135.67

A velhice do atleta: entre a primeira e a segunda morte

Anderson David Gomes dos Santos

“Nesse andar morava um antigo ídolo do atletismo que chegara a duas olimpíadas. Vivia numa cadeira de rodas. E como não lia jornais nem ligava a televisão (quem quisesse, tinha seu televisor particular) conseguira esquecer que a corrida com a tocha acesa seguia gloriosa sem ele. Esqueceu, assim como foi esquecido. As medalhas e troféus que nos primeiros tempos de invalidez não podia nem ver estavam agora expostos na estante do seu quarto, às vezes os olhava, mas sem a antiga emoção, integrados na senilidade como o saco de água quente ou a cadeira”.

Ao ler virtualmente com amigas e amigos o conto “A presença”, de Lygia Fagundes Telles (publicado em Seminário dos ratos, 2009), me veio a ideia de romper o período sem escrever aqui no Ludopédio – antes mesmo de chegar a minha vez na coluna semanal da ReNEme.

Citei no encontro como Lygia escolhera uma ex-atriz para representar a velhice como doença, base do conto, destacando o quanto a beleza e a juventude eram exigências mais ligadas à mulher; enquanto para representar o “problema” para o homem ela se utiliza da figura do atleta, função em que a vida profissional está intimamente ligada ao físico, mas que, ao mesmo tempo, o deteriora.

O ex-jogador de futebol Paulo Roberto Falcão cunhou uma boa frase para tratar da aposentadoria: “o jogador de futebol morre duas vezes”, sendo a primeira ao pendurar as chuteiras. Nesse caso, muitos atletas seguem lidando com o esporte a partir de profissões como as de comentarista, de apresentador ou de técnico.

Muitos mais, entretanto, não passam ilesos por uma “velhice” que chega já aos 40 anos de idade, especialmente considerando que só o topo da pirâmide do futebol profissional consegue ganhar uma quantidade razoável por mês pelo seu trabalho e, imagina-se, teria a possibilidade de juntar algo para a aposentadoria.

Formiga. Foto: CBF

As entidades de trabalhadores acabam tendo uma função importante nisso, com sindicatos de atletas auxiliando ex-jogadores a se manterem. Mas vemos muito pouco sobre isso, pois para manter a estratégia de difusão do esporte enquanto entretenimento lucrativo e saudável é mais importante mostrar os casos de sucesso do que os de fracasso. Afinal, como mostra a pandemia da Covid-19, o espetáculo não pode parar!

Assim, nos surpreendemos quando uma história acaba se tornando a exceção que surge no noticiário esportivo, como foi o caso do falecido Valdiram, meu conterrâneo aqui de Alagoas e que teve relativo sucesso no Vasco, sendo artilheiro da Copa do Brasil de 2006, encontrado morto nas ruas de São Paulo em abril do ano passado.

Sendo justo, projetos de escolas na base de clubes profissionais vêm aumentando nas últimas duas décadas, assim como o acompanhamento psicológico e até a indicação de carreira para além do futebol. Entretanto, seguem sendo casos de exceção e com falhas mesmo no topo da pirâmide do futebol profissional – sim, estou lembrando do que ocorreu com os “Garotos do Ninho”.

Estudando o futebol pela perspectiva da Crítica da Economia Política aplicada à Comunicação, a categoria do Trabalho é fundamental, pois é a sua subsunção pelo capital que gera o valor. Entretanto, dedicado mais à apropriação midiática do programa futebol, ainda não pude me aprofundar nesse aspecto, sem desconsiderar, claro, todo o estudo da Sociologia do Trabalho sobre o jogador de futebol. O que existe e o que pode ser feito no período entre a primeira e a segunda morte? Como é essa “velhice” antecipada?

Ah, não poderia terminar o texto sem apoiar Carol Solberg e Isabel num momento de um país que vive sobre o “duplipensar”, em que liberdade de expressão só vale se for para defender quem ocupa o poder atual. É mais que necessário registrar a crítica à comissão de atletas olímpicos que luta para silenciar as próprias atletas. Neste caso, devem ser os troféus e as medalhas que olham para essa “velhice” conservadora sem a emoção de outros tempos.

#ForaBolsonaro


Como citar

SANTOS, Anderson David Gomes dos. A velhice do atleta: entre a primeira e a segunda morte. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 67, 2020.