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A Seleção Brasileira de 1970 e os “anos de chumbo” em relatos memorialísticos de três jogadores

Luiza Reis Ferraz, Elcio Loureiro Cornelsen

Introdução – Futebol e Memória no Brasil

Difundido no Brasil nas décadas finais do século XIX, por pioneiros como Charles Miller e Oscar Alfredo Cox, o futebol se tornou um dos maiores fenômenos culturais do país. Muito além de um esporte, o futebol traz consigo, ao longo da história, debates que envolvem política, racismo e sociedade em geral, tornando-se, assim, um refúgio para a grande massa de brasileiros, devido a sua capacidade de representação simbólica da sociedade. Com isso, verifica-se que o futebol tem um papel fundamental na construção da identidade cultural do Brasil e da população brasileira.

Vale a pena salientar que, no Brasil, o esporte adquiriu progressivamente características específicas, diferenciando-se do futebol praticado em seu país de origem, a Inglaterra, e em outras partes do mundo. Essas diferenciações ocorreram como forma de adaptação do esporte bretão à cultura local, que, com o tempo, passaram a ser admiradas pelo resto do mundo, fazendo com que o Brasil passasse a ser reconhecido como “país do futebol” ou, como denomina Nelson Rodrigues, “pátria em chuteiras” (RODRIGUES, 1994, p. 179). Levando-se em consideração a popularidade que o esporte conquistou no Brasil ao longo do século XX, verifica-se que diversas manifestações culturais e artísticas buscam representar a importância e o impacto do futebol na sociedade brasileira, entre elas, a literatura, as artes plásticas, a música e o cinema.

Com a finalidade de analisar e descrever a relação estabelecida entre a construção da memória cultural brasileira e o futebol, fez-se necessário tomar como abordagem o estudo de relatos biográficos e autobiográficos de jogadores que alcançaram posições de destaque em conquistas marcantes da Seleção Brasileira, como o Tricampeonato de 1970, que ocorreu em meio ao período da ditadura militar, mais especificamente, nos chamados “anos de chumbo”. Para fundamentação da análise deste estudo, foram utilizados como base teórica os livros O pacto autobiográfico (2008), de Philippe Lejeune, e, respectivamente, O desafio biográfico: escrever uma vida (2009), de François Dosse.

Tendo isso em vista, este breve estudo tem por objetivo contribuir para o debate sobre o uso político do futebol enquanto manifestação esportiva popular no Brasil e evidenciar a colaboração de obras de caráter memorialístico para a formação da identidade cultural brasileira. Posto isso, o corpus de análise se constitui das obras Lembranças, opiniões, reflexões sobre futebol (1997), de Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, Pelé: a autobiografia (2006), de Edson Arantes do Nascimento, e Rivellino (2015), de Maurício Noriega. Além dessas obras, para o desenvolvimento da pesquisa e fundamentação teórica foram necessárias leituras complementares de obras que retratam a história e a caracterização do futebol brasileiro enquanto fenômeno cultural, assim como obras que abordam o contexto ditatorial e os “anos de chumbo”.

Escritas da vida de jogadores e Memória brasileira: biografia e autobiografia

Sendo o futebol um esporte que alçou uma importância cultural imensurável no Brasil, surgiu a necessidade de registrar os acontecimentos históricos relacionados a ele e de cultivar sua memória. Sendo assim, um dos meios encontrados por historiadores, escritores e jornalistas para registrar esses fatos e construir imagens memorialísticas foi a produção de escritas da vida de jogadores que vivenciaram momentos marcantes do futebol brasileiro, por meio de (auto)biografias.

Segundo o teórico francês François Dosse (2009, p.11), “a biografia pode ser um elemento privilegiado na reconstituição de uma época, com seus sonhos e angústias”. Posto isso, nota-se que esse gênero permite ao leitor projetar uma determinada época a partir das vivências do biografado. Com isso, estabelece-se a relação profícua entre história, memória e literatura. Desse modo, François Dosse (2009, p.13) também pontua que “[a] biografia dá ao leitor a ilusão de um acesso direto ao passado, possibilitando-lhe, por isso mesmo, comparar sua própria finitude à da personagem biografada”. A biografia busca, de certa forma, reconstruir a imagem de um “herói”, focalizando-o, pelo ponto de vista do biógrafo, em um período específico de glória, o que aproxima esse gênero textual e literário do gênero romanesco. Sendo assim, em relação à construção discursiva, o biógrafo busca preencher as lacunas documentais em relação ao biografado com recursos ficcionais, oscilando entre a ficção e a realidade, sendo mecanismo inevitável para tentar retratar de forma aproximada a complexidade da vida “real”:

Gênero híbrido, a biografia se situa em tensão constante entre a vontade de reproduzir um vivido real passado, segundo as regras da mimesis, e o pólo imaginativo do biógrafo, que deve refazer um universo perdido segundo sua intuição e talento criador. (DOSSE, 2009, p. 55)

No que se refere ao gênero autobiográfico, a narrativa se constrói a partir de uma unidade trina entre autor, narrador e personagem. O teórico francês Philipe Lejeune (2008) define a autobiografia como “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade” (LEJEUNE, 2008, p. 14). É importante salientar que a autobiografia, assim como a biografia, busca construir uma narrativa em torno de um herói, aproximando-se do gênero romanesco. Todavia, embora próximos, os gêneros não apresentam as mesmas características pontuadas por Lejeune (2008) para descrever o gênero biográfico, principalmente no que diz respeito à narração em primeira pessoa:

1 – Forma da linguagem: a) narrativa; b) em prosa; 2 – Assunto tratado: vida individual, história de uma personalidade. – 3 – Situação do autor: identidade do autor (cujo nome remete a uma pessoa real) e do narrador; 4 – Posição do narrado: a) identidade do narrador e do personagem principal; b) perspectiva retrospectiva da narrativa. (LEJEUNE, 2008, p. 14)

Além disso, a teórica argentina Leonor Arfuch (2008) salienta a multiplicidade de vozes presente na construção narrativa do gênero autobiográfico, compondo-se subjetivamente entre o eu narrador e o eu narrado. Portanto, devido à diferença temporal, pode-se estabelecer que o autor equivalha ao narrador, mas que se diferencie em alguns aspectos do personagem narrado:

O eu lírico, o testemunhal, o fictício, a multiplicação das máscaras que dão um rosto a um vazio – a famosa analogia entre autobiografia e prosopopéia – desdobram assim sua potencialidade semiótica e semântica (ARFUCH, 2008, p. 116).

Tendo em vista as especificidades apresentadas, verifica-se que tanto o gênero biográfico, quanto o autobiográfico apresentam desafios para o autor, no que diz respeito à composição dos fatos, sendo necessário, portanto, recorrer ao ficcional, tornando ambos os gêneros híbridos. Também é importante salientar que, apesar disso, os gêneros literários biográficos e autobiográficos têm fundamental importância na reconstrução de uma determinada realidade histórica, pois contribuem para a preservação da memória de uma dada época.

Seleção Brasileira de 1970. Fonte: CBF

A conquista do Tricampeonato de 1970 e seu significado histórico

O período que se estabeleceu entre 1964 e 1985 – com duração de 21 anos – foi uma fase de maior controvérsia no cenário político do Brasil, com a instauração de um regime autoritário instituído por um golpe civil-militar em 1964, devido, principalmente, à censura ao meio jornalístico, científico, artístico e cultural, e às graves denúncias de prisão e tortura de dissidentes políticos contrários ao governo da época. Dentro desse quadro, alguns anos ganharam maior notoriedade por serem considerados o período mais repressivo da ditadura, os assim chamados “anos de chumbo”.                

A expressão “anos de chumbo” é utilizada em diversos países para designar os anos 1970. Já no Brasil, ela é usada para designar um período da ditadura em específico, cujos marcos temporais são a promulgação do Ato Institucional número cinco (AI-5) e o final do governo Médici (1968-1974). Como bem aponta Matheus Marinho em sua Monografia intitulada Futebol e memória nos anos de chumbo: literatura, imprensa e relatos de vida de jogadores da Seleção Brasileira de 1969-1970,

[…] as relações entre o regime militar e a “época de ouro” da Seleção Brasileira, por ocasião da conquista do tri-campeonato mundial de futebol, em 1970, no México, passaram a ser explícitas, justamente no período de maior recrudescimento do autoritarismo dentro do período de exceção. (MARINHO, 2020, p. 10)

Isso se deveu ao fato de que, com a notoriedade e popularidade que o futebol alcançou no Brasil, atingindo as mais variadas camadas sociais, diversos governos empenharam-se em se associar à imagem da Seleção Brasileira de futebol. Contudo, durante a ditadura militar essa relação se tornou ainda mais explícita, principalmente, por ser uma expressão cultural e popular associada ao caráter nacional, que exprimia diretamente os ideais do governo militar:

Ao acionar a memória social desse período, percebe-se que foi construída uma sólida relação entre as características nacionais, políticas e futebolísticas. As distorções e deformações da memória social também estão presentes nas análises e reinterpretações que alguns estudos acadêmicos produzem sobre o período. (SALVADOR; SOARES, 2009, p. 67)

Ainda é possível constatar, também, que outro fator foi de extrema relevância para a associação do futebol ao governo da época: o presidente Médici acompanhava constantemente as partidas de futebol e demonstrava muito apreço pela Seleção Brasileira, sendo um dos únicos presidentes que realmente apreciava o futebol como esporte e lazer. Azevedo (2002) aponta para a criação de um órgão de divulgação de projeto político, denominado de Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), do governo Médici, que tinha por objetivo promover campanhas nacionais do governo, tendo o futebol como tema principal. De acordo com Cornelsen & Marinho (2020a), “[o] gosto de Médici pelo futebol e sua frequente aparição nos estádios brasileiros facilitou o trabalho da AERP”. Desse modo, jogadores que tinham destaque no campo, também se destacavam nas campanhas políticas, entre eles, Pelé, que é apontado como um dos “garotos propaganda” (CASTRO, 2014) do governo militar. Entretanto, a relação entre futebol e regime militar era muito mais profunda e, portanto, ultrapassava o âmbito da propaganda política, conforme apontam Salvador & Soares:

O período militar no Brasil (1964-1984) e as suas influências em relação à construção da identidade do futebol com o sentimento de brasilidade são considerados como parte do contexto político, na medida em que houve um projeto especifico para o futebol e, consequentemente, um avanço no uso de conhecimentos construídos no seio das instituições militares. (SALVADOR; SOARES, 2009, p. 72)

Com isso, verifica-se que a imprensa, juntamente com o futebol, desempenhou papel fundamental na construção da imagem que o governo buscava transmitir de si mesmo: nacionalista, popular e próspero. Entretanto, foi exatamente nesse período que as denúncias de tortura nos porões da ditadura se intensificaram. O jornalista e escritor Elio Gaspari (2002, p. 162) aponta que, entre os anos de 1964 e 1968, as denúncias de torturas apresentadas por presos políticos às cortes militares somaram 308, enquanto que, no ano de 1969, os casos de denúncia chegaram a 1.027, atingindo o ápice em 1970 – ano do Tricampeonato – com 1.206 casos.

Tendo isso em vista, para o governo Médici, não haveria momento melhor para investir ainda mais na imagem da Seleção Brasileira. Desse modo, o governo não mediu esforços para possibilitar que aquela seleção reunisse qualidades técnicas e táticas para se tornar a campeã da Copa do Mundo de 1970, que ocorreria no México. Assim sendo, houve participação direta de militares oriundos da Escola Superior de Educação Física do Exército (EsEFEx) no preparo físico dos jogadores, ao fazerem parte da comissão técnica. Além disso, foram desenvolvidos diversos estudos no âmbito esportivo, para o melhor desempenho físico dos jogadores. Salvador & Soares (2009, p. 71) pontuam que “os professores de educação física que atuavam como preparadores físicos, tanto das universidades quanto os oriundos das EsEFEx, foram essenciais nessa entrada da ‘ciência’ no espaço sagrado do futebol”. De acordo com Marinho (2020),

[…] Admildo Chirol, Cláudio Coutinho, Carlos Alberto Parreira, todos militares vinculados a EsEFEx (Escola de Educação Física do Exército), compuseram a renovação no comando, junto com Zagallo. O brigadeiro Jerônimo Bastos, chefe da delegação, e o major Ipiranga dos Guaranys, responsável pela segurança, selavam o “time de militares” vinculados à delegação brasileira. (MARINHO, 2020, p. 30)

Em vista disso, quando chegou a Copa de 1970, a seleção estava muito bem preparada técnica e emocionalmente. Para além da evidente “militarização” dos treinamentos e da utilização da ciência para o aprimoramento técnico, a seleção de 1970 também se destacou pelo “futebol arte”, evidenciando o “modo brasileiro” de jogar. Além disso, o Brasil se consolidou, discursivamente, como “país do futebol”. Com isso, a seleção de 1970 passou a ser considerada, para muitos, a melhor de todos os tempos.

Além desses fatores, a Copa de 1970 foi a primeira a ser transmitida ao vivo pela televisão brasileira. Esse feito consolidou a união nacional que o governo tanto buscava e intensificou a euforia do público brasileiro pela conquista do Tricampeonato. Com isso, Médici se valeu de todos os artifícios que a vitória em campo proporcionou, para que também significasse uma vitória do país enquanto nação, como aponta o jornalista Marcos Guterman (2009):

A conquista da Copa vitaminou o regime para a eleição direta de 1970, que renovaria o congresso e serviria, nos cálculos de Médici, para demonstrar o apoio popular à ditadura e para dizer aos críticos que o país vivia em clima de liberdade. (GUTERMAN, 2009, p. 184)

Tostão e Pelé. Fonte: CBF

A escrita da vida de jogadores em meio à campanha do Tri e aos “anos de chumbo”: Pelé, Tostão e Rivellino

Durante a Copa de 1970, no México, alguns jogadores assumiram papel de destaque e permaneceram na memória de grande parte dos brasileiros, entre eles Pelé, Tostão e Rivellino. Tal fato fez com que esses jogadores se tornassem os principais alvos de interesse de escritores, jornalistas e historiadores. Assim, foram realizados diversos filmes e documentários, além de entrevistas e escritas biográficas retratando, principalmente, a conquista do Tricampeonato. Dois deles, Pelé e Tostão, também investiram em suas autobiografias, sendo que a obra Pelé: a autobiografia, na verdade, não pode ser considerada uma autobiografia stricto sensu, uma vez que o jogador contou com o apoio dos jornalistas Orlando Duarte e, respectivamente, Alex Bellos na função de redatores do livro, publicado primeiramente em língua inglesa sob o título de My Autobiography (2006) (CORNELSEN, 2020, p. 135).

É de conhecimento geral que Pelé se consagrou como um dos melhores jogadores da história do futebol, sendo reconhecido, ainda hoje, como “rei do futebol”. Edson Arantes do Nascimento (Pelé) nasceu na cidade de Três Corações em Minas Gerais, porém, cresceu em um bairro pobre na cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Pelé iniciou sua carreira profissional no Santos Futebol Clube, tornando-se ídolo da torcida. Dez meses depois de ter chegado ao clube praiano, em 1957, foi convocado pela primeira vez para atuar na Seleção Brasileira. Tinha início, ali, uma carreira de glórias envergando a camisa canarinho, que o habilitaria como grande astro do futebol mundial, atingindo o ápice, justamente, no Mundial do México.

No Brasil, a autobiografia de Pelé foi publicada no ano de 2006 pela editora Sextante. Na obra, o jogador descreve momentos marcantes de sua vida pessoal e de sua carreira como jogador de futebol, entre eles, o nascimento do primeiro filho, o alcance da marca dos 1.000 gols e a conquista mais importante de sua carreira: o Tricampeonato de 1970.

Em seus relatos sobre a Copa de 1970, Pelé deixa claro que sempre acreditou no potencial daquela seleção e nos fatores que a tornavam a melhor seleção que já existiu. Entre esses fatores, o jogador destaca a cumplicidade que existia entre os companheiros de seleção: “Tínhamos passado cerca de um ano e meio jogando juntos e nos entendíamos perfeitamente. Acho que foi nossa maior vantagem, aquilo que fez da equipe de 1970 a melhor seleção que já existiu” (NASCIMENTO, 2006, p. 176). Além disso, em seu relato autobiográfico, Pelé reconhece a importância dos avanços científicos e dos aparatos tecnológicos que ajudaram a melhorar o desempenho técnico dos jogadores:

A preparação foi muito profissional. Zagallo trouxe uma equipe técnica formada por pessoas como Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira (que depois, como se sabe, se tornaria ele próprio o treinador e venceria a Copa do Mundo de 1994). […] Fomos beneficiados por alguns avanços tecnológicos. Os uniformes da equipe foram redesenhados para impedir o acúmulo de suor no colarinho, e o de cada jogador foi feito sob medida. O suporte científico era o melhor possível – tão sofisticado, na verdade, na sua análise detalhada da fisiologia dos jogadores, que caçoavam de nós em alguns lugares, provavelmente porque levávamos as coisas a sério demais. […] (NASCIMENTO, 2006, p. 176-177)

Interessante notar que, na citação acima, há menção entre parênteses de que, mais tarde, Parreira faria história no comando da Seleção Brasileira, como técnico vencedor da Copa de 1994, mas não há menção de que Cláudio Coutinho também atuara como técnico da seleção na Copa da Argentina em 1978, comandando aquela equipe que seria apontada como “campeã moral” do torneio, uma vez que conquistara de maneira invicta o 3º lugar na competição, diferindo da campeã, a seleção argentina, que havia sofrido uma derrota.

Em relação à ditadura militar, Pelé sempre demonstrou simpatia pelo regime e pelo presidente Médici. Nos trechos de Pelé: a autobiografia em que há relatos sobre as participações e interações com o governo, é possível perceber, por parte do jogador, um sentimento de nostalgia e apreço:

Na ocasião circularam comentários críticos sobre a ditadura estar usando o futebol em seu próprio benefício. Como jogador, não senti nenhuma pressão política por parte do governo, embora alguns integrantes da comissão técnica fossem militares, como o capitão reformado do Exército Cláudio Coutinho. A certa altura de nossa preparação, ele havia dito que era importante vencermos porque isso acalmaria o povo. (NASCIMENTO, 2006, p. 192)

Diferentemente de Pelé, o jogador Tostão (Eduardo Gonçalves de Andrade), em sua autobiografia publicada em 2016, intitulada Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar sobre o futebol, não demonstrou satisfação ao relembrar os momentos vividos com o presidente Médici. O jogador reconhece, na obra, o uso político do futebol na época, porém, relata que era muito jovem para se preocupar com isso, conforme citado por Cornelsen & Marinho (2020) no artigo “A Copa de 1970 e seu uso político”:

“Alguns extremistas criticam os jogadores por não terem se rebelado contra a ditadura, como se fôssemos ativistas políticos e tivéssemos que abandonar a Seleção. Éramos todos jovens, sonhadores, ambiciosos, compromissados com a nossa carreira e loucos para ser campeões do mundo. Nada mais humano” (TOSTÃO, 2016, p. 50 apud CORNELSEN; MARINHO, 2020a)

Em relação à conquista da Copa de 1970, em sua primeira autobiografia de 1997, intitulada Lembranças, opiniões, reflexões sobre futebol, que compõe o corpus do presente estudo, Tostão, por meio dos relatos, demonstra que, naquela época, estava tranquilo em relação à vitória da seleção. Tostão descreve que, às vésperas da final, “estava pronto, confiante, com aquela certeza mística de que seríamos campeões do mundo” (TOSTÃO, 1997, p. 70). Ao todo, o jogador dedica quatro capítulos à memória da Copa de 1970 e à campanha do Tricampeonato: “O sonho se torna realidade – Copa de 1970 (I): Tchecoslováquia, Inglaterra e Romênia”; “O sonho se torna realidade – Copa de 1970 (II): Peru e Uruguai”; “O sonho se torna realidade – Copa de 1970 (III): Véspera da final”; “O sonho se torna realidade – Copa de 1970 (IV): A final – A festa” (TOSTÃO, 1997, p. 65-72).

Um traço característico da narrativa de Tostão é a oscilação entre um “nós” coletivo, refletindo o sentido de coletividade da equipe, e um “eu”, que vivencia determinados momentos dentro e fora de campo. Logo no parágrafo inicial do capítulo 18, essa construção narrativa se evidencia:

Estreamos contra á Tchecoslováquia, tomamos o primeiro gol, mas viramos o jogo, com uma bela atuação, e ganhamos de 4 x 1. Tive uma atuação discreta, pois estava sem muita confiança, tenso, e ficava em uma posição ingrata, no meio dos zagueiros, servindo de tabela para os craques que vinham de trás. Era o único jogador fixo na frente, pois Pelé e Jair recuavam para fechar o meio campo e dali sair para o ataque. (TOSTÃO, 1997, p. 65)

Além disso, seu relato se compõe também de camadas de temporalidades, como atesta a seguinte passagem sobre o gol da seleção na partida contra a Inglaterra, lance no qual Tostão teve uma participação fundamental: “Como fiz a jogada? Não sei. Fiz. As grandes jogadas não são elaboradas, acontecem. Vendo o teipe após o jogo, e o lance em detalhes, junto com todos, senti naquele momento que era definitivamente o titular.” (TOSTÃO, 1997, p. 66)

Outro aspecto importante no relato autobiográfico de Tostão é a digressão que entretece a narrativa. Em uma passagem emblemática, o jogador narra sobre a tensão da véspera da partida final da Copa, que seria disputada contra a forte seleção italiana:

O sonho de ser campeão do mundo era quase real, mas era evidente que a ansiedade aumentara, e todos procuravam disfarçar o nervosismo. Não acreditem quando o jogador diz que está tudo calmo, que dormiu bem antes de uma grande decisão. Claro que um é diferente do outro. Dizem que Garrincha não sabia com quem ia jogar na Copa do Mundo, mas aí tem um pouco de folclore, e ele também é exceção. É uma ansiedade controlada, responsável e benéfica até certo ponto, pois existe uma maior produção de hormônios, neurotransmissores, e com isso melhora a concentração mental, o entusiasmo, os músculos ficam mais ativos e tudo ajuda o atleta. Acima de certo nível, o cérebro perde o controle do corpo, e o jogador começa a errar os passes, chutar errado etc. (TOSTÃO, 1997, p. 69)

E, segundo Tostão, foi nesse clima que a seleção se preparou para enfrentar a Squadra Azzurra. O jogador ressalta que o trabalho da comissão técnica foi fundamental para a preparação: “Esses detalhes, informações dadas pelo então jovem e brilhante auxiliar da preparação física, Parreira, mostram o quanto são importantes a parte tática e o estudo das características dos adversários” (TOSTÃO, 1997, p. 70). Cabe ressaltar que, aliás, como bem apontam Cornelsen & Marinho (2020b) no artigo “Quando a preparação faz a diferença: o ‘Planejamento México’ e a Seleção Brasileira de 1970”:

No início de fevereiro de 1970, ainda sob o comando do técnico João Saldanha, a Seleção definiu os locais de preparação no México: Guadalajara e Guanajuato. O planejamento foi homologado em reunião com o preparador físico Lamartine Pereira, contando com a participação de Admildo Chirol, Carlos Alberto Parreira e do supervisor Cláudio Coutinho, todos militares e acadêmicos reconhecidos ligados à Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx). (CORNELSEN; MARINHO, 2020b)

Portanto, em seu relato de 1997, Tostão reconhece a importância que a comissão técnica, formada por militares e acadêmicos egressos da renomada EsEFEx, foi fundamental para a campanha do Tri.

Já na partida final, com o resultado encaminhado, Tostão revela em seu relato de 1997 toda a emoção que o dominou com a perspectiva da vitória e da conquista do tão sonhado título: “Após o terceiro gol, de Jairzinho, não segurei a emoção e joguei o restante da partida chorando” (TOSTÃO, 1997, p. 72). E, mais uma vez, a digressão se faz presente em relação aos limites da linguagem para poder dar dimensão do que teria sido aquele momento memorável da história pessoal do jogador e da história do futebol brasileiro: “O mundo simbólico representado pela palavra é muito pobre para descrever um sentimento tão rico como o daquele momento. São esses instantes que ficam marcados para sempre na nossa memória” (TOSTÃO, 1997, p. 72). E o jogador revela também a sensação que foi ter se tornado campeão do mundo e ser ovacionado por multidões na volta ao país:

Fomos recebidos por grandes multidões no Brasil: Rio, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Ganhei muitos prêmios, boa compensação financeira para a época, festas, eu vivia a festa maior da minha carreira. Como era bom ser campeão do mundo. (TOSTÃO, 1997, p. 72)

Todavia, de acordo com Cornelsen & Marinho, “[d]iferentemente do mainstream dos atletas de futebol, Tostão nunca se furtou de manifestar seus posicionamentos políticos” (CORNELSEN; MARINHO, 2020a). As seguintes palavras de Tostão revelam tal olhar crítico para o contexto político e o uso do futebol à época do Mundial do México:

“Após a Copa, logo ao chegar ao Brasil, fomos para Brasília para sermos recebidos pelo presidente Médici. Era o auge da ditadura que eu tanto detestava, e não queria comparecer. Pensei muito, racionalizei que era preciso ir e que eu não podia confundir política com esporte. Arrependo-me de ter ido, pois era a oportunidade de mostrar a minha indignação como cidadão”. (TOSTÃO, 1997, p. 62 apud CORNELSEN; MARINHO, 2020a)

Por fim, ao analisar a última obra que compõe o corpus do estudo, a biografia do jogador Roberto Rivellino, escrita pelo jornalista Maurício Noriega, percebe-se que o atleta, assim como Pelé, não demonstrava preocupação com o uso político do futebol, na época, posicionamento contrário àquele assumido por Tostão em seus relatos autobiográficos de 1997 e, respectivamente, de 2016: “Segundo Riva, os problemas enfrentados pelo país naquele período, a violência, a tortura, a censura, nada disso foi incorporado ao dia a dia da seleção. ’A gente estava lá pra jogar futebol. Não havia pressão por parte do governo’.” (NORIEGA, 2015, p. 61) E, em depoimento a Maurício Noriega, o craque da camisa 11 assevera que, pelo menos com ele, não havia pressão por parte da cúpula do poder: “Nas conversas com Médici, pelo menos comigo, ele nunca tocou no assunto de política. O que eu como jogador, o que a seleção podia resolver? Na rua era uma coisa, no estádio era outra. E eu acho que não se deve misturar” (NORIEGA, 2015, p. 61).

Portanto, depreende-se das palavras de Rivellino, citadas em seu relato biográfico escrito por Maurício Noriega, que o jogador, 45 anos após a conquista do Tri, ao argumentar sobre o contexto político da época e o uso político da seleção por parte dos governantes, refuta a tese de que teria havido influência direta no andamento dos trabalhos da equipe. Além disso, para construir sua argumentação, Rivellino vale-se da oposição de dois espaços distintos: o dentro e o fora do estádio, mais especificamente a “rua”, a rua do cidadão comum, e o estádio dos atletas. Para o craque, tais espaços não deveriam ser misturados, pois a atuação da seleção seria dentro do estádio, sem influência no que ocorreria fora do grande palco do futebol.

Todavia, como toda análise discursiva determina, não se deve ter atenção apenas naquilo o que é dito explicitamente, e sim também no não-dito, naquilo que fica implícito ou silenciado em determinada formulação. A frase “O que eu como jogador, o que a seleção podia resolver?” aponta que haveria algo a “resolver”, mas que nem jogador, nem seleção seriam os agentes da possível resolução. Se Rivellino, por um lado, evidencia em seu relato a proximidade de Médici em relação aos integrantes da seleção, por outro, argumenta que o ditador, como qualquer torcedor, se interessava pelo desempenho (no espaço do estádio) da seleção. Mas o ex-jogador daquela histórica seleção não deixa de dar a dimensão da “militarização” do ambiente sem usar, naturalmente, essa expressão:

Sem contar a importância para o país, para o povo, numa época complicada da história do Brasil, e mesmo para o governo dos militares. “Nos cinco jogos que fizemos em Guadalajara, em todos, depois que a gente voltou para a concentração, eu recebi telefonemas do Médici [Emílio Garrastazu Médici, presidente da ditadura militar em 1970]. Havia muitos militares na delegação. O [major-brigadeiro] Jerônimo Bastos que era o chefe da delegação, me chamava e dizia que o presidente queria falar comigo. Era aquele papo de sempre, ‘vamos ganhar’ etc. Ele falava ‘parabéns’, aquele papo de torcedor mesmo”. (NORIEGA, 2105, p. 61)

Na citação acima, há uma composição de três vozes: a do biógrafo, a do biografado (discurso direto citado) e a do ditador. A primeira, do biógrafo, se revela em expressões como “governo dos militares”, “presidente da ditadura militar em 1970” e “major-brigadeiro”; a segunda, do próprio jogador, oscila entre um “nós”, “a gente” e “eu” para relatar sobre o contato de Médici com a seleção; a terceira voz, atribuída a Médici, é parte da narrativa de Rivellino: “vamos ganhar” e “parabéns”, expressões que, para o jogador, seriam “aquele papo de torcedor mesmo”. Em termos de gênero textual, aliás, temos aqui um ótimo exemplo de como um relato biográfico pode ser perpassado por outras vozes, quando o biógrafo decide entrevistar o biografado e integrar seus depoimentos ao relato biográfico.

Ainda em relação à última passagem citada do livro Rivellino, torna-se evidente que uma estrutura hierárquica e organizacional operava na seleção. O chefe da delegação Jerônimo Bastos – um “major-brigadeiro” – era o mediador da cúpula do poder. Aliás, fica implícito que, se havia conversas (ou ordens) sobre política, elas estavam condicionadas a essa estrutura organizacional, que, em certa medida, não deixava de ser uma instância de controle e vigilância sobre o dia a dia da seleção no México.

Por sua vez, é importante ressaltar que, numa obra composta por 208 páginas, o tema do uso político da seleção na Copa de 1970 é brevemente tratado em apenas dois parágrafos, publicados no capítulo “Dois golaços! E a vaga no maior time do mundo” (NORIEGA, 2015, p, 61). Para Rivellino, a partir de um saldo de memórias eufóricas (e possíveis disforias silenciadas ou omitidas), resta a seguinte assertiva: “Para Rivellino, não resta dúvida: a seleção de 1970 foi o melhor time em que ele atuou. ‘Tomara Deus que o Brasil tenha condições de formar uma safra igual àquela. […]’.” (NORIEGA, 2015, p. 63)

Euforia e disforia na memória de jogadores sobre a conquista do Tri em meio aos “anos de chumbo” – a guisa de conclusão

A partir do breve estudo apresentado, evidenciou-se que, ao longo do século XX, o futebol contribuiu de forma significativa para a formação da identidade cultural brasileira, por se tornar o esporte representativo de diversos segmentos sociais, pois, segundo Marcos Guterman (2009, p.10), “a massa trabalhadora encontrou nesse esporte a essência democrática que lhe era negada em todas as outras áreas”. Assim sendo, é possível atribuir às escritas da vida de jogadores da Seleção Brasileira o papel considerável na preservação da memória e da história do Brasil. Porém, para elaboração das narrativas biográficas e autobiográficas é necessário utilizar recursos ficcionais para preencher as lacunas deixadas pela memória, como, também, para tentar, da melhor forma, representar o que seria a vida “real”.

Nesse sentido, é importante salientar que trechos das autobiografias de Pelé e Tostão e da biografia de Rivellino colaboram significativamente para a reconstrução de um período histórico específico: a campanha do Tri em meio aos chamados “anos de chumbo”. Durante esse período, foi possível perceber através dos relatos a relação mais estrita entre futebol e política, evidenciada pela participação direta de militares na estrutura organizacional e na preparação física dos jogadores, que alçava a Seleção Brasileira a outro patamar em termos científicos e tecnológicos de ponta no âmbito do esporte mundial, assim como pelo acompanhamento constante do presidente Médici à seleção.

Por sua vez, constatou-se que, enquanto Pelé, em sua autobiografia, e Rivellino, em depoimentos reproduzidos por Maurício Noriega em sua biografia, pouco falam sobre o uso político da seleção no contexto ditatorial, Tostão assume uma postura crítica em relação ao tema, reconhecendo, entretanto, que tal crítica se deve, em parte, ao distanciamento histórico dos fatos e ao olhar para o período de modo abrangente em sua contundência. De certo modo, Tostão reconhece que os jogadores da seleção de 1970, no auge de suas carreiras, tinham suas ambições, objetivos e sonhos, que suplantavam qualquer olhar crítico para o regime e para a sua presença também no âmbito do futebol.

Por fim, os relatos memorialisticos também ajudam a retratar a conquista de maior notoriedade da Seleção Brasileira, consagrando, discursivamente, o Brasil como “país do futebol” e auxiliando na cristalização do mito do chamado “futebol arte”.

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Como citar

FERRAZ, Luiza Reis; CORNELSEN, Elcio Loureiro. A Seleção Brasileira de 1970 e os “anos de chumbo” em relatos memorialísticos de três jogadores.