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A sagração dos “reis do futebol”

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Já nos acostumamos a aclamar o Brasil como “país do futebol”, fruto de uma Era de Ouro, iniciada em 1958, com a conquista da Copa do Mundo na Suécia, e consumada doze anos depois, nos gramados do México, com o arrebatador tricampeonato de 1970.

Tornou-se hábito também, junto a essa aclamação, basearmo-nos nas crônicas de Nelson Rodrigues e Mário Filho, para ilustrar as narrativas saborosas sobre os feitos de Pelé, Garrincha e Didi nos palcos esportivos internacionais.

A associação entre brasilidade esportiva e identidade nacional é tão arraigada que perdemos de vista como e quando tudo isso começou. Mas, se não é possível precisar um marco zero nem afirmar categoricamente uma data ou um acontecimento, o recuo no tempo costuma ajudar a revelar informações insuspeitadas sobre esses primórdios.

Nos limites pontuais deste texto, quero chamar a atenção para o fato de que, diferente de sua cristalização na “memória nacional”, o reconhecimento internacional do futebol brasileiro principiou bem antes das vitórias dos anos 1950, 1960 e 1970.

Jogadores da Seleção Brasileira comemoram o primeiro título mundial na Suécia. Foto: Scanpix.

Tal reconhecimento igualmente não pode ser atribuído apenas à Seleção, posto que a circulação de clubes brasileiros na primeira metade do século XX também teve, como procuraremos ilustrar aqui, um papel de destaque nessa difusão, graças às suas excursões ao exterior, sobretudo à Europa, a partir da década de 1920.

Em adição, quer-se sugerir a seguir que, tanto quanto uma autoimagem atribuída pelos próprios brasileiros, a construção do aclamado estilo nacional de jogo também foi uma pauta dos jornalistas esportivos estrangeiros, em particular da imprensa francesa dos anos 1920 e 1930.

Propõe-se assim que a suposta singularidade do “jeito de jogar” do atleta brasileiro foi construída numa via de mão dupla: de dentro para fora, mas também de fora para dentro. E é este segundo movimento que, às vezes, acabamos por desconsiderar.

Para desenvolver esse ponto, lançaremos mão de uma fonte que é uma preciosidade bibliográfica: o livro Os reis do futebol (1945), escrito pelo ex-jogador Araken Patusca. Nele, narra-se a saga da primeira excursão de um clube brasileiro à Europa, ocorrida vinte anos antes do lançamento da obra, em 1925.

O jogador do Club Atlético Paulistano1, estudante do Colégio Mackenzie, então com dezoito anos de idade, participara da excursão e reconstitui em detalhes, no livro, a recepção entusiástica aos brasileiros no continente europeu, com a criação da legenda pela imprensa francesa: les rois du football.
À viagem, pois.

A viagem

A decisão de excursionar à Europa fora uma iniciativa do presidente do Paulistano, o afortunado Antônio da Silva Prado Filho (1880-1955), descendente de barões do café do Oeste paulista, que viria a ser ainda prefeito do Distrito Federal, durante a presidência de Washington Luís.

O clube alvirrubro era um dos mais distintos da elite de São Paulo da época. Situava-se, como se situa até hoje, no Jardim América, bairro nobre da zona oeste da cidade. Sua equipe de futebol foi, ademais, uma das principais do período amador, tetracampeã em 1916, 1917, 1918 e 1919. Com a popularização e a adoção do profissionalismo, o clube, bastião do etos amador, decidiu encerrar a modalidade futebolística na década de 1930.

Depois de muito acalentar a ideia, Prado Filho organizou a viagem do Paulistano ao continente europeu no início do ano de 1925. Como se encontrava na França, em meio a negociações com a Federação Francesa de Futebol, tratou dos arranjos da tournée por meio de telegramas enviados diretamente de Paris.

O Paulistano na Europa (reprodução do livro Os reis do futebol- Disponível no blog Histórias do Futebol).

Oito países candidataram-se para receber e enfrentar os brasileiros, mas apenas três foram selecionados: França, Suíça e Portugal. A jornada, incluindo a longa travessia marítima, durou cerca de três meses. Durante quarenta e três dias, o Paulistano fez um total de dez partidas. Destas, os brasileiros venceram nove vezes, com apenas uma derrota, pelo placar mínimo de um a zero.

Mais do que um grupo de jovens atletas, a comitiva do clube recebia a alcunha de “embaixada”, pois era composta por vinte e seis integrantes, além dos onze que estariam em campo.

A delegação era formada por representantes da imprensa, da indústria, do comércio e do funcionalismo público paulistano. Antes do embarque, uma companhia cinematográfica registrou cenas das dependências do clube e dos treinamentos dos atletas, para exibição nos países europeus, o que revela a preocupação com a difusão das imagens.

Assim, no dia dez de fevereiro de 1925, a delegação do clube partiu de trem da Estação da Luz. Apinhada de familiares e repórteres para a despedida, a comitiva seguiu para o porto de Santos, onde foram recebidos festivamente.

Os primeiros dias da viagem do Paulistano na Europa (reprodução do livro Os reis do futebol- Disponível no blog Histórias do Futebol).

Segundo os jornais da época, uma multidão de fãs assistiu ao embarque no navio Zeelândia, do Lloyd Real Holandês, para uma longa jornada de quase três semanas a bordo, com destino a Cherburgo, zona portuária no canal da Mancha. Da Normandia, a primeiro de março, tomaram o trem rumo à Gard du Nord, em Paris.

A recepção não poderia ser mais solene, com um banquete oferecido por Souza Dantas, embaixador brasileiro em Paris, contando com a presença do príncipe de Orleans e Bragança, filho do Imperador D. Pedro II. Após passeios na “Cidade da Luz” – Montmatre, Place de la Concorde, Jardin des Tuileries – e depois de treinos preparativos na floresta de Saint Cloud, os rapazes do Paulistano disputam a primeira partida no dia 15 de março.

Na equipe principal, figuram Friedenreich, Patuska, Nestor, Filó, Bartô, Mário Andrade, Nondas, J. Seabra e outros “ases”, alguns deles campeões sul-americanos de 1919 e 1922. O primeiro resultado não poderia ser mais convincente: 7 a 2 contra o selecionado francês (ver vídeo ao final do texto).

Uma semana depois, a 22 de março, o Paulistano volta aos gramados de Paris, para um jogo contra o clube Stade Français. Nova vitória do time brasileiro, pela contagem de 3 a 1. Mais uma semana se passa e os paulistanos deixam a capital francesa, a caminho de Sète, no sul da França, conhecida como a “Veneza do Languedoc”.

Junqueira e Friedenreich avançam para o ataque no jogo contra o Stade Français. Foto: Acervo do CA Paulistano (Disponível no blog Museu Virtual do Futebol).

Após a única derrota da excursão, em 29 de março, viajam para Bordeaux, onde vencem por quatro a zero o Bastidiene, a 2 de abril. O tour continua e no Havre o Paulistano obtém a quarta vitória na França, frente à seleção da cidade, três dias depois.

Em Estrasburgo, cidade meio-alemã, meio-francesa, jogam contra o selecionado alsaciano e emplacam 2 a 1, no dia 10 daquele mês.

Lance do jogo Paulistano x Selecionado Alsaciano. Foto: Acervo do CA Paulistano (Disponível no blog Museu Virtual do Futebol).

A equipe parte para a Suíça, onde é recebida pelo ministro Raul do Rio Branco. Em Berna, o Paulistano vence por 2 a 0. A 13 de abril, volta aos gramados helvéticos e derrota a seleção da Suíça – vice-campeã olímpica de 1924 – em Zurique, pelo placar mínimo.

A delegação do Paulistano retorna à Normandia, para jogar em Rouen e supera a equipe local em 19 de abril. Dali, volta a Cherburgo e toma o vapor para Portugal. A bordo do paquete Flândria, atravessa o golfo de Biscaia e, antes de retornar ao Brasil, aporta em Lisboa.

Na capital portuguesa, o Paulistano faz sua última partida na vitoriosa excursão, vencendo a seleção lisboeta, formada pelo Belenenses, pelo Pia e pelo Vitória, já em fins do mês de abril. Chegam ao Brasil em maio, sendo ovacionados e recepcionados efusivamente em diversos portos do país.

O livro

A publicação de Os reis do futebol ocorreu em 1945, vinte anos depois, portanto, da viagem à Europa. Ao que tudo indica, o livro foi um modo de comemorar a efeméride e, ao mesmo tempo, uma maneira de fixar para a posteridade o pioneirismo daqueles jovens atletas amadores.

Em meados dos anos 1940, o contexto do futebol era bem outro. Ele já constituía uma prática profissional consolidada e uma realidade bastante diversa daquela do amadorismo do decênio de 1920. Além disto, o advento da Segunda Guerra mundial interrompera as excursões brasileiras à Europa, devastada pelo genocídio, pela intolerância racial e pela destruição de suas cidades.

Araken Patusca (1905-1990) deixara os gramados em 1939, vestindo a camisa do São Paulo Futebol Clube, depois de participar da Copa do Mundo de 1930, no Uruguai. A edição, de 1945, voltaria a ser publicada mais duas vezes, sendo a terceira em 1976. Vejam-se as capas de duas das edições sobreviventes, com o subtítulo em francês:

 

A obra, com duzentas páginas e ilustrações fotográficas, é mais um documento que um relato memorialístico. A conservação dos jornais da época permitiu ao futebolista-escritor reproduzir a viagem com base nos arquivos deixados pelos membros da delegação, em particular os cronistas esportivos que cobriam o raid.

Assim, além dos jogos propriamente ditos, são descritos todos os passos da longa travessia, desde os dias no navio, que alternava momentos animados com situações de tédio, calor e cansaço, até a visita aos pontos turísticos das cidades e das paisagens francesas, suíças e lusitanas.

A narrativa assemelha-se à de um diário de bordo, com a descrição cronológica e objetiva de tudo o que se passou ao longo de cada dia. A estrutura procura ser fiel aos fatos, com a linguagem típica de então, que poderíamos denominar parnasiana: empolada, rebarbativa e, ao mesmo tempo, austera.

O texto, no entanto, não deixa de flagrar as situações prosaicas do cotidiano e a descontração dos jogadores-viajantes, que se distraem com pôquer e xadrez, além de improvisarem uma orquestra a bordo para tocar valsa, chorinho e maxixe – “a música brasileira por excelência”.

Eis um gráfico do livro, ilustrativo do périplo completo feito pelo time do Paulistano na Europa:

 

A sagração

Um dos aspectos que mais chama a atenção no livro, estampado no mote do próprio título, é o entusiasmo da imprensa francesa para com os jogadores brasileiros. Àquela altura, outras equipes sul-americanas já eram conhecidas na Europa, a exemplo do Nacional do Uruguai e do Boca Junior, da Argentina.

Leve-se em consideração ainda que em 1924 os Jogos Olímpicos tinham sido realizados em Paris e que os uruguaios tinham conquistado a medalha de ouro no futebol. Surpreende assim a forma entusiástica pela qual os periódicos da França se referem ao Brasil, definindo-os como os “reis do futebol”.

Equipe do Uruguai no Jogos Olímpicos Paris de 1924. Foto: Gaelzer – UFRGS.

As citações são fartas e frequentes por parte de um sem-número de jornais, dentre eles: Paris Soir, Figaro, L’Echo de Paris, Le Journal, Le Petit Parisien, Le Matin, L’Auto, Le Soir, Le Miroir des Sports, Sporting, Excelsior e até o The New York Herald.

O Paris Soir, por exemplo, diz:

“Esses brasileiros são ingênuos ou trocistas. Começaram oferecendo uma palma de flores com as cores de seu País e depois fizeram uma espécie de feitiçaria, para no fim nos dar uma sova com todas as regras da arte. Sendo individualmente fintadores notáveis, os brasileiros não esquecem que trabalham para a turma. E assim, passam e recebem a bola com toda a velocidade, praticando, em suma, esse famoso jogo latino, que devia ser o nosso se tivéssemos tanta técnica como os visitantes. (…) Com qualidades diferentes, os brasileiros foram, para nós, adversários igualmente terríveis e isto graças a sua rapidez, precisão e principalmente personalidade.”

Segundo o jogador-escritor:

“A impressão deixada nos centros esportivos da França, pelo esplêndido triunfo do Paulistano sobre o selecionado francês, foi dos mais lisonjeiros para os nossos foros esportivos. Os jornais da Capital francesa comentam a atuação dos rapazes do Clube Atlético Paulistano de forma a não restar dúvida de que ela foi realmente deslumbrante. As colunas desses periódicos refletem, pois, o fulgor da vitória brasileira, que bem alto falou do nosso valor esportivo”.

A virtuosidade do jogador brasileiro é um dos pontos mais enfatizados pelos cronistas franceses. Do arqueiro ao centroavante, jogava-se então num ofensivo 2-3-5, todos os atletas são perfilados de acordo com suas habilidades e atribuições específicas.

Foto da equipe completa na frente do gol. Em pé: Orlando Pereira – Miguel Leite – Amphilóquio Guarisi Marques (Filó) – Sérgio Pereira – Antonio Carlos Seixas – Arthur Friedenreich (El Tigre) – Araken Patusca – Mário de Andrada e Silva – Ernesto Pujol Filho (Netinho) – Mário Cardim e Fernão de Moraes Salles. Agachados: Juan Mestres Alijostes – Caetano Caldeira – Luís Lopes de Andrade (Guarany) – Clodoaldo Caldeira – Francisco Abate – Epaminonas Motta – Maurício Villela – Bartholomeu Vicente Gugani (Barthô). À frente: Júlio Kuntz Filho e Nestor de Almeida. Estão ausentes os jogadores Durval Junqueira Machado e José Joaquim Seabra Neto, ambos do Rio de Janeiro. Foto: Acervo do CA Paulistano (Disponível no blog Museu Virtual do Futebol).

A dupla de ataque, Friedenreich e Patuscas, é alvo dos maiores elogios. Se o primeiro já era conhecido entre os jornalistas platinos de “El Tigre”, o segundo, autor do livro, receberá o apelido da imprensa parisiense de “o Perigo”.

Conforme recorda um jornalista local:

“Os anos não tiveram a força precisa para riscar de minha memória o jogo endemoninhado posto em prova por dois homens da vanguarda desse esquadrão. ‘El Tigre’ e ‘Le Danger’. Um e outro se completavam. O primeiro magro, esguio, fino, parecendo apenas um mascote, era o cérebro e o coração do quadro. De sua energia, de suas jogadas, de sua ação sempre rápida, fulminante, hábil, desconcertante, partiam as avançadas e as cargas perigosas do Paulistano. O próprio adversário parava para apreciar aquele mignon jogador fazendo o que entendia dos grandes players que havíamos colocado em campo. O outro era bem um perigo permanente. Atirava à meta com qualquer dos pés e os seus arremessos pareciam conter dinamite. Tão jovem como o guardião, mas não menos extraordinário. Cada figura que se analisava permitia ao observador escrever colunas e mais colunas sobre o valor desse quadro”.

Assim, sem “riscar da memória” todo esse encanto perante a equipe paulistana, pode-se dizer que estavam lançadas as bases para a fama internacional do talento e da técnica do futebolista brasileiro.

À sagração dos “reis do futebol” no ano de 1925, corresponderia, treze anos depois, a sua consagração. Na Copa da França de 1938, os franceses não tinham se esquecido dos malabaristas da bola. Afinal: “Les brésiliens sont pétits, mais de pétits géants”.

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[1] Agradeço especialmente ao meu orientando de doutorado, Renato Lanna, pelo acesso a um exemplar desse livro.