06.3

A taça do mundo ou a medalha de ouro?

Paulo Nascimento

Para quem gosta de futebol, 2008 é ano do quê? Bom, por ora, acompanhamos os desdobramentos finais dos campeonatos regionais, o começo da Libertadores, vamos palpitando sobre como será o Brasileirão, e, para os espíritos de porco, um gostinho a mais quanto aos participantes da segundona deste ano. Além do que acontece com os clubes, as atenções estarão voltadas pra saber se o time de Dunga finalmente emplaca nas eliminatórias. E… bem, também tem o torneio de futebol do Jogos Olímpicos. Mas basta ir a qualquer boteco pra saber que o lamento do torcedor antes as derrotas do Brasil nas últimas Copas é solenemente maior que eventuais eliminações, derrotas ou mesmo não-classificações do selecionado olímpico.

E o porquê disso? Se, de acordo com Martinez (2000), o futebol no Brasil é elemento de identificação, sendo possível detectar nesse esporte uma relação do brasileiro consigo mesmo, por que as referências que temos no imaginário coletivo de torcedores no tocante às atuações da seleção de futebol são em sua maioria relacionadas à Copa do Mundo, e quase nada em alusão aos Jogos Olímpicos?

Seguem algumas reflexões para que tenhamos mais elementos para compreender o fenômeno.

Lidamos com a perspectiva de que as décadas de 30 e 50 do século XX foram cruciais para a popularização da seleção nacional de futebol no Brasil. Em 1938, na França, o time brasileiro, apoiado como nunca o fora pelo governo brasileiro (na ocasião, Getúlio Vargas), alcançou o terceiro lugar, e teve seu desempenho ecoado para muitas partes do país pelas ondas do rádio. Popularidade, até então, inédita (PEREIRA, 1938). Já na década de 50, sediar a Copa de 1950 e vencer, na Europa, a de 1958, foi bastante contributivo para a popularidade do futebol no Brasil.

Até aqui, sem grandes novidades. Mas se as Copas do Mundo propiciavam essa condição ao futebol aqui por nossas terras, a quantas ia a participação brasileira do futebol nos Jogos Olímpicos? Bem modesta. O primeiro resultado expressivo do futebol brasileiro nos Jogos surgiu na nada remota década de 80 – mais precisamente, nos Jogos Olímpicos de 1984, disputados em Los Angeles.

O contexto geopolítico era o da Guerra Fria: a então União Soviética liderou um bloco de países do Leste Europeu que boicotaram os Jogos, como revide ao boicote liderado pelos EUA quatro anos antes, nos Jogos de Moscou (RUBIO, 2006, p.127).

Além disso, o Movimento Olímpico, após quase um século de considerável sucesso, começava a entrar na berlinda nos anos 80. Os Jogos Olímpicos foram idealizados no final do século XIX, tendo como propósito a realização de disputas esportivas entre nações para promover a congregação entre as mesmas sob uma perspectiva pedagógica. E essa prática esportiva estava fundamentada em duas premissas: o amadorismo e o fair play (RUBIO, 2006, P.60).

A partir dos Jogos de Los Angeles, o que já não era novidade para o futebol começava a ser realidade também dos outros esportes: o profissionalismo. Contudo, a adesão a essa nova realidade por parte do Comitê Olímpico Internacional (COI) foi gradual e marcada por algumas peculiaridades que, não raro, soavam contraditórias. Como o movimento olímpico lidou então com tal questão? E, especificamente no tocante ao futebol, o que foi feito?

Antes dos Jogos de Los Angeles, portanto, participava dos Jogos Olímpicos quem fosse atleta amador. Com a condição de profissionais por parte dos jogadores de futebol cada vez mais estabelecida aqui no Brasil, aparecia aí um empecilho para a participação desses nos Jogos Olímpicos. Contudo, o mesmo não se podia dizer sobre os atletas do chamado “bloco soviético”:

“Diante da alegação da socialização dos meios de produção vivida com a revolução, os países do bloco socialista negavam a existência de profissionais do esporte e afirmavam a condição amadora de todos os seus atletas, que estavam a serviço do Estado. Com isso, a mesma seleção de futebol que participava das Copas do Mundo, evento tão prestigiado e rentável quanto os Jogos Olímpicos – chegando a provocar, entre os dirigentes do futebol, um movimento de exclusão dos Jogos como forma de não comprometer o sucesso das Copas – participava da celebração olímpica, levando uma grande vantagem sobre os times compostos de atletas não profissionais, tanto do ponto de vista da capacidade física como da experiência acumulada pelos anos de prática” (RUBIO, 2006, pp. 196-197).

A solução adotada pelo COI foi, a partir dos Jogos de Los Angeles, permitir a participação de atletas profissionais, contanto que esses não tivessem participado de Copas do Mundo. Para atender às novas exigências do Comitê Olímpico, o time brasileiro que garantiu a classificação pros Jogos de Los Angeles foi dissolvido, e procuraram substituí-lo por um time que atuasse profissionalmente no Brasil, entrosado, que pudesse, com o pouco tempo disponível, garantir uma boa representação. O time do Internacional de Porto Alegre recebeu e aceitou a missão de representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de 1984. Resultado: medalha de prata, conquistada depois de uma vitória diante da Itália nas semifinais – a mesma Itália que, dois anos antes, eliminara o Brasil da Copa.

Temos aqui um grande exemplo de como as atuações da seleção em Copas do Mundo adquiriram na memória coletiva brasileira uma maior repercussão que as dos Jogos Olímpicos. Nesse caso, não é difícil de se explicar; afinal, ao contrário do que aconteceu na Copa de 82, nos Jogos Olímpicos de 1984, era o time do Internacional se apropriando (legitimamente, que se diga) da camisa da seleção.

Nos Jogos Olímpicos seguintes, disputados em Seul, a base da equipe era formada pela seleção de juniores – base essa que, em 1994, traria o tão esperado quarto título da Copa do Mundo para o Brasil. Mais uma medalha, mais uma de prata.

Os Jogos de Barcelona foram marcados pela presença de atletas profissionais em vários esportes, sendo o basquete, o tênis e o ciclismo os exemplos que mais adquiriram repercussão. Contudo, no tocante ao futebol, a restrição aos atletas profissionais permanecia. Em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, COI e Fifa entraram num acordo quanto ao torneio de futebol dos Jogos: cada seleção poderia ter até três atletas profissionais em suas equipes. Usufruindo de tal regulamento, o Brasil conquistou a medalha de bronze em Atlanta e foi desclassificado nas quartas-de-final em Sydney.

Para os Jogos de Atenas, o time que já era antecipadamente tido como favorito ao ouro ficou na promessa: a equipe sequer conseguiu classificar-se.

Profissionalismo: talvez seja esse o ponto-chave que explique a grande popularidade das atuações da seleção brasileira nas Copas do Mundo, e a baixa, se comparada com essa, nos Jogos Olímpicos. Desde a década de 30 do século passado os clubes de futebol já resolveram o impasse “amadorismo x profissionalismo” (impasse cujos principais instigadores eram os sportmen do começo do século XX que, grosso modo, foram os responsáveis pela introdução da prática do futebol no Rio e em São Paulo, e que se enxergavam como os verdadeiros e únicos detentores de legitimidade para praticarem a modalidade).

Logo, os jogadores convocados para a seleção brasileira eram os profissionais – que, dentre outras coisas, recebiam maior atenção do público e da mídia. Enquanto isso, nos Jogos Olímpicos, a questão do profissionalismo só foi ser resolvida nos anos 90, sendo que, em relação ao futebol, a solução encontrada foi primeiro restringir a participação de atletas profissionais, depois restringir o número de atletas da categoria adulta – para ir ao encontro dos anseios do Movimento Olímpico (que insiste em aludir os preceitos de sua fundação, mais de um século depois) e da Fifa (que, obviamente, não quer que os Jogos Olímpicos se sobreponham em repercussão à Copa do Mundo).

2008 também é ano de Jogos Olímpicos em Pequim. Mais uma oportunidade para quem se interessa em fazer análises sócio-culturais do Brasil pela ótica do futebol verificar quais as peculiaridades deste evento, sua ressonância em nosso país, e quais as possíveis contribuições do time olímpico na já vasta memória do brasileiro sobre as atuações de sua seleção.

Bibliografia
MARTINEZ, C. B. Driblando a perversão: futebol, subjetividade brasileira e psicanálise. Tese de doutorado. Programa de Psicologia Clínica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: 2000.