha é bestial, quando você perde é uma besta”.

 

“O Brasil é uma terra estranha”

A insólita situação de jogar contra a torcida em sua própria casa deixou os jornalistas estrangeiros sem entender nada. Os bagaços de laranja que voavam para tudo que é lado inclusive atingiram muitos deles na tribuna de imprensa. “O Brasil é uma terra estranha”, concluiu um jornalista francês.

Jornal dos Sports, 27 de junho de 1989. Foto: Reprodução.

Se antes do início da competição eram esperadas 60 mil pessoas na cerimônia de abertura, que antecedeu a rodada dupla inaugural da competição, o público presente no estádio era digno de uma partida de clubes pequenos do Baianão. O boicote funcionou: apenas 9.213 torcedores pagaram ingressos, a maioria para hostilizar a Seleção na vitória por 3 a 1 sobre a Venezuela.

“Um, dois, três, Eurico no xadrez” e “Lazaroni mafioso” eram os gritos que substituíam as mensagens de apoio ao time “da casa”. Foram muitas vaias. Do início ao fim. E tome bagaço de laranja – os jogadores Zé Carlos, Bismarck, Alemão, além de membros da comissão técnica, que estavam nas cadeiras numeradas, foram tão alvejados que tiveram que voltar ao campo.

Os jogadores ficaram revoltados. O mais indignado era um filho da terra, Bebeto. “Foi umas das maiores decepções da minha carreira. Não existe nada mais triste do que ver uma bandeira do nosso país sendo queimada, ainda mais por brasileiros”, afirmou ao Globo. O Jornal do Brasil registrou outra declaração: “É duro entrar num campo onde já vivi tantas alegrias debaixo de uma vaia estrondosa”. Ao Jornal dos Sports, o atacante foi além: “Acho que não me considero mais baiano”.

 

“Na briga do mar com o rochedo, quem paga é a ostra”

A bronca dos jogadores começava se estender ao pivô da confusão. “Não fomos nós que cortamos Charles”, diria Valdo, enquanto Mauro Galvão completava: “Charles não é mais bonito que ninguém”. Como se o atacante baiano tivesse alguma culpa no episódio – na verdade, ele era o mais prejudicado com a queda de braço entre Bahia e CBF.

Privado do convívio com os jogadores da Seleção, Charles desabafava ao Jornal do Brasil: “Sobrou para um nordestino”. O atacante do Bahia, treinando no Fazendão, concentração do clube, ainda disparou contra Eurico Miranda. “Ele exigiu que eu me apresentasse no Rio e depois lutou pela minha permanência apenas por interesse em uma renda maior”.

No olho do furacão, o camisa 9 tricolor analisava sua situação: “Na briga do mar com o rochedo, quem paga é a ostra”.

Foto: Reprodução.

 

“Eu tinha mérito para estar lá”

Charles é um dos grandes ídolos do Bahia. Além do título de campeão brasileiro de 1988, conquistou com o Esquadrão de Aço três Estaduais, em 1987, 1988 e 1991, e foi artilheiro do Brasileirão de 1990, levando o clube à terceira colocação daquele certame. O baiano ainda atuaria em Cruzeiro, Boca Juniors, Grêmio, Flamengo, Matonense, Ferroviária e Camaçari antes de encerrar a carreira.

Como técnico, Charles acrescentou o sobrenome Fabian e dirigiu o clube de coração em duas oportunidades. Também treinou Votoraty, Camaçari, Icasa e Anápolis. Atualmente, mora em Itapetinga, sua terra natal, mas passa boa parte do tempo em sua fazenda, em Maiquinique. Foi de lá que o ex-atacante tricolor conversou por telefone com a reportagem.

Charles relembrou o episódio que marcou sua carreira. “Eu tinha mérito para estar entre os vinte inscritos na primeira fase da competição, mas infelizmente Lazaroni não entendeu dessa forma”.

A defesa enfática de seu nome por parte da torcida do Bahia, que significou em hostilidade ante a Seleção Brasileira na Copa América de 1989, traz um misto de sentimentos ao ídolo do clube.

“Eu fiquei feliz, por um lado, de ver a torcida brigando por um atleta do Bahia e da Bahia na Seleção. Por outro lado, não é legal ver a bandeira de seu país sendo queimada, o hino sendo vaiado, os jogadores sendo hostilizados, a torcida tacando ovo em jogadores. Isso ninguém quer ver. Foi muito ruim para a própria imagem do torcedor baiano”.

Charles disse ter ficado em uma saia-justa quando Paulo Maracajá o retirou da concentração da Seleção. “Ele era meu patrão, né? Não queria ter ido, mas tive que cumprir ordens. Maracajá achou que aquilo tinha sido uma facada nas costas do Bahia e da torcida baiana, que queria ver um jogador do clube jogando pela Seleção na Fonte Nova”, relembra o ídolo tricolor.

No dia 7 de julho de 1989, o Jornal O Globo destacava a volta de Charles . Foto: Reprodução.

Ele acha que a situação prejudicou sua sequência na Seleção, ainda que suas boas atuações no Brasileirão de 1990, quando foi “Chuteira de Ouro”, tenham o reconduzido ao escrete nacional nas primeiras convocações de Paulo Roberto Falcão – o atacante ainda seria chamado mais uma vez por Parreira em 1991, já no Cruzeiro.

 

Contra o Peru, menos torcedores e ainda menos futebol

O curto espaço entre as partidas, de apenas 48 horas, não ajudava nem na recuperação dos atletas, desgastados pela atuação no gramado encharcado e esburacado da Fonte Nova, nem na diminuição da pressão dos torcedores baianos, que não davam trégua à Seleção.

O boicote às partidas vinha dando certo: contra o Peru, as arquibancadas estavam ainda mais vazias, com um público pagante de apenas 8.223 torcedores. Sorte de quem não estava lá: o futebol apresentado pela Seleção – em um campo ainda pior do que o da antevéspera – foi sofrível no 0 a 0 com os peruanos.

O apagão no início do segundo tempo, que deixou o estádio sem luz por 25 minutos talvez tenha sido o melhor momento da partida – Eurico Miranda e Renato Gaúcho, dois dos mais revoltados com o comportamento da torcida local, chegaram a insinuar que se tratava de obra dos baianos.

 

O boicote de um tricolor e a cobertura jornalística de um rubro-negro

Frederico Flávio Moreira, mais conhecido como Fred do Chame-Chame é produtor da Rádio Web Esquadrão, veículo oficial do Bahia. Em 1989, aos 23 anos, era um assíduo frequentador da Fonte Nova. “De 1974 até 1994 fui em todos os jogos do Bahia no estádio”, diz o torcedor tricolor. Ele foi um dos adeptos do Esquadrão de Aço que aderiram ao boicote aos jogos da Seleção na capital baiana no torneio.

“A torcida do Bahia boicotou mesmo, foi um movimento organizado, o pessoal levou a sério”, lembra. Um dos promotores do boicote, o jornalista Raimundo Varela, rasgava ingressos ao vivo, no Tele-Esporte, programa esportivo que apresentava na TV Itapuã.

Ao ficar em casa, Fred perdeu uma das cenas mais icônicas da passagem da Seleção pela Fonte Nova na Copa América: a ovada levada por Renato Gaúcho na entrada em campo. “Pô, qual a probabilidade de uma pessoa jogar um ovo da arquibancada e acertar bem na cabeça do jogador? E o cara andando! Subindo a escada em direção ao campo! Foi impressionante”.

Crachá de Paulo Leandro. Foto: André Carvalho.

Como não viu os jogos da arquibancada, Fred sugeriu à reportagem o nome de um jornalista baiano que cobriu a competição, Paulo Leandro, o PL. Leandro tem passagem pelas principais redações da Bahia e trabalhava na Tribuna da Bahia em 1989. Durante a competição, “traiu” o veículo baiano, passando a escrever para o Grupo Estado, de São Paulo, realizando a cobertura para o Jornal da Tarde.

Paulo Leandro recebeu a reportagem em seu apartamento, no Baixo Saboeiro, em Salvador, para uma longa conversa em que, além de contar o que viu e viveu na Fonte Nova na Copa América de 1989, contextualizou toda a história do futebol baiano, desde quando a primeira bola chegou à Bahia, trazida da Inglaterra por Zuza Ferreira nos primeiros anos do século XX.

Leandro registrou as seguintes linhas no JT no dia seguinte ao empate do Brasil com o Peru: “O vexame esperado aconteceu ontem. Jogando pessimamente, o Brasil empatou em 0 a 0 com o Peru, em Salvador. Se Sebastião Lazaroni foi sincero quando afirmou que estava esperando um resultado ruim para pedir demissão, não pode deixar passar a oportunidade”.

O jornalista não se esquece da hostilidade perpetrada pela torcida baiana – “do Bahia”, ele ressalta – contra a Seleção. “A torcida do Vitória estava muito frágil naquele momento. Não lembro de ter nenhuma coalizão com a torcida do Bahia, não. Quem era Vitória estava mais calado nesse tempo, porque o Bahia era campeão brasileiro”, afirma.

As bandeiras queimadas, as vaias e os objetos arremessados no gramado criaram um cenário que nenhum jornalista esperava cobrir. “O valor Esporte Clube Bahia foi maior do que pátria naquele momento para o baiano”, ressalta PL.

Sobre o boicote da torcida baiana, o jornalista afirma não ter sido unanimidade na imprensa local, diferentemente da atitude de Maracajá em retirar Charles da concentração. “A Tribuna da Bahia e toda a mídia impressa endossou tal ato, isso eu posso lhe afirmar”, enfatiza Paulo Leandro.

 

Um velho conhecido da Seleção nas hostes adversárias

O Peru havia sofrido uma goleada de 5 a 2 para o Paraguai na primeira rodada e esperava-se que o Brasil pudesse ter uma atuação mais convincente contra “La Rojiblanca”, o que não aconteceu. O treinador desta equipe, que explorou a desestabilização da Seleção causada pelo clima adverso no estádio, era um velho conhecido dos brasileiros: José Macia “Pepe”, o “Canhão da Vila”.

Antes do início da competição, Pepe levou seus comandados à Colina Sagrada, onde assistiram a uma missa na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Além de redobrar a fé em uma boa campanha na competição, a cerimônia serviria para atenuar as tristes lembranças do acidente aéreo que anos antes havia vitimado atletas do Alianza Lima, base da seleção peruana. “Agora, estamos prontos”, afirmara.

Pepe é um dos maiores ídolos da história do Santos Futebol Clube, único clube pelo qual atuou, e segundo maior artilheiro da história do Alvinegro Praiano, com 403 gols. Com Mengálvio, Dorval, Pelé e Coutinho, formou a maior linha de frente da história do futebol brasileiro.

Lesões sofridas às vésperas das Copas de 1958 e 1962 o impediram de atuar – e brilhar – nos dois primeiros Mundiais conquistados pela Seleção. Mesmo assim, realizou 34 partidas com a amarelinha, marcando 16 gols. Exerceu longa carreira como treinador (foram 36 anos à beira do gramado), tendo como maior título da carreira o Brasileirão de 1986, com o São Paulo.

Em 1989, comandou o Peru na Copa América e segurou o zero no placar contra o Brasil – poucos meses antes, disputou outros dois amistosos contra o Brasil, perdendo por 4 a 1 em Teresina (na grande atuação de Charles com a camisa da Seleção, quando fez dois gols) e empatando em 1 a 1 na capital peruana.

Por telefone, o ídolo santista relembrou a “dificuldade” em atuar contra o Brasil. Pepe afirmou ter ficado triste ao ver a torcida hostilizar o time brasileiro, mas confessou que tal cenário ajudou sua equipe a conquistar um ponto contra o time “da casa”.

“Nós sabíamos que a torcida teria pouca paciência com a Seleção. Então, esses apupos que aconteceram acabaram nos favorecendo”, recorda o “Canhão da Vila”. A pouca tranquilidade dos brasileiros, que diminuía no decorrer da partida, foi habilmente explorada pelos rivais.

“A falta de apoio da torcida dificultou a tarefa deles, porque qualquer jogada do Brasil, fosse certa ou errada, era recebida com uma vaia monumental. Então a gente até induziu a Seleção Brasileira a errar o máximo possível, para jogar especificamente no contra-ataque.”

A alta limitação técnica, no entanto, impediu qualquer possibilidade de gol para os peruanos. Pepe afirma que já imaginava que haveria um boicote à partida por parte da torcida baiana, mas não esperava ver o que viu na Fonte Nova.

“Realmente, eu estranhei, porque, afinal de contas, era a Seleção Brasileira e todo mundo quer ver a Seleção Brasileira. Então, até os próprios jogadores peruanos ficaram um pouco mais animados em saber que não teria tanta gente para torcer contra eles”.

 

Ba-Vi nas arquibancadas da Fonte Nova

Se a torcida tricolor não cessava os ataques à Seleção por um instante sequer, os rubro-negros no estádio ensaiaram algum apoio ao escrete nacional antes do início da partida contra o Peru. No dia seguinte à partida, o JB noticiou: “Pela primeira vez desde que Charles foi cortado, a seleção ouviu palmas e fogos de artifício quando entrou em campo – da torcida do Vitória, arquirrival do Bahia”.

A continuação do texto, porém, deixava claro que este apoio seria fugaz – bem maior do que os lampejos de bom futebol da equipe, que simplesmente não existiram. “Os torcedores apoiaram o time até os 18 minutos, momento em que surgiram as primeiras vaias, geradas pelo péssimo futebol apresentado, que não cessaram até o fim da partida”.

O que foi explicitado em matérias da época, a reportagem desejava ouvir da boca de quem foi à Fonte Nova na Copa América de 1989. Afinal, qual fora o papel da torcida do Vitória nessa celeuma toda?

A resposta veio na conversa por telefone com Clóvis Caribé, sociólogo, professor da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e rubro-negro doente. Prerrogativas não faltam para considerá-lo um fanático pelo Leão da Barra: “Eu escalo todos os times do Vitória de 1964 para cá. Frequentei muito a antiga Fonte Nova. Aquele era o templo sagrado do futebol para mim. Todos os domingos eu estava lá”, gaba-se.

O sociólogo é enfático em afirmar que o boicote à Seleção e as hostilidades ao time brasileiro dentro da Fonte Nova foram atitudes realizadas exclusivamente por tricolores. “A torcida do Vitória ficou indiferente a isso. A gente não levou isso a sério. Eu estava lá, não vaiei”, afirma. “Para ser sincero, eu queria mais é que Charles jogasse e não apresentasse nada”, completa, às gargalhadas.

Caribé afirma esta movimentação orquestrada por Paulo Maracajá, então presidente do Bahia, respaldada pela imprensa baiana, era uma disputa de espaço por parte do clube, que buscava uma inserção nacional. “Não dá para separar o contexto que envolvia essa questão de Charles dessa conjuntura política”, crava.

O torcedor do Bahia só pode escolher a cerveja que vai beber fora do estádio. Dentro da Itaipava Arena Fonte Nova só esta aí mesmo. Foto: André Carvalho.

O desprezo pelo chamado “futebol moderno” fará com que Caribé não vá à nova Fonte Nova para a partida do Brasil contra a Venezuela na Copa América deste ano. “Eu não vou porque eu não torço para a Seleção mais. Eu não torço para Neymar, não torço para Tite. Acho que Tite é um pastor protestante fantasiado de técnico”, dispara. “E também não gosto da Arena Fonte Nova. Eu gosto de estádio mesmo, não de arena”, declara.

Torcedor do Bahia, o empresário Mario Roberto Caldas também estava na Fonte Nova em 1989. Diferentemente de Caribé, mantém o apreço pela Seleção Brasileira e voltará ao estádio para prestigiar o escrete canarinho na Copa América.

“É o escudo, é o país. O Bahia também esteve na mão dos Guimarães, se acabando, e eu não ia deixar de torcer por causa disso. Então, eu tento separar a Seleção da CBF para poder torcer. Porque se a gente mistura isso, complica”, diz Maru, como é conhecido, à reportagem, em contato por telefone.

Maru também gosta da nova arena construída às margens do Dique do Tororó. “Fui muito na outra Fonte Nova, curti muito, tenho saudade do que eu vi lá. Mas eu acho que o estádio de hoje nem se compara com o antigo”.

Ele relembra grandes jogos do Bahia que viu no antigo estádio, bem como decisões envolvendo clubes tradicionais, hoje à beira da extinção, como o Galícia. E, claro, das partidas do Brasil na Copa América de 1989. “Eu sou muito Seleção também, gosto muito da Seleção, sempre gostei. Então, vaiar para mim não tinha sentido”, afirma.

A vitória do time brasileiro por 4 a 0 contra o Bahia, em 1969, na Fonte Nova, foi lembrada pelos dois entrevistados como prova de que os baianos gostam mais de seus clubes do que do Brasil. “Ali, já se viu um antecedente do que iria acontecer em 1989: você ir para a Fonte Nova para torcer contra a Seleção”, diz Maru.

Caribé, por sua vez, esteve lá. “Foi um dia marcante para mim”, afirma, pontuando como a torcida da Bahia tem uma relação fria com a Seleção Brasileira. “Quando ela joga aqui, você tem muita gente do interior do Estado. Não é um torcedor tradicional de futebol. Torcedor de Bahia e Vitória gosta mesmo é de torcer por seus clubes”.

 

A volta de Charles

Se integrado à Seleção Brasileira Charles só poderia treinar, sem ter chances de atuar, com o Bahia a situação não era diferente: como não havia sido oficialmente desconvocado pela CBF, o clube não poderia escalá-lo nas partidas do Campeonato Baiano.

Maracajá, então, fez um acordo com Ricardo Teixeira em que todos sairiam ganhando. Charles seria reintegrado à Seleção e a CBF o liberaria para atuar contra o Leônico, em jogo decisivo para o tricolor baiano no Estadual. Era uma situação surreal: o atleta treinaria com a Seleção em um dia, jogaria pelo clube em outro e em seguida viajaria com a delegação do Brasil para Recife para a última partida da primeira fase da Copa América contra o Paraguai.

A estratégia deu certo. Mesmo sem poder atuar contra a Colômbia, a reintegração do atleta baiano ao time nacional de certa forma aplacou a ira da torcida, ainda que o boicote dos tricolores continuasse deixando as arquibancadas da Fonte Nova às moscas – foram apenas 9.100 pagantes na ocasião.

Mesmo com uma maior condescendência da torcida, as coisas não estavam fáceis para Lazaroni, já que a imprensa sulista cravava queda assim que a competição chegasse ao fim. E mesmo a boa vontade da torcida durou pouco, já que o futebol apresentado pela equipe no empate sem gols com os “cafeteros” foi do mesmo nível do estado do gramado da Fonte Nova: péssimo.

Após três partidas em que o público pagante não chegou sequer à casa dos 10 mil pagantes, o prejuízo para a CBF era nítido: o boicote da torcida, segundo a CBF, fez com que NCz$ 300 mil (R$ 1,6 mi aproximadamente hoje) deixassem de entrar nos cofres da entidade. Quem faturou mesmo foram os vendedores de laranja, que gritavam: “Olha a laranja para jogar na cabeça do Lazaroni!”

 

“A gente ganhava dinheiro e podia circular”

Há trinta anos, os ambulantes podiam circular livremente nas arquibancadas da Fonte Nova. Eram tempos em que não existiam naming rigths e contratos de exclusividade com fornecedores. No concreto do velho estádio Octávio Mangabeira, a “feira livre” corria solta.

Em um domingo de Bahia e Fluminense, a última partida do clube baiano antes do fechamento da Fonte Nova para a disputa da Copa América deste ano, a reportagem foi ao entorno da nova arena procurar por pessoas que tivessem trabalhado no local em 1989. Logo foi encontrado um vendedor de camisetas e bandeiras, que bate ponto ali desde o início dos anos 80. Seu nome é Pedro Elias, vulgo Peu.

Peu é saudoso ao falar da velha Fonte Nova. “Era mais popular. Hoje é aquela mordomia toda. Na minha opinião, a outra Fonte Nova é muito melhor do que essa aí. Muito melhor. Se eu tivesse uma bola de cristal e pudesse voltar no tempo, eu voltaria”, afirma.

Para o vendedor Peu, que não poderá montar seu varal em seu ponto durante a Copa América, há muita tecnologia e pouca humanidade na nova Fonte Nova. Foto: André Carvalho.

Apesar do baixo público nas partidas da Seleção no campeonato sul-americano de 89, Peu afirma ter faturado algum cascalho na época. “Vendi bastante camisa do Brasil, bandeira, bandeira de carro. Pro comércio foi bom”, lembra. “Agora, realmente foi feio pra gente. O Brasil jogou mal, foi humilhado, foi vaiado. Acho que até que alguma daquelas bandeiras que foram queimadas saiu daqui”, brinca o torcedor fanático do Bahia.

Eram outros tempos. Bons tempos para Peu. “Eu sinto saudade daquela época. A gente ganhava dinheiro e podia circular. Podia entrar no estádio. Eu vendia muito mais e não tinha a perseguição que existe hoje”, recorda, comentando que chegou a ter oito garotos trabalhando para ele. “Hoje, estou sozinho e tenho que ralar para levantar um trocado”.

Peu reclama que não pôde trabalhar direito nas partidas realizadas no estádio soteropolitano na Copa das Confederações, na Copa do Mundo e nas Olimpíadas. “Botavam a gente lá longe”, diz. E sabe que não será diferente na Copa América. “Não vamos poder ficar aqui. A gente fica na rua, nem pode vir para cá, trabalha pela cidade”, resigna-se.

As camisetas do Bahia – e da Seleção – terão que ser expostas bem longe da Fonte Nova durante a Copa América. Foto: André Carvalho.

Perto dali, a reportagem encontrou Jalma Nascimento, vendedora de amendoim. Trajava uma roupa com as cores do rival. “Sou torcedora do Vitória”, sussurrou. Ela também trabalhou na Copa América de 1989 vendendo, além de amendoim, cerveja. “O movimento foi bom, mas nem tanto”. Ela não se recorda de ter visto um clima de revolta por parte dos torcedores tricolores fora do estádio. “Acho que eles deixaram pra ficar bravos lá dentro”, sugere.

Jalma trabalha em dias de jogos na Fonte Nova desde os anos 70. “Criei meus filhos tudo aqui, com o movimento daqui”, afirma, lamentando que hoje as coisas estão mais difíceis. “Naquela época eu vendia mais. Eu vinha com aquelas caixonas de cerveja e vendia tudo, mas hoje não vende mais, não”.

Jalma Nascimento bate ponto na Fonte Nova vendendo amendoim desde os anos 70, mas ficará em casa durante a Copa América. “Vou vir fazer o que aqui?”. Foto: André Carvalho.

A torcedora rubro-negra não gosta dos grandes eventos que a nova arena abriga desde 2013, quando a Fonte Nova sediou a Copa das Confederações. “Atrapalha bastante a gente. Não posso trabalhar”, lamenta. “Eu fico em casa durante estes eventos. Vou vir fazer o que aqui?”

Peu também não vê a hora da competição organizada pela Conmebol chegar ao fim. “Tomara que acabe logo essa Copa América para a gente poder ganhar o nosso dinheiro”.

 

“De volta ao Brasil”

Findada a angustiante jornada por Salvador, a Seleção Brasileira foi recebida com festa em Recife para a disputa da última partida da primeira fase, contra o Paraguai. “Bem-vindos de volta ao Brasil”, dizia uma faixa no Arruda, palco da vitória sobre os paraguaios por 2 a 0. O triunfo deu confiança para a equipe, que venceu as três partidas da segunda fase no Maracanã e levantou o caneco que não vinha desde 1949.

Para os duelos do quadrangular final, que além do Brasil era composto por Paraguai, Argentina e Uruguai, Charles foi finalmente inscrito, ao lado de Zé Carlos, Bismarck e Josimar – Tita e Zé Teodoro, lesionados, foram cortados. O craque do Bahia, porém, não jogaria um minuto sequer na competição.

Na curta passagem da delegação brasileira por Recife, o diretor de futebol da CBF Eurico Miranda, ainda inconformado com o tratamento recebido pela equipe em Salvador, disparava: “Se depender de mim, a Seleção ficará sem jogar em Salvador por 30 anos”.

Estes trinta anos se passaram e o Brasil voltou a atuar na cidade algumas vezes, realizando amistosos e disputando partidas de Eliminatórias e Copa das Confederações na capital baiana, sem nenhuma derrota – o retrospecto da esquadra nacional em Salvador, aliás, não registra uma derrota sequer: em vinte partidas, foram quinze vitórias e cinco empates.

Nestas três últimas décadas, a Seleção Brasileira conquistou duas Copas do Mundo, quatro títulos de Copa América e outros quatro troféus de Copa das Confederações. A estrutura do futebol baiano e brasileiro alterou-se profundamente, bem como as diretrizes da Conmebol, cada vez mais afeita ao “futebol moderno”. A própria Fonte Nova é outra, assim como a cidade – e o país – que a abriga.

 

Do Complexo Esportivo e Cultural Octávio Magabeira à Itaipava Arena Fonte Nova

O palco da revolta da torcida baiana na Copa América de 1989 não existe mais. Inaugurado em 1951, com capacidade para 30 mil torcedores, e ampliado no início dos anos 70 com a construção do anel superior, que elevou a capacidade para 80 mil pessoas, o Estádio Octávio Mangabeira foi ao chão em agosto de 2010. Junto com ele, desapareceu o complexo poliesportivo que o ladeava, que incluía o Ginásio Antônio Balbino, uma piscina olímpica e uma pista de atletismo.

O estádio estava sem uso desde o desabamento de parte da arquibancada, durante o jogo do acesso do Bahia à Série B contra o Vila Nova (GO), em novembro de 2007, quando sete torcedores tricolores morreram. A tragédia foi o último capítulo do velho estádio, desaparecido para dar lugar a uma moderna arena, construída para a Copa do Mundo de 2014 e que ganhou o apelido de “Fonte dos Gols” na competição, devido às movimentadas partidas disputadas no local, repletas de bolas na rede.

Oficialmente batizada de Itaipava Arena Fonte Nova, o estádio abrigou nos últimos anos partidas da Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas e receberá cinco jogos da Copa América, incluindo Brasil e Venezuela e um duelo de quartas de final.

Fachada da Arena Fonte Nova. Foto: André Carvalho.

“Eu gostava muito da antiga Fonte Nova. Sempre gostei, tinha uma energia muito boa jogar lá”, afirmas Charles. “Claro que tinha algumas coisas que deixavam muito a desejar, como o gramado e os banheiros, que eram uma vergonha, mas era um estádio que tinha uma magia, que era muito amado pelo torcedor baiano”.

O ídolo tricolor, que cansou de balançar a rede da velha Fonte Nova, também trabalhou na nova arena defendendo as cores azul, vermelho e branco quando foi treinador do clube que o consagrou.

“A Fonte Nova se modernizou e hoje, para mim, dos estádios que eu fui de Copa do Mundo, é o mais bonito. É um estádio lindo, acolhedor. Um estádio que você vê o jogo de perto, tem uma visão maravilhosa do jogo. Eu gosto muito da Fonte Nova atual, da estrutura que é oferecida aos atletas e à imprensa”.

Para ele, a festa nas arquibancadas que se fazia antigamente, no entanto, é incomparável. “Tinha aquela coisa do torcedor de Bahia e Vitória entrando junto no estádio, de torcerem juntos. Hoje isso não existe mais. Eu sinto muita falta disso. Da torcida mista. Hoje fazem torcida única do Bahia na Fonte Nova e torcida única do Vitória no Barradão. Isso é uma tristeza, é lamentável para o futebol”, lastima.

Um encontro no Elevador Lacerda, ponto turístico de Salvador, entre um rubro-negro e um tricolor. Paulo Leandro e Fred do Chame-Chame são rivais, mas têm um inimigo em comum: o “futebol moderno”. Foto: André Carvalho.

Tricolor fanático do Bahia, Fred do Chame-Chame acompanhou de perto a transformação no perfil da torcida de seu clube do coração nestas últimas décadas. “Houve essa pasteurização da Fonte Nova. Eu acompanhei a Fonte Nova com o Bahia como time do povo, da massa. Povão, mesmo. Hoje, o público que frequenta as novas arenas parece que está indo para o shopping, para o teatro”, reclama.

O rubro-negro Paulo Leandro concorda. “A gente está cada vez mais deixando de ser torcedor para se tornar consumidor do clube. É o torcedor de mercado: quando o time perde, é abandonado como um cão sarnento”, diz o jornalista e professor universitário, autor do livro “Negô! Baêa! A invenção da torcida baiana”.

 

Dos jornalistas de vestiário aos assessores de imprensa

Foi-se o tempo em que os repórteres conseguiam declarações de jogadores dentro dos vestiários após as partidas e que o relacionamento com as fontes era fundamental para que boas reportagens fossem escritas. Vivemos a era das redes sociais, da assessoria de imprensa, da gestão de imagem. Tudo meticulosamente amarrado para que o atleta esteja sempre em alta no mercado e bem avaliado pela opinião pública.

Este “escudo” que os jogadores e técnicos profissionais têm à disposição hoje fez muita falta, por exemplo, à Lazaroni em 1989. O então treinador da Seleção apanhou de tudo que foi lado durante a campanha que culminou com o quarto título do Brasil na competição.

“Hoje as coisas são bem diferentes. Há toda uma estruturação diferente envolvendo a relação de treinadores e jogadores com a imprensa”, diz Lazaroni. “O assessor de imprensa faz este meio-campo, esfriando determinados assuntos ao mesmo tempo que enaltece outros”.

Outra questão que a globalização no futebol acabou por reduzir drasticamente foi o bairrismo dos profissionais de imprensa. Com a maioria dos atletas de ponta atuando no exterior sobra pouco espaço para ocorrerem casos como o que envolveu Charles, a Seleção Brasileira e a imprensa baiana em 1989. A falta de ligação da torcida com a equipe nacional, que pouco atua no país, faz com que mesmo a relação de amor e ódio seja alterada: cresce, cada vez mais, a indiferença dos torcedores ao escrete canarinho.

 

De Lazaroni a Tite

O Brasil que disputou a Copa América de 1989 estava há quatro décadas sem vencer a Copa América e 19 anos sem conquistar um Mundial. Era um time em formação, após a aposentadoria de ídolos como Zico, Sócrates e Falcão, símbolos daquele grande time do início dos anos 80, que encantou o mundo.

Após um fraco resultado na Copa de 1990, o Brasil emendou ótimos resultados em Mundiais, conquistando o tetra e o penta em um hiato de apenas oito anos. Craques como Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho fizeram a alegria da torcida brasileira. Após a conquista na Ásia em 2002, no entanto, um novo período de vacas magras se faz presente.

Jogando mais um torneio em casa, depois da desastrosa campanha na Copa do Mundo de 2014, a Copa América pode significar um estreitamento dos laços neste relacionamento da torcida com a Seleção. A conjuntura dos fatos, no entanto, não ajuda muito.

“Quando os grandes ídolos atuavam no país, a torcida ficava mais empolgada com a Seleção, gostava de ver os craques de seus clubes brilhando com a amarelinha. Isso gerava uma ligação forte. Hoje, o Brasil deixou de fabricar ídolos. Eles se tornam ídolos quando já atuam fora do país. E isso esfria muito este relacionamento da torcida com a Seleção”, afirma Pepe.

Para Lazaroni, de fato há um distanciamento entre a Seleção e a torcida brasileira, mas a “hora da retomada” é agora.

“Tite fez uma grande Eliminatória, com a Seleção apresentando um futebol de qualidade, mas não conseguiu conquistar bons resultados na Copa do Mundo. Então, acho que agora é a grande chance de todos de fazerem melhor. É a chance de todos – jogadores, treinador e comissão técnica –, de mostrar o caminho da vitória, do bom espetáculo e da qualidade no jogo”.

 

Fim de sinalizadores e bandeirões?

Se a Copa América ainda tinha um quê de Libertadores em 1989, a previsão é que em um futuro próximo o processo se inverta, fazendo com que o torneio interclubes sul-americano passe a ter arquibancadas cada vez mais “estéreis” – este modelo de torcida (comportada, sem bandeiras e rojões) é o que já deve prevalecer no campeonato entre seleções que o Brasil sediará neste ano.

Isso porque a Conmebol tem se inspirado no modelo europeu de organização de torneios, ignorando tradições e identidades locais. Nesse sentido, em uma movimentação em direção ao chamado “futebol moderno”, instituiu a realização da decisão do campeonato em campo neutro na Libertadores e a proibição, a partir de 2021, de bandeirões, bem como a exigência de que os torcedores assistam aos jogos sentados.

 

“O de cima sobe e o de baixo desce”

A estrutura do futebol brasileiro alterou-se de forma profunda nos últimos trinta anos. O calendário e o regulamento das competições, que eram modificados a cada temporada, ganharam estabilidade. Desde 2003, o Campeonato Brasileiro passou a ser disputado em pontos corridos e os asteriscos na tabela ao término dos campeonatos passaram a ser bastante incomuns.

No entanto, embora os grandes clubes tenham se profissionalizado de forma sensível, o fosso entre estes e os clubes de menor tradição tem aumentado de forma exponencial, colocando em risco a própria sobrevivência destes. Para Paulo Leandro, a criação do Clube dos 13, sob a guarida da Rede Globo, foi um marco nesse processo.

“Houve um cisma, um racha, e a partir daí uma política neoliberal se apossou do futebol brasileiro com o argumento moralista de organização do futebol. Organização esta que destruiu a base piramidal de clubes que havia antes, permitindo que apenas os treze de maior torcida pudessem sobreviver, com orçamentos poderosos”, afirma. “O projeto da Globo era, e ainda é, fortalecer os fortes e exterminar os fracos”.

A entrada do Bahia neste seleto grupo fez com que, à época, a diferença financeira e estrutural em relação ao arquirrival aumentasse. Apenas doze anos mais tarde o Leão da Barra entraria na agremiação. “O Vitória só ingressou no Clube dos 13 em 1999. Eu fui contra e votei em branco. Mas, todos os outros clubes votaram a favor. Era medo de ACM, que era rubro-negro”, lembra Paulo Maracajá.

Nas últimas décadas, o Vitória diminuiu a distância para o Bahia, sobretudo entre os anos de 2001 e 2012, quando o Esquadrão de Aço não venceu um título estadual sequer. Ambos os clubes passaram por reformulações internas, adotando, cada qual à sua maneira, eleições diretas e gestões mais transparentes. No atual momento, a situação técnica do Bahia, na primeira divisão e classificado para as quartas de final da Copa do Brasil, no entanto, é bem mais favorável que a do rival, que ocupa a zona de rebaixamento da Série B.

No contexto estadual, o tal fosso entre “grandes” e “pequenos” é ainda mais dramático: clubes outrora campeões e tradicionais como Ypiranga e Galícia estão à beira da extinção. A estes, nem “reza braba” tem ajudado. Se bem que o apelo aos santos e orixás não tem muita serventia quando se trata de futebol na Bahia. Afinal, como diria João Saldanha, “se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano acabaria empatado”.

 

Os bons tempos das arquibancadas de cimento

Se na Copa América de 1989, os ingressos mais populares custavam o equivalente a R$ 50, um valor exorbitante para uma partida de futebol à época, na competição que será disputada neste ano as entradas terão preços muito mais altos, podendo chegar a inacreditáveis R$ 890 na final do torneio, que será disputada no Maracanã no dia 7 de julho.

O resultado desse processo de elitização nas novas arenas é a mudança do perfil do público que sai de casa para apoiar a Seleção no estádio. A “cultura de arquibancada” vai se perdendo no tempo, com a torcida se transformando cada vez mais em assistência, em um processo inverso do que ocorria no início do século passado, quando os clubes passaram a ter adeptos fervorosos, que já não se contentavam em apenas assistir à partida.

Até o início da década de 70, a Fonte Nova tinha apenas um anel, com capacidade para apenas 30 mil torcedores. Foto: A Tarde/Reprodução.

A nova Fonte Nova foi classificada por muitos torcedores e jornalistas como o melhor estádio da Copa de 2014. Foto: André Carvalho.

O resultado do jogo, agora, passa a valer menos do que a selfie com a marcação da localização do estádio no Instagram – se você não postou, não viveu. A catarse do momento do gol é menor do que a vaidade de acenar para as câmeras e ter sua imagem exposta no telão da arena.

Na era da “pós-torcida”, quem faz o espetáculo, quem produz todo o alicerce para que haja a festa que sempre fez do futebol “a coisa mais importante dentre as menos importantes”, está excluído, barrado no baile.

Peu é um deles. Nos dias de jogos na Fonte Nova estará longe do lugar que sempre foi, ao mesmo tempo, lar e local de trabalho. Ficará perambulando pela cidade vendendo camisetas de futebol, bandeiras e outros penduricalhos, sobretudo para os “gringos” que estarão na cidade.

A saudade bate forte e o tricolor chega a se emocionar quando se recorda das arquibancadas de cimento da velha Fonte Nova. “Naquele tempo que era bom. Tinha menos tecnologia e mais humanidade”.


Durante a Copa América, Puntero Izquierdo e Ludopédio publicam uma série de reportagens sobre a história e a atualidade da competição.