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A saga de um Leão centenário (parte I)

Caio Araujo

Há dez anos o Fortaleza caía para a série B do Campeonato Brasileiro. Na edição de 2006, vencida pelo São Paulo F. C, o tricolor cearense terminou na 18ª posição com 38 pontos, seis a menos que o Palmeiras, primeiro time fora da zona do rebaixamento. No ano seguinte, o Leão por pouco não retornou à elite do futebol nacional, quando encerrou o torneio na quinta colocação com 56 pontos. O Vitória (BA), quarto colocado, classificou-se com 59.

Em 2008, a campanha foi bastante irregular. Com 38 pontos, livrou-se da degola por ter vencido uma partida a mais (12 no total) que o Marília, equipe do interior de São Paulo. Já em 2009, repetiu a pontuação da temporada anterior, mas a derrota de virada em casa (1 x 2) na penúltima rodada para o São Caetano sacramentou a queda para a terceira divisão após uma década. Como se não bastasse, o arquirrival Ceará alcançou o objetivo de voltar à série A. Desde então o Fortaleza vem tentando retornar às divisões principais, mas por alguma razão, a despeito de sucessivas bolas na trave, não tem conseguido, no que parece ter se tornado uma verdadeira sina de quem faz tudo certo, mas na hora agá deixa o acesso escapar.

Passeio Público, onde foram disputadas as primeiras partidas de futebol em Fortaleza no início do século XX. Foto: Wikipédia.

No início do século XX, o futebol em Fortaleza era restrito aos encontros dos marinheiros ingleses e cearenses abastados no Passeio Público, a praça mais antiga da cidade, e às disputas entre os colégios municipais, com destaque para o confronto entre Liceu Foot-Ball Club e Castelo Football Club, hegemônico até 1911. A primeira partida de que se tem notícia na capital foi entre o English Team, formado por funcionários do London Bank South América e da Ceará Gás Company Limited, e o Foot-Ball Club, vulgo “Clube da Vaca”, fundado em 1904 por José Silveira, considerado o precursor da modalidade no estado, composto, na sua maioria, por tripulantes dos navios atracados no Porto do Mucuripe. Na ocasião, os britânicos venceram por 2 a 0. Uma década depois, outro jovem desportista cearense regressou à terra natal após longo período de estudos no College Stella, na França, disposto a não deixar para trás o gosto pela novidade que descobrira na Europa.

Filho do segundo casamento do político abolicionista Agapito dos Santos com a aristocrata Raimunda Barbosa, Alcides dos Santos demonstrava vocação atlética desde muito jovem. Foi nadador, ciclista – disputou, inclusive, duas etapas do Tour de France – e integrou a equipe de remo do Flamengo nos tempos em que o pai exercia o segundo mandato de deputado federal (1912-14) no Rio de Janeiro, então capital nacional. Em Fortaleza, Alcides, com 16 anos, participou da criação do Riachuelo Atlético Clube[1] (1915), do Maranguape Sport Club (1914) e do Stella Foot-Ball Club (1915) – este último na companhia de Humberto Ribeiro, Walter Olsen, João Gentil, Bruno Menescal, Oscar Loureiro, Pedro Riquet, Walter Barroso e Mario Petter, todos egressos do colégio europeu para onde eram enviados na mocidade os herdeiros da alta sociedade cearense.

Foot-Ball Club, 1904. Foto: Wikipédia.

Três anos depois, Alcides propôs aos demais sócios-fundadores rebatizarem o Stella em homenagem à capital do estado. A reunião na Rua Barão do Rio Branco, futura sede do clube, foi breve e consensual, segundo o seu depoimento ao jornal “O Povo”, em 1958. Nascia assim, no dia 18 de outubro de 1918, o Fortaleza Sporting Club[2] com o objetivo central de se contrapor às agremiações mais fortes da época – o Ceará Sporting Club e o Bangu Athletic Club, ambos em atividade desde 1914. Assim como no resto do país, o futebol no Ceará era exclusividade da elite. Os primeiros times, ligas e agremiações aceitavam apenas brancos e ricos. Com o Fortaleza não foi diferente, e este foi um fardo que o clube carregaria ao longo da sua história.

O uniforme branco com a estrela vermelha estampada no peito cedeu espaço ao azul, branco e vermelho da bandeira francesa na nova camisa, o que, segundo Alcides, agradou a torcida feminina do clube, “composta por moças da nossa melhor sociedade e que frequentavam o estádio dando um colorido todo especial aos espetáculos futebolísticos”. A manutenção das três cores no manto foi uma insistência do presidente e um sinal de distinção social, já que muitos clubes trocaram as suas cores em função da dificuldade de se obter tecidos e da facilidade com que os uniformes desbotavam. O Fortaleza é o único time cearense que desde a década de 20 mantém as cores originais.

A rua Barão do Rio Branco fica próxima à praça General Tibúrcio, em reverência ao comandante do exército nacional na Guerra do Paraguai (1885). Popularmente conhecida como “Praça dos Leões”, o local inspirou os adversários que ao tomarem conhecimento de quem enfrentariam assim se referiam ao Fortaleza: “vamos enfrentar o time dos leões”. A aparente provocação originou o apelido assumido com orgulho e que seria popularizado na década de 60 pelo jornalista da rádio Uirapuru, Vicente Alencar. Muitos anos depois, foi construída nesta praça uma estátua da escritora cearense Rachel de Queiroz, cuja vida se entrelaça com a do próprio clube.

Dois anos depois da fundação, o Fortaleza conquistou o Campeonato Cearense, o primeiro organizado pela Associação Desportiva Cearense, após derrotar por 2 a 0 na final o também tricolor Guarany Athletic Club, clube com o qual nutria relação de profunda simpatia porque os seus jogadores também circulavam pelos espaços da alta sociedade. Deste confronto nasceu o apelido “Tricolor de Aço”, que posteriormente o diferenciaria do Ferroviário Atlético Clube, o “Tricolor de Ferro”.

No ano seguinte, outra vez contra o Guarany na final, veio o bicampeonato. Esses títulos romperam o domínio do Ceará[3], campeão das cinco primeiras edições do torneio – feito até hoje jamais alcançado – e deram visibilidade ao clube, que ao longo da década de 20 passaria a deter a terceira maior torcida do estado com 13% da preferência dos torcedores, atrás do próprio Ceará (28%) e do Guarany (49%), e a frente do Bangu (9%), consolidando-se, portanto, como um dos mais expressivos do estado.

Em 1922, o Ceará derrotou o Leão na final e conquistou o hexa no centenário da independência do Brasil. Na ocasião, o Fortaleza vencera o primeiro duelo por 6 a 3, o que o fez entrar “relaxado” na segunda partida. Segundo as más-línguas, a diretoria tricolor já havia até reservado o jantar da comemoração do título no restaurante mais fino da cidade. A prepotência, porém, custou caro. O alvinegro devolveu a goleada (4 a 1), impediu o tri do rival e comemorou a conquista nas mesas reservadas do tal restaurante para o campeão. E assim surgia a maior rivalidade do estado.

Desde o início do século XIX diversas agremiações no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, sobretudo as populares (Vasco, Andaraí, Bangu, Internacional, Atlético-MG, Juventus, Corinthians, entre outras), praticavam o chamado “amadorismo marrom”, a profissionalização camuflada utilizada para driblar a defesa das associações desportivas ao amadorismo. A bem-dizer, não se tratava de vínculo profissional efetivo, pois inexistia contrato de trabalho ou remuneração em espécie, quer dizer, os atletas podiam muito bem se contentar com um terno, um convite para o baile no salão oval ou um voucher de hospedagem no hotel recém-inaugurado com direito a garrafa de espumante. Os mais habilidosos e malandros conseguiam barganhar incentivos mais vantajosos, caso contrário não davam certeza de que uma repentina dor de barriga lhes acometeria no dia da partida.

Para a maioria dos jogadores, todavia, era incerto que o futebol se tornaria um ganha-pão. Servia mais como renda complementar ou, para os mais descrentes, o meio para se conseguir um emprego decente. Isso sem falar nos futuros advogados, médicos e engenheiros que não queriam saber de salário do clube, até porque isso implicaria numa indesejável submissão, isto é, enquanto amadores podiam ditar as regras do jogo, mas não como empregados. Não podiam, por exemplo, ser cobrados por um eventual atraso no treino, já que, por não receberem, não havia contas a prestar. Jogavam para cultivar a amizade e para se exibirem às donzelas que iam ao estádio depois da missa dominical de mãos dadas com as mães.

Tal experiência só chegaria ao Ceará no final da década de 30, quando o esporte já havia se profissionalizado oficialmente no país (1933) e quando começaram a surgir os clubes operários no estado, entre os quais o Cutuba, o Orion e, o maior deles, o Ferroviário, símbolo da democratização do futebol nacional e precursor do profissionalismo no Ceará. Fundado por operários da Rede de Viação Cearense, o Ferroviário ganhou a simpatia dos trabalhadores braçais da capital e, após a extinção do departamento de futebol do Maguary, descontente com o fim do amadorismo, tornou-se a terceira força do estado, posição que sustenta até os dias atuais.

Para se ter uma ideia, os clássicos contra Ceará (Paz) e Fortaleza (Cores) tiveram a mesma dimensão nas décadas de 40 e 50 à do Clássico-Rei. A sua torcida é a 13a maior do Nordeste e a 45a do Brasil, segundo o Datafolha, com um total estimado em 200 mil adeptos. Em 1973, o goleiro Marcelino ficou 1.295 minutos sem levar gols – é a quarta melhor marca do Brasil e a oitava do mundo. O “Ferrão” foi nove vezes campeão estadual, a última delas em 1995. Participou de seis edições da séria A do Brasileirão – a última em 1984 –, de oito da série B – a última em 1991 – e de doze da série C. Desde 2009, porém, não figura entre as quatro principais divisões do país.

Dentre os principais atletas revelados na base do clube estão Marcelo Veiga, autor do gol do título cearense de 1988; o volante Nasa, campeão da Libertadores de 1998 com o Vasco; os atacantes: Jardel, ídolo do Grêmio na década de 90; Mirandinha, figura-chave no segundo título brasileiro do Corinthians (1998); e Mota, campeão brasileiro com Cruzeiro em 2003, além de quatro nomes conhecidos do torcedor colorado – Clemer, Ediglê, Iarley e Márcio Mossoró – campeões da Libertadores e do Mundial em 2006.

A Fortaleza sem arranha-céus recebia em meio a Primeira Guerra Mundial (1914-18) um expressivo fluxo migratório provocado pela pior seca já vista no sertão, em 1915, que vitimou 100 mil nordestinos, como aponta o historiador Marco Antônio Villa no livro “Vida e Morte no Sertão”. O Ceará era o segundo maior (atrás do Maranhão) exportador do algodão brasileiro para a indústria têxtil inglesa, e a capital, onde se concentrava o maior latifúndio da matéria-prima, atraía milhares de retirantes que fugiam da miséria no interior do estado. A população de Fortaleza, até então de 40 mil habitantes, triplicou em uma década.

Os fazendeiros, amedrontados pelo risco de terem suas terras invadidas por flagelados, pressionaram à Prefeitura a conter a expansão demográfica. Uma das medidas adotadas pelo poder municipal, sob o pretexto de evitar tensões sociais, foi o uso de um terreno no bairro do Alagadiço, à oeste de Fortaleza, como centro de confinamento dos retirantes, de onde grande parte deles, com incentivo da União, migraria para a Amazônia no auge do ciclo da borracha. Neste espaço, adquirido posteriormente por Alcides e doado ao Fortaleza, o time jogou de 1923 a 1928 e conquistou o primeiro tricampeonato estadual (1926-27-28), sendo que na edição de 1927 aplicou a maior goleada na história da rivalidade com o Ceará – 8 a 0.

No início da década de 30, o clube se mudou para o Campo do Prado e o Alagadiço retornou ao domínio do Estado. Após cinco anos sem títulos, o tricolor voltou a se sagrar campeão estadual em 1933, ano em que adotou a política da cobrança por ingressos. Conquistou o bicampeonato invicto em 1934, derrotando o poderoso “ataque dos 100 gols” do América, que viria a ser campeão no ano seguinte. Depois do segundo título do Maguary em 1936 (o primeiro foi em 1929), o Fortaleza impediu o tri do rival em 1937, foi campeão invicto novamente e ultrapassou pela primeira vez o Ceará em número de troféus estaduais: 10 a 9. Na temporada seguinte, venceu outra vez o Maguary na final e ampliou a vantagem. Foi neste período que se construiu a mais longa invencibilidade entre eles: durante sete anos (1932-39) o tricolor não perdeu para o alvinegro. O Campo do Prado também recebeu a primeira partida noturna do Ceará, em 1939: Ferroviário 2 x 1 Estrela do Mar[4], no que marcaria o início da modernização do futebol cearense.

Campo do Prado, ainda com barro batido, onde o Fortaleza ficou sete anos (1932 a 1939) sem perder para o arquirrival (Foto: Nires de Azevedo/Wikipédia).

Em decorrência da estiagem de 1932, a experiência de isolamento anterior foi replicada, com o apoio da Interventoria Federal no Ceará, em outros cinco municípios – Cariús, Crato, Senador Pompeu, Quixeramobim e Ipu, além da capital – onde foram erguidos sete currais cercados com arame farpado à beira da estrada de ferro, o principal meio de entrada aos municípios. A ideia do programa oficial era atenuar as consequências da seca mediante distribuição de comida e atendimento médico aos migrantes desamparados. Na prática, contudo, impedidos de adentrarem a cidade, eles eram aprisionados nestes currais – por isso o apelido de “campos de concentração cearenses”. Estes locais chegaram a confinar mais de 73 mil sertanejos em busca de uma vida mais digna na capital, sob a benção de Padre Cícero.

A família do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes de Alencar, natural de Cariri (CE), morou no campo de Crato, o maior deles. A experiência foi determinante para entrada de Arraes na política, como ele próprio revelaria. “A seca braba de 32 é muito forte na minha memória. Um dia, quando ia estudar, me deparei com três homens presos. Eram flagelados do curral da concentração. Foram presos como desordeiros, só porque ficaram revoltados com as injustiças cometidas lá”, contou ao blog “Fortaleza Nobre”, em junho de 2010. Não há registros de quantos deles morreram nestes locais. O que se sabe é que muitos, outra vez por intermédio do governo central, embarcaram para São Paulo obrigados a defender o regime varguista contra a Revolução Constitucionalista de 1932.

Os investimentos públicos atendiam aos interesses de um segmento econômico. Ruas centrais pavimentadas, iluminação a gás substituída pela elétrica, a construção dos prédios do Mercado Municipal e da Faculdade de Direito e a reforma do Porto de Mucuripe foram algumas das subvenções urbanísticas. A paisagem Belle Époque idealizada pela oligarquia agrícola, de uma Fortaleza moderna, limpa e cívica, contrastava com aqueles depósitos de gente suja e morta de fome nos arredores da cidade. O jornal “O Nordeste” decretara o 17 de fevereiro de 1923 como o “Dia da Extinção da Mendicância” (Folha de S. Paulo, 30/11/2014), uma vez que, segundo o periódico, ser mendigo era contra os princípios morais da sociedade.

O Estado Novo chegou ao apogeu na década de 40 e em decorrência do forte ufanismo propagado durante a Segunda Guerra Mundial (1938-1945), muitos clubes são forçados a aportuguesar suas alcunhas estrangeiras. Em concordância ao Decreto-Lei 3.199, de 14 de abril de 1941, a Associação dos Desportos do Ceará passou a se chamar Federação Cearense de Desportos (FCD) e o Fortaleza se viu impelido a nacionalizar o “Sporting Club”. A medida agrupou federações locais que receberam apoio da entidade nacional para promover competições inter-regionais.

Em 1946, a Federação Norte Riograndense de Futebol retomou o conceito do Troféu Nordeste – competição que reuniu os campeões e vices da Bahia, Pernambuco e Paraíba em 1923 – e organizou a Copa Cidade de Natal, também conhecida como Torneio Nordeste, com os campeões estaduais da região naquele ano. Em função da distância até Natal, a federação baiana não enviou o seu representante (Guarany). Participaram do torneio: América (PE), Treze (PB), Fortaleza (CE) e o anfitrião América (RN). O tricolor cearense venceu duas das três partidas na primeira fase e se classificou para a final, que só seria disputada no ano seguinte. A decisão foi contra o América (RN).  Após empate no primeiro jogo por 2 a 2, venceu os donos da casa no segundo confronto por 3 a 1 e assim conseguiu o seu primeiro título contra equipes de outros estados.

No começo dos anos 50, a intervenção da prefeitura no Estádio Presidente Vargas, onde o Fortaleza mandava os seus jogos desde a construção sob o antigo terreno do Prato, reacendeu o ímpeto na diretoria tricolor em possuir novamente uma casa própria. Embora grande parte das glórias recentes tivesse sido alcançada no local que nunca lhe pertenceu, havia o desejo entre os cartolas de voltar a ter não só um estádio, mas uma sede onde pudesse ostentar a sua história, tal qual fora o Alagadiço na década de 20. Desta feita, o então presidente do clube, Carlos Rolim Filho, adquiriu da senhora Margarida Hedwig, viúva do próspero latifundiário alemão Franz Wierzbick, um terreno no Pici, um bairro de ruas estreitas e sinuosas erguido por 500 mulheres em um mutirão habitacional que a ONU reconheceria, em 1994, como a maior ocupação pacífica feminina no Brasil. Três décadas depois, esta mesma região abrigaria a sede da Universidade Federal do Ceará (UFC), a Santa Casa de Misericórdia e a Legião Maçônica de Fortaleza.

Muito antes das melhorias promovidas pela instalação da UFC serem percebidas pelos 45 mil habitantes (Censo, 2010), benfeitorias que elevaram o IDH da região a modestos 0,420, mas não a rebaixariam do sexto lugar no ranking de homicídios dolosos na capital, os seus 3,92 km2 se resumiam aos campos de futebol em torno do centenário Sítio do Pici, às margens do riacho Cachoeirinha, cujo então proprietário, Daniel de Queiroz Lima, era o pai da escritora fortalezense Rachel de Queiroz. No seu primeiro romance – “O Quinze” (1930) – quando tinha só 20 anos, Rachel relembra a luta do povo nordestino contra a miséria e a seca de 1915, realidade da qual ela fugiu migrando com a família para o Rio de Janeiro, mas que acompanhou a sua literatura, marcada por um modernismo regionalista de cunho social. O interesse da autora por questões sociais a aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Embora jamais tenha se filiado ao partido, a identificação com os seus ideais não a livrou da prisão em 1937, quando o PCB já havia entrado na clandestinidade.

Anos depois, porém, descrente na eficácia da radicalização ideológica empenhada pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) e crítica à opção pela luta armada, Rachel assumiu uma postura política mais conservadora, influenciada pela corrente literária simpática a este espectro, à qual pertenceram, dentre outros autores nordestinos, Gilberto Freyre e Jorge Amado, este também decepcionado com o comunismo. Rachel apoiou a deposição de Jango em 1964 e chegou a ocupar cargo na área cultural do partido do regime militar, o ARENA, antes de ingressar em 1977 na Academia Brasileira de Letras (ABL), de cujo patrono, José de Alencar, descendia por parte de mãe.

Alencar acreditava que a abolição da escravatura deveria se dar de forma natural, e não por decisão legislativa, conforme sugeriu Dom Pedro II após o término da Guerra Civil Americana (1861-1865), quando o Brasil era o único país independente das Américas onde o comércio negreiro permanecia legalizado. Membro do Partido Conservador, Alencar enviou cartas ao imperador nas quais expressava preocupação com o “estado abominável da escravidão”, mas por reconhecer a função tradicional dos cativos e por entender que eles contribuíam para a exportação agrícola nacional, foi interpretado por alguns historiadores como um tenaz defensor da mão de obra escrava. Os protagonistas da sua obra-prima, o romance “O Guarany” (1857), deram origem ao topônimo “Pici”. O agrimensor Antônio Braga, membro da tradicional estirpe dos Braga na Fortaleza do século XIX, leu a obra e apelidou o seu sítio com as iniciais dos protagonistas Peri e Cecy (Pe-Cy). Com o tempo, a oralidade se sobressaiu à escrita e o local passou a ser chamado de Pici.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1938-1945), os EUA instalaram bases militares em Natal e Fortaleza, de onde decolavam jatos da força aérea americana com destino à Europa. Na capital cearense, esta base, chamada de “Post Command”, foi construída num terreno desocupado. É da fonética em inglês das sílabas da sigla PC (Pi-Ci) que adviria o nome do bairro, de acordo com uma segunda versão etimológica menos aceita. Apesar de não receber o devido reconhecimento, a posição geográfica do Nordeste em relação ao velho continente favoreceu as tropas Aliadas a partir da entrada dos americanos no conflito, em 1942. De acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB) e com a Agência de Pesquisas Históricas da Força Aérea Americana, 1.778 voos partiram da base fortalezense entre dezembro de 1943 e maio de 1944[5]. Após esta data, a base funcionou alguns meses como um centro de manutenção e passou a receber apenas aviões de linha[6].

O episódio chamado de “Trampolim da Vitória” mudou sensivelmente o estilo de vida dessas duas cidades. A chegada de 10 mil soldados americanos em Natal, que até então era um município com pouco mais de 55 mil habitantes, impulsionou o comércio local. Foram construídos hotéis, armazéns e clubes de dança para recepcionar os combatentes, muitos dos quais aproveitaram a parada para namorar moças locais antes de seguir adiante na missão, deixando para trás os herdeiros da libertinagem nos tempos de tensão.

A presença dos norte-americanos em Fortaleza também é associada à vida noturna agitada, e tudo o que remete àquele período costuma ser lembrado pela velha guarda como “no tempo dos americanos”: os bailes de salão no centro, as roupas despojadas e os passeios pela orla no sábado a tarde, casamatas escondidas que se transformariam em residências e as previsões tenebrosas de quem tinha certeza que Fortaleza estava na mira dos alemães. É uma digressão típica do sertanejo que fincou raiz na cidade e viu parte do seu provincianismo resistir às edificações modernistas e às lojas importadas desde o final do século passado. No caso do Pici, em especial, a instalação da base trouxe mudanças significativas à paisagem no entorno. Antes rural e semiplano, quase todo coberto por sítios; depois se desenvolveu com a chegada de estabelecimentos comerciais. Boatos acerca de um baú enterrado pelos estrangeiros provocaram uma peregrinação ao bairro, apesar de que, passados anos de escavação, apenas algumas peças de mármore e objetos sem valor foram descobertos, o que não interrompeu o fluxo populacional. O afastamento em relação ao centro da capital, antes desejado por preservar o clima campestre, tornou-se um problema à medida que a oferta de aparelhos públicos não acompanhou o ritmo de crescimento demográfico.

Pouco antes do término da guerra, em 1944, o Post Command foi entregue à FAB, que posteriormente cedeu parte das dependências à Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e à própria UFC. Treze anos mais tarde, após a compra do terreno da Sra. Hedwig, vizinho da base desativada, o Fortaleza iniciou a construção do estádio em homenagem ao seu fundador, e em razão da escolha topográfica recebeu um complemento ao apelido já consagrado. Nascia o “Leão do Pici”, embora ainda não fosse muito temido. Na década de 90, sobre a antiga pista de pouso foi erguida a comunidade Pantanal, que se tornou uma das maiores ocupações no subúrbio de Fortaleza antes de passar pelo processo de regularização fundiária da Prefeitura, até hoje inconcluso.

A comunidade ficou conhecida em 1993 por um crime noticiado nas páginas policiais como “A Chacina do Pantanal”. Os jovens Veridiano Duarte da Silva, 15, Carlos Antônio da Silva, 16, e André de Sousa Gomes, 14, foram mortos enquanto dormiam debaixo de uma marquise por dois policiais militares à paisana. Os agentes passavam de moto pelo local e, sem aparente motivação, dispararam 20 vezes contra os três adolescentes. Recaia sobre eles a suspeita de cometerem pequenos delitos na região. Em 1997, o sargento Agenor de Castro Costa e o soldado José Luís Lima Bezerra foram condenados a 54 e 51 anos de prisão, respectivamente. Um terceiro réu no processo, Eduardo Fernando Siqueira de Nazaré, civil, foi punido com 39 anos. Os dois PMs, porém, foram absolvidos na segunda instância em 2000 – decisão à qual o Ministério Público Estadual recorreu. A ação penal tramita em segredo de justiça à espera do julgamento final na plenária do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE).

Em 2002, após quase uma década do assassinato, o juiz da 7a  Vara da Fazenda Pública, Carlos Augusto Gomes Correia, mandou reintegrar o sargento Agenor à corporação, ordem ratificada pelo então procurador-geral do Estado e atual Ministro do STJ, Raul Araújo Filho. No ano seguinte, os moradores do Pantanal convocaram um plebiscito e mudaram o nome da comunidade, no intuito de rechaçar o estigma atrelado à chacina. A alteração, todavia, não fez com que o Planalto Ayrton Senna fosse visto de outra forma dentro do próprio bairro – uma unha encravada que no imaginário de alguns vizinhos, incomodados com a modificação no relevo do Pici, sempre desejaram que ela saísse dali. Agenor de Castro concorreu nas eleições passadas ao cargo de vereador do município de Maracanaú, região metropolitana de Fortaleza. Com 894 votos, 0,73% do total, não se elegeu.

O Pici é hoje o nono maior bairro da capital. Nele estão três (Popoco, Feijão e Riacho Doce) dos 509 aglomerados subnormais da cidade, designação ampla do IBGE para habitações irregulares, entre grotas, mocambos, palafitas, baixadas e ressacas, ou na linguagem popular: as famosas favelas. Em Fortaleza, 108.963 domicílios se enquadram nesta classificação, dos quais 2.906 não são atendidos integralmente por uma rede de saneamento básico, segundo o instituto. Apenas Salvador apresenta um quadro mais vulnerável entre as grandes cidades nordestinas.


[1] Não confundir o Riachuelo Atlético Clube de Fortaleza com o seu homônimo de Natal-RN. O contexto refere-se ao primeiro, embora o potiguar tenha se tornado mais popular. O Riachuelo de Fortaleza está inativo, segundo a FCF.

[2] O Fortaleza Sporting Club foi renomeado Fortaleza Esporte Clube por decreto governamental após a Segunda Guerra Mundial (1938-45).

[3] A Federação Cearense de Futebol (FCF) reconheceu em 2008 as cinco primeiras edições (1915-19) organizadas pela Liga Metropolitana Cearense de Futebol, todas elas vencidas pelo Ceará. Sendo assim, o alvinegro é o primeiro e único pentacampeão cearense. O Fortaleza quase repetiu o feito entre 2007 e 2010, mas ficou no tetra.

[4] O Estrela do Mar, vice-campeão estadual em 1939, foi um time formado por marinheiros do cais do porto.

[5] O período compreende a inauguração da pista adjacente à base, chamada de “Cocorote” – para os americanos, Coco Route, ou Rota do Cocó, local onde hoje está o aeroporto de Fortaleza  – e o registro da última travessia. Em 1973, a Infraero assumiu o local onde foi construído o Aeroporto Internacional Pinto Martins. 

[6] Outro fato interessante sobre a Fortaleza do pós-guerra foi a homenagem que os moradores do bairro Montese prestaram em 1951 aos soldados cearenses que derrotaram  os alemães na cidade homônima na Itália.