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Abdón Porte: vida e morte pelo Nacional do Uruguai

Thiago Rosa

No futebol, é comum ouvir e ler torcedores cobrando que jogadores deem sangue por uma camisa. Trata-se de um clamor por raça, um pedido passional delimitado e compreendido no tempo e espaço geográfico dos gramados. Há mais de um século, porém, um jogador levou o amor por um clube ao extremo. Abdón Porte entrou para a história como alguém que deixou a vida no campo do Nacional. E isso, tragicamente, não foi força de expressão.

A história de Porte começa em 1893, em Durazno, ano e local de seu nascimento. Com 15 anos, ele se muda para Montevidéu, onde começa a jogar futebol no recém-criado Colón Fútbol Club. Fica um ano e de lá parte para o extinto Libertad. Jogava nas duas laterais do campo, até avançar para o meio-campo.

Enquanto o jovem se firmava como uma promessa, o Nacional – considerado na época a principal instituição esportiva do país – começa a viver um novo momento. Sob o comando do presidente recém-empossado, José María Delgado, em 1911 o clube deixa de lado o elitismo e abre as portas para os jogadores vindos das camadas mais baixas da sociedade. Filho de um leiteiro e vindo do interior, Porte é contratado naquele mesmo ano.  

Registro de Abdón Porte na Asociación Uruguaya de Football. Foto: Reprodução/Trivela.

Não demorou muito para o jogador cair nas graças da torcida. Aliava potência, vigor físico e tinha no cabeceio uma de suas grandes qualidades. Combativo sem ser violento, era o expoente da garra charrua – a ideia de deixar tudo no campo e enfrentar qualquer adversário de igual para igual. Com o tempo, apoderou-se da volância e ganhou a faixa de capitão. Admirado pelos companheiros, Porte era também respeitado pelos adversários.

Pelo Bolso – como o Nacional é chamado – ele disputou 207 partidas e ganhou 18 títulos, incluindo quatro campeonatos uruguaios. Em 1917, conquistou o tri e a taça ficou no clube em definitivo, com direito a uma goleada de 4×0 frente ao arquirrival Peñarol, diante de 18 mil pessoas. Nas comemorações da vitória, carruagens levaram os jogadores até o estádio Grand Parque Central. Mais de três mil torcedores acompanharam os ídolos, segundo relato do programa Voces Anónimas, da emissora uruguaia Teledoce. Com a camisa da seleção, Porte ganharia ainda a Copa América do mesmo ano.

Jogava por amor, pela honra de defender a Celeste e o clube do coração. Para ele, não havia nada mais importante do que vestir a camisa do Nacional. Seu corpo, porém, logo seria as consequências de tanta dedicação e entrega.

Ocaso e tragédia no Gran Parque Central 

No início da Copa Albion, em 1917, contra o Belveder, Porte sofre uma grave lesão. Era uma época na qual não havia substituições. Para alguém como o capitão do Nacional, era impensável abandonar o campo e deixar o time com um a menos. Assim, ele atua durante 80 minutos visivelmente sem condições de jogo. O esforço para seguir ajudando os companheiros resultou na vitória, mas também custou um mês de recuperação. Era a primeira vez que ele ficaria tanto tempo longe da equipe.

Alguns meses depois, já no início de 1918, o Nacional contratou outro volante, Alfredo Sibecki, da seleção e vindo do Montevideo Wanderers. Do presidente Delgado, Porte recebeu a pior das notícias: a tarja de capitão tinha novo dono e ele passaria para o banco de suplentes. Um golpe duro demais para alguém que antes era um ídolo incontestado. Porte deixava de ser imprescindível naquilo que mais amava.

Em 4 de março de 1918, o Nacional venceu o Charley por 3×1 em uma partida amistosa. Após o jogo, como de costume, o elenco se reuniu para jantar. Porte havia jogado de titular, mas parecia triste. Ao irmão, que visitara pela manhã, teria confessado o porquê de sua melancolia. “Juan, a minha vida sem o Nacional não faz sentido”, conta o site oficial do clube.   

Após o jantar, ele tomou um bonde do centro de Montevidéu em direção ao Grand Parque Central. Com o estádio vazio, caminhou em direção ao meio do campo. Estava sozinho, era início da madrugada de 5 de março. No círculo central, ele se ajoelhou, sacou uma arma e disparou à queima roupa contra o próprio coração de jogador guerreiro e de torcedor apaixonado. Morreu ali mesmo, com apenas 25 anos e um casamento marcado para um mês depois. Seu corpo só seria encontrado na manhã seguinte por Severino Castillo, histórico funcionário do clube. Tinha a camisa cheia de sangue, um chapéu e duas cartas, segundo conta o livro ¡Golazo!: a history of Latin American football, de Andreas Campomar. Uma delas era endereçada ao presidente do clube e tinha um pedido especial: “Querido doutor José Maria Delgado. Peço a você e aos outros colegas da comissão que façam por mim como eu fiz por vocês: façam pela minha família e pela querida mãe. Adeus, querido amigo da vida.”

Além de cartola e médico, Delgado também era poeta, tendo, inclusive, ensinado o jovem humilde a ler e escrever. Assim, Porte quis expor em versos – assim como havia aprendido – todo o amor pelo clube. “Nacional, ainda em pó convertido e em pó sempre amante. Não esquecerei um instante o quanto te amei. Adeus para sempre”. Não havia ódio ou rancor. Apenas respeito e gratidão. Além da declaração, ele fez um último desejo: que seu corpo fosse enterrado no cemitério de La Teja, junto de Bolívar e Carlos Céspedes, dois ex-jogadores e ídolos do Nacional. 

Não demorou muito para a literatura abraçar a história. No mesmo ano da tragédia, o escritor uruguaio Horacio Quiroga publica Juan Polti, half-back, considerado por muitos o primeiro conto do futebol. Quando um garoto chega, por a ou por b, e sem preparo prévio, a provar dessa forte bebida de varões que é a glória, perde inevitavelmente a cabeça. Trata-se de um paraíso artificial demais para seu jovem coração. Às vezes perde algo mais, que depois se encontra na lista de disfunções. Assim foi o caso de Juan Polti, half-back do Nacional. Em matéria de treino para o jogo, o rapaz se esforçava de verdade. Tinha, além disso, uma cabeça muito dura, e punha o corpo rígido como um taco ao saltar, então jogava bilhar com a bola, lançando-a direto para dentro do gol”, começa o texto, escrito para a revista Atlántida

Eduardo Galeano, compatriota do jogador e um dos maiores autores da literatura latino-americana, também fez questão de contar o episódio em um de seus livros, Futebol ao sol e à sombra. “Abdón Porte defendeu  a camisa do Nacional do Uruguai durante mais de duzentas partidas, ao longo de quatro anos, sempre aplaudido, às vezes ovacionado, até que sua estrela se apagou”, começa ele em Morte no campo

Nos anos 70, em uma rara entrevista, o ex-jogador e amigo Luis Scapinachis, tentou dar alguma explicação para o inexplicável. “O desejo de sempre vestir a camisa do Nacional estava alojado em seu coração e em todo o seu ser e, quando suas pernas cheias de vitória começaram a fraquejar, diante da cruel perspectiva de ser eliminado do time, ele optou por se eliminar”. 

Mais de um século se passou e a memória do volante segue ainda mais viva, seja na leitura dos clássicos sobre o futebol ou no imaginário do torcedor. No Gran Parque Central, uma das tribunas leva o seu nome. Nos jogos, uma enorme bandeira é estendida com o rosto do jogador e os dizeres: “Por la sangre de Abdón” (Pelo sangue de Abdón).

Abdón Porte segue vivo entre os torcedores do Nacional. Foto: Wikimedia.

Não se deve jamais cultuar o ato, mas sim lembrar o ídolo. Alguém que fez do Nacional parte indissociável de sua vida. Um homem que viveu e morreu pelo clube.