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A volta do futebol e a partida do bom senso

Crisneive Silveira

Tenho muitas saudades. Uma delas é de ouvir crianças brincando na rua, aos domingos. Pancada na parede, gritaria, era Gabigol contra Neymar disputando o gol na travinha. Par ou ímpar pra ver quem vai começar. Vence quem fizer dois primeiros. É domingo todo dia há mais de um mês. Mas como no apagar dos refletores do estádio, apenas o silêncio comovente se apresenta. A pandemia do coronavírus suspendeu campeonatos de futebol pelo mundo, inclusive no Brasil, e também tirou a disputa de bola da terra batida, do pé no asfalto quente, do calçamento irregular. É bonito ver o time do coração atuar em grandes campeonatos, mas sinto falta de ouvir o som da diversão onde a paixão pelo esporte dá os primeiros passos: na infância. A questão de saúde pública, no entanto, é maior que qualquer saudosismo nesse contexto. “E daí?”

Foto: Caio Christofoli/Pexels.

A Covid-19 afeta especialmente os pulmões, prejudicando a respiração. Os primeiros casos da doença surgiram na China. Por lá, 4.637 vítimas fatais. O Brasil superou esse número e o país ainda nem chegou à fase crítica da doença. Foram 11.519 mortes e 168.331 casos confirmados até a segunda-feira (11/05), segundo o portal do Ministério da Saúde. Sem falar na subnotificação. O caos nos hospitais e nos cemitérios é o retrato imposto pela dura realidade. Faltam respiradores, EPIs (equipamentos de proteção individual) para profissionais da área, falta pessoal (muitos foram afastados com suspeita ou confirmação da doença), faltam leitos, faltam testes. Não há vacina nem remédio. Apenas o isolamento social pode resguardar a saúde de todos. Nesse jogo, ficar na defesa é essencial para quem está na linha de frente contra o vírus.

Mesmo com o sistema de saúde pressionado, clubes brasileiros planejam atividades presenciais neste mês de maio. Uma série de itens como álcool em gel, máscaras, luvas, batas descartáveis são necessários para isso. Alguns até compraram testes de coronavírus para jogadores, comissão técnica e funcionários. O porém é que hospitais brasileiros e de boa parte do mundo carecem desses insumos. Centenas de pessoas são contaminadas pelo vírus e morrem diariamente pela pouca testagem e pelo tratamento inadequado dada a insuficiência desse aparato. Além de disputar o mercado desse material com outros países, o Brasil precisa enfrentar também a cartolagem do futebol para salvar vidas? Que tipo de lógica prioriza o futebol, atividade não essencial, em detrimento de muitos que morrem por falta desses equipamentos?

A realização de treinos ou jogos, mesmo sem público, mobiliza funcionários e jogadores. Todos serão expostos ao risco e, por tabela, seus familiares em casa. A Covid-19 tem alto grau de contágio. E ter histórico de atleta não blinda ninguém. Flamengo, Grêmio, Internacional e Ceará são alguns dos que apresentaram protocolo de retomada. O Colorado, aliás, retomou atividades na última terça-feira (05/05). Dada a proporção da pandemia, um retorno rápido sequer deveria ser cogitado. Não agora. No campo do bom senso, o Ministério Público do Ceará manifestou-se contrário ao movimento e avalia a volta para o segundo semestre. A Secretaria de Saúde de Pernambuco vetou o retorno, decisão apoiada pela Federação local. A Mineira segue o mesmo tom e prevê futebol apenas no fim de junho. No Rio, a Ferj liberou as equipes, mas governo e prefeitura barraram. A Prefeitura de Porto Alegre acredita em futebol na cidade apenas no fim de 2020 ou 2021. Países europeus como França, Holanda e Bélgica encerraram torneios. A vizinha, Argentina, decidiu pelo cancelamento do futebol em 2020.

Ministério da Saúde aprova protocolo apresentado pela CBF. Entidade visa retorno das atividades (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

A CBF, no entanto, apresentou relatório ao Ministério da Saúde visando o regresso dos trabalhos. O documento foi aprovado pelo órgão com observações. Uma delas pede que os 180 clubes, das Séries A a D, garantam testagem e retestagem em funcionários, jogadores e familiares. E ainda frisa: a disponibilização de testes rápidos no sistema de saúde encontra-se saturada diante das necessidades da população brasileira… Diante da afirmação acima, na proposta apresentada, não fica evidenciado onde serão realizados os testes, periodicidade e critérios de retestagem, e como serão assistidos caso o diagnóstico dos atletas seja positivo. As informações foram publicadas no site GloboEsporte.com. A medida destoa da recomendação do Comitê Médico da FIFA, que sugere possível retorno apenas no segundo semestre.

A parada trouxe prejuízo aos clubes brasileiros, como no resto do mundo. Não há povo que tenha saído ileso ao coronavírus: seja na perda de vidas, seja nos problemas econômicos. Ao invés de encorajar a irresponsabilidade de uma volta de Brasileirão e estaduais, a CBF poderia incentivar a redução salarial de jogadores da Série A para clubes não demitirem funcionários ou garantir que as equipes menores, sempre tão carentes de apoio, recebam de fato o aporte financeiro anunciado pela entidade. O auxílio de R$19 milhões ajudaria a manter jogadores e jogadoras, por exemplo. Muitos desses times já foram desfeitos. Segundo o site Rede de Futebol, 1000 atletas perderam contrato no último dia 1 de maio, dia do trabalhador. A ironia triste escancara a realidade de um futebol desigual, onde os grandes seguem crescendo e os menores eventualmente sobrevivem.

O presidente Jair Bolsonaro, contrário ao isolamento social e a todas as outras recomendações dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o enfrentamento da Covid-19, inclusive as do Ministério da Saúde, declarou apoio à volta das competições. O interesse contrasta com o próprio plano de governo que não trouxe uma linha sobre esporte e até extinguiu a pasta. A maioria dos esportistas silencia sobre o tema, mas um vídeo divulgado pela Federação Nacional de Atletas Profissionais (FENAPAF), com Fernando Prass (Ceará), Everton Ribeiro e Diego (Flamengo) e outros, fala da necessidade de pensar na saúde de todos. No entanto, o tema central é a desigualdade salarial dentro da categoria, que reforça a contestação de um artigo do Projeto de Lei que prevê redução de 50% de indenização, caso haja quebra de contrato, e demais pontos. Outras vozes foram contundentes sobre o tema. O diretor e ídolo do São Paulo, Raí, o comentarista de televisão e ídolo do Corinthians, Walter Casagrande, o técnico do Botafogo, Paulo Autuori, manifestaram-se pela continuidade da suspensão das partidas. Pato, atacante do tricolor paulista, escreveu no Twitter:

A saudade da bola rolando no meio da rua, no estádio, na televisão é o sentimento bom unindo muitos brasileiros, mas nada disso é maior que as milhares de mortes provocadas pela Covid-19. Quando a tragédia vira rotina, a dor das famílias por cada ente querido é espremida em números. É desrespeitoso deixar isso ser engolido em meio a um falso entretenimento diante do caos na saúde pública. O esporte nunca estará acima da existência humana, mas não deve ser alheio às questões da sociedade. Se o futebol voltar agora, vai-se de vez o bom senso. A ordem é cuidar de si para cuidar de todos. Por isso, se você não faz milagre e quer salvar vidas, fique em casa.

Como citar

SILVEIRA, Crisneive. A volta do futebol e a partida do bom senso.