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A violência entre as Organizadas: a final da Libertadores

Emiliano Peggion de Carvalho

O ano de 2020 não foi fácil em nenhum sentido, sendo que todos passamos por situações complexas. Para o lúdico não foi diferente. A final da Copa Libertadores de 2020 foi realizada em 30 de janeiro de 2021 entre Palmeiras e Santos, no estádio do Maracanã, uma trajetória conturbada e complexa para atletas e torcedores que se mantiveram ansioso para ver o jogo.

Seria um dia para a comemoração de um dos grandes clubes brasileiros que sairia como campeão das Américas, rumo à final do Mundial Interclubes, título de grande prestígio no interior do futebol profissional mundial.

Palmeiras campeão Libertadores 2020

Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Mais uma vez, como em muitos outros momentos da história das relações sociais entre torcedores, toda a tensão fora do gramado emerge como violência, porém não entre torcidas do Palmeiras e do Santos, mas sim entre o primeiro e alguns torcedores do Corinthians um pouco antes do início da partida na zona Sul de São Paulo, resultando na morte de um torcedor do Corinthians.

Não é de hoje que brigas como essa ocorrem em diversos locais e de diversas formas, conforme exposto por Toledo (1994; 1996), são vários os casos em que se repercutem casos de violência física e moral que envolvem torcidas organizadas, sendo fácil retomar na memória casos como entre as torcidas do São Paulo e do Palmeiras em 1995 no Pacaembu. Além das agressões físicas desferidas, muitos são os casos de emboscadas, músicas ofensivas, xingamentos, intimidações e agressões morais aos adversários, expondo uma relação extremamente violenta entre algumas torcidas.

Ao que se pese, para as torcidas organizas o confronto, mesmo que somente no sentido da ameaça, nem sempre sendo efetivada qualquer violência física atribui um certo status ou visibilidade para o grupo como um todo, não sendo percebido por esses integrantes como um ato propriamente negativo, conforme demonstrado por Teixeira (2013), que essas situações de perigo e/ou violência na realidade trazem consigo experiências que atribuem poder a um membro da torcida organizada, mesmo que isso resulte no enfrentamento da morte ou na perda de um colega, ou que ainda acabe por ser ferido em um confronto direto, havendo uma indicação direta que este indivíduo deva ser temido e respeitado.

É nesse contexto que surge uma prática conhecida como “botar para correr”, no sentido de fazer a torcida organiza adversária fugir, o que enalteceria a imagem da organizada que promovesse tal ato e lhe atribuiria uma característica de agressora em desfavor da outra. Para Toledo (1996), nesse viés a Mancha Alviverde ganha um grande protagonismo dentro das organizadas utilizando-se da violência como seu vitral.

Apesar de parecer ilógico, ou não racional, a torcida organizada do Palmeiras entrar em confronto direto com a do Corinthians, sendo que o jogo seria entre Palmeiras e Santos, aqui surgem diversas práticas e representações que são inerentes a lógica das torcidas organizadas propriamente ditas, na qual existe um ciclo de violência que repercute entre grupos que são rivais para além do momento vivenciado, remetendo-se a confrontos anteriores em um sentido de revanchismo, o que de fato contribui para que a violência se reproduza quase que infinitamente.

Ao buscar elaborar uma análise acerca da violência, segundo Toledo (1994), é preciso levar em conta em qual contexto essa ocorreu, apreendendo os significados daquelas ações perpetradas no interior de um determinado grupo, criando uma nova forma de sociabilidade distinta daquela do mundo ao seu entorno, a qual se expressa em uma forma de torcer.

São nessas relações muito específicas que nós temos um outro padrão de comportamento e ação dos indivíduos, inclusive, segundo Toledo (1994), com formas de falar, regras e estilos de vida muito específicos, bem como, uma outra forma de sociabilidade que inclui a violência direta e indireta como expressão positiva.

Embora seja uma expressão muito forte de alguns grupos de torcedores, ao longo dos últimos anos esse coletivo tem se tornado reduzido, podendo-se indicar alguns fatores como uma maior criminalização por parte do poder público, bem como a elaboração de planos de contingência durante jogos para afastar os diversos grupos rivais. Apesar disso, são vários os grupos que surgem e ressurgem para manifestar essa forma de sociabilidade que por diversas vezes resultam em confrontos violentos diretos.

Denota-se, portanto, um grande estigma circunscrito aos grupos de torcedores em relação à violência perpetrada por estes, muito, atualmente restringido por medidas judiciais e legislativas. Não se está aqui trazendo a baila do debate a violência como medida correta ou utilizável, mas que, essa violência trouxe consigo diversas barreiras para a continuidade de uma maior simbologia cultural que outrora permeava os modos de torcer, criando formas de espetáculos e ludicidade que em certa medida têm se tornado invisíveis na contemporaneidade. Portanto, pode-se perceber que efetivamente o espetáculo perdeu, mas que os grupos se matem, buscando recursos para a sua preservação e demonstrando grande resistência para tanto, sempre colocando em pauta a questão cultural de organização, socialização e sociabilidade que permeia esses grupos organizados, tendo a violência em diversos como momentos como uma linguagem própria, o que por sua vez reflete em valores específicos no interior da sociedade.

Mancha Verde

Presença da Mancha na partida contra o Vasco. Foto: Fabio Menotti/Ag Palmeiras/Divulgação.

As diversas relações entre os grupos organizados se demonstram demasiadamente complexas, podendo-se apresentar vários argumentos que ensejam em atos violentos entre os grupos, porém nós arriscamos aqui a dizer que tal violência resulta de características básicas do cotidiano urbano atual, com grande foco nos centros urbanos metropolitanos que são resultado de certa intolerância, tanto da comunidade “fora” dos grupos, bem como das autoridades públicas que se utilizam da repressão policial anterior, em diversos momentos para se estabelecer suposta ordem, entretanto contribui para o aumento dos confrontos culturais entre os grupos.

 

Referências

TEIXEIRA, R. C. Futebol, emoções e sociabilidade: narrativas de fundadores e lideranças dos movimentos populares de torcedores no Rio de Janeiro. Esporte e Sociedade, Rio de Janeiro, ano 8, n.21, 2013.

TOLEDO, L. H. Transgressão e violência entre torcedores de futebol. Revista USP – Dossiê Futebol, São Paulo, n.22, p.92-101, jun./ago. 1994.

______. Torcidas organizadas de futebol. Campinas: Autores Associados, 1996.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Como citar

CARVALHO, Emiliano Peggion de. A violência entre as Organizadas: a final da Libertadores. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 25, 2021.