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A sociedade do (futebol) espetáculo: calçando as chuteiras em Guy Debord

Georgino Jorge de Souza Neto, Ildenilson Meireles Barbosa

Quando em novembro de 1967, prestes a completar 36 anos de vida, Guy Debord apresenta sua principal obra – A sociedade do espetáculo – o mundo pós-segunda guerra vivia a tensão da Guerra Fria e veria eclodir, pouco tempo depois, na própria França de Debord, o Movimento de Maio em que estudantes, intelectuais e trabalhadores se uniram numa linha de enfrentamento contra as condições políticas, sociais e culturais até então postas e bradaram por direitos e conquistas, provocando uma onda de renovação de valores capitaneada pelo ímpeto revolucionário de uma nova e potente juventude.

Toda essa efervescência representava o desejo de mudança de uma geração que se via no espelho da História como uma figura inerte e disforme, mas que buscava o seu lugar e o seu reconhecimento social e reivindicava, de forma intransigente, que sua voz fosse ouvida em todos os domínios da cultura.

A obra de Debord chegava assim como uma forte denúncia da realidade, em que o avanço da força econômica do capital transformava a tudo e a todos em uma representação imagética e espetacularizada do cotidiano, uma espécie de simulacro bem aparentado das experiências do mundo.

Nas palavras de Iná Camargo Costa, ao tratar da lógica do espetáculo debordiano, argumenta que:

A ignorância dos espectadores nasce daquilo que o espetáculo ensina. O discurso do espetáculo não deixa espaço para resposta. A lógica só se forma socialmente pelo diálogo; não é fácil e ninguém quer ensiná-la aos espectadores. A preguiça do espectador é a mesma de qualquer intelectual, do especialista formado às pressas, que vai sempre tentar esconder os estreitos limites dos seus conhecimentos através da repetição dogmática de algum argumento de autoridade sem qualquer lógica.[1]

Diante dessa sociedade que se locupletava em uma pletora de imagens, esvaziando o diálogo, o futebol pairava acima dos conflitos e da ebulição que marcavam o final da década de 1960. Em nenhuma das suas páginas, A sociedade do espetáculo faz referência ao universo do futebol (obviamente Guy Debord jamais pretendeu fazer esta relação). No entanto, é possível estabelecermos um animado diálogo entre a sua mais proeminente obra e o esporte bretão.

Cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Foto: Flickr/Shine 2010.

Para isto, adotamos uma estratégia de aproximação substituindo a palavra “espetáculo” pela palavra “futebol”. Este simples jogo semântico pode revelar muito mais do que a aparente ingenuidade da nossa proposição.

Valendo-se de uma construção textual baseada em aforismos-teses, o livro segue uma estrutura complexa e pouco linear, embora extremamente conectada às ideias do autor. Assim, selecionamos frases em que a substituição dos termos nos permitisse uma analogia deslocada para um olhar voltado ao objeto do futebol (certamente que outras frases não elegidas também poderiam possibilitar este debate).

Comecemos, então, o espetáculo:

Aforismo-Tese 4 (Cap. 1, p. 14): “O futebol não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”. O futebol, historicamente, se constituiu em uma experiência de profunda relação social entre os sujeitos, tendo como principal poder de atração a potência das imagens produzidas pelo jogo, cuja memória imagética e força de emulação provocam fortes sensações e sentimentos que o projetam como um dos mais impactantes fenômenos sociais.

Aforismo-Tese 23 (Cap. 1, p. 22): “Mas é a especialização do poder, a mais velha especialização social, que está na raiz do futebol. O futebol é, assim, uma atividade especializada que fala pelo conjunto das outras. É a representação diplomática da sociedade hierárquica perante si própria, onde qualquer outra palavra é banida, onde o mais moderno é também o mais arcaico”. O futebol (este futebol midiático e vitrinizado) sempre foi também um espaço de poder, hierarquizando papéis e funções que denotem uma distinção social a partir da sua força de atuação. Esta perspectiva se mantém discursivamente, mas é principalmente nas aparências que se reforça e se perpetua (utilizando do moderno para a repetição de práticas absolutamente arcaicas).

Aforismo-Tese 32 (Cap. 1, p. 26): “O futebol na sociedade representa concretamente uma fabricação de alienação. A expansão econômica é principalmente a expansão da produção industrial. O crescimento econômico, que cresce para si mesmo, não é outra coisa senão a alienação que constitui seu núcleo original”. Ora, sabemos que nem toda experiência do futebol produz alienação. Melhor até falarmos em futebóis, assim no plural, dada a vastidão tentacular que este esporte alcança em desdobramentos de suas práticas e apropriações. Mas ao falarmos de um certo futebol, este que se transformou em carro-chefe de uma lucrativa indústria do entretenimento, é indissociável a leitura de que o poder econômico que gerencia o espetáculo vislumbra na alienação do espectador uma poderosa força de manutenção do status quo, estimulando o consumo cego da experiência (e para além dela) e movendo, a partir da paixão provocada pelo objeto, a roda do capital econômico que comanda e controla toda a estrutura. Não à toa, no futebol brasileiro, por exemplo, o torcer se transformou em “massa de manobra” dos clubes. Maior parte alienada, os torcedores se restringem aos 90 minutos de um jogo de futebol sem participação efetiva nos lucros das empresas. Capitalizado discursivamente para manter a imagem de um clube imbatível, o torcedor não se interessa mais (sua consciência social foi confiscada) pelo todo, somente pela parte e tem um verdadeiro gozo somente com o resultado. O processo já não lhe diz mais respeito.

Cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Foto: Flickr/Shine 2010.

Aforismo-Tese 36 (Cap. 2, p. 29): “É pelo princípio do fetichismo da mercadoria, a sociedade sendo dominada por ‘coisas supra-sensíveis embora sensíveis’, que o futebol se realiza absolutamente. O mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existem acima dele, ao mesmo tempo em que se faz reconhecer como o sensível por excelência”. É preciso sempre seduzir o espectador. Para isto, o futebol transformado em mercadoria utiliza da sua força imagética e representativa para construir um universo suprassensível, uma fantasia que se eleva acima da realidade, mas que se estabelece na realidade em si. O futebol é ao mesmo tempo o mundo real e seu universo paralelo, coexistindo com o propósito de retroalimentar a sua necessidade (o “princípio do fetichismo da mercadoria”).

Aforismo-Tese 54 (Cap. 3, p. 39): “O futebol, da mesma forma que a moderna sociedade, está ao mesmo tempo unido e dividido. Ele edifica a sua unidade sobre o dilaceramento. A contradição, quando emerge no futebol, é contradita pela inversão do seu sentido; de modo que a divisão mostrada é unitária, enquanto que a unidade mostrada está dividida”. Podemos pensar a moderna sociedade “unida e dividida” a partir do que argumenta o próprio Debord: do espetacular concentrado (unido); e do espetacular difuso (dividido). Neste sentido, o futebol, no seu poder concentrado, assume a forma do centralismo de poder através de suas instituições representativas (FIFA, UEFA, COMEBOL, etc.), e mais localmente nas Federações e Conselhos Deliberativos dos clubes. Essa unidade de domínio assume a responsabilidade de gerenciamento do “caos” (o que Debord chama de dilaceramento). Por outro lado, na perspectiva do difuso, o futebol se espraia, diluindo-se em abundância de mercadoria. É preciso que a unidade do futebol se divida, expandindo-se o máximo possível por espaços, objetos e sujeitos.

Aforismo-Tese 71 (Cap. 3, p. 52): “O que o futebol apresenta como perpétuo é fundado sobre a mudança, e deve mudar com sua base. O futebol é absolutamente dogmático e, ao mesmo tempo, não pode levar a nenhum dogma sólido. Para ele nada pára; é o estado que lhe é natural e, todavia, o mais contrário à sua inclinação”. Podemos aqui trazer a lógica da tradição do futebol, sua base imutável de valores e normas, mas que não prescinde, ao mesmo tempo, da mudança que alcance a necessidade de um produto que se torne mercadoria rentável. Sendo considerado um esporte pouco vocacionado a mudanças significativas, o futebol não escapa à inovação. Conservando sua aura de dogma sólido, admite alterações contrárias à sua inclinação. O VAR que o diga!

Fim dos 90 minutos. Ainda que a obra de Debord permita prorrogação, deixamos essa possibilidade para outras partidas (e chegadas). Por ora, basta sabermos que o futebol jamais se encerra em si mesmo. Estará sempre além do tempo e do espaço. O texto, neste caso, acaba aqui. Mas desconfiamos, assim como Debord, que o espetáculo não pode parar.

Nota

[1] https://outraspalavras.net/sem-categoria/para-compreender-a-sociedade-do-espetaculo/

Como citar

SOUZA NETO, Georgino Jorge de; BARBOSA, Ildenilson Meireles. A sociedade do (futebol) espetáculo: calçando as chuteiras em Guy Debord.