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Aconteceu na escola: o futebol do futuro

Vitor Barros Latini "Tucano"

A disciplina de Educação Física, nas diversas realidades escolares existentes no Brasil, possui um imenso leque de possibilidades que coexistem e se complementam, como proporcionar um aparente simples desenvolvimento de um jogo, com fim em si mesmo, a intenções mais complexas e reflexivas, como auxiliar na formação de indivíduos corporalmente cultos.

Mas qual o real significado dessa concepção: um indivíduo corporalmente culto? Aqui, um relato de atividade que talvez traga luz a essa questão.

Trata-se de uma proposta desenvolvida em diferentes formatos com alunos do Ensino Fundamental II, ao longo das últimas décadas, em importantes escolas da cidade de São Paulo.

Tudo começa com os alunos logicamente praticando a modalidade de futebol, mas também aprendendo quanto aos fundamentos técnicos e táticos, regras e demais particularidades do esporte. São proporcionadas experiências competitivas, incluindo arbitragem e preenchimento de súmulas, assim como um aprofundamento teórico sobre o conceito de “competição” e o chamado “Esporte moderno”.

O “Esporte moderno” é estudado desde seu surgimento nas escolas inglesas do século XIX, com base na adaptação de atividades populares, ocorridas para atender novos propósitos. Seu desenvolvimento ao longo do tempo, as críticas que surgiram por conta de seu uso negativo, principalmente após a II Guerra Mundial e seu processo de democratização, quando o mesmo passa a ser compreendido, conforme Manoel Tubino, em suas três dimensões sociais: o esporte de rendimento, de lazer e educativo. Por fim, a ideia do esporte enquanto direito a ser exercido é compreendida. Até aqui, um processo longo, com duração de algumas aulas. 

Vale apontar a preocupação, sempre existente, de não se descaracterizar a disciplina com excessiva substituição de atividades práticas por aulas teóricas, por isso, boa tarde do trabalho de pesquisa e leitura de textos ocorreu paralelamente às aulas, por exemplo, como atividades preparatórias e para casa.

Nesse processo, dois textos são cruciais para o desenvolvimento do projeto, apresentando contrapontos importantes para o material analisado até o momento. O primeiro, intitulado “Ganhar e perder”, baseado nas palavras de Guillermo Brown – Jogos cooperativos: teoria e prática –, afirma que:

“Há muitos exemplos de cooperação como valor importante em muitas culturas. Terry Orlick pesquisou, em muitas partes do mundo, não somente o valor da cooperação, mas sua expressão nos jogos tradicionais dessas sociedades. Por exemplo, Orlick conta que, na sociedade Hanahan em Papua-Nova Guiné, não há palavra que signifique “ganhar”. Simplesmente não existem “ganhar” e “perder”. Se alguém faz algo bom, reconhece-se o desenvolvimento dessa destreza, e se não pode ser feito, alguém ajuda. Igualmente nas Filipinas, entre certas culturas indígenas, os jovens não compreendiam o jogo de basquetebol nas escolas porque, quando a defesa tentava roubar a bola, eles a entregavam.”

Você conhece o futebol do futuro? Foto: Patrick Schneider/Unsplash.

O segundo, “O Esporte do Futuro”, baseado nas palavras de Távola (1985), encontrado na Revista Mackenzie de Educação Física – Ano I, Número I, 2002, que diz: 

“O futebol do futuro será sem que o gol seja o único fator determinante da vitória e não haverá juiz. O momento do gol será festejado pelos dois times e cumprimentos aos autores. Nem será necessário a bola transpor a linha. Uma bela jogada de conclusão, mesmo que infeliz, será considerada meio gol pelo time adversário, que aceitará a qualidade do feito, e mandará anotar meio ponto. Haverá uma qualificação para a beleza das jogadas a valer pontos e dela participarão os dois times, mais empenhados em descobrir a beleza do que em evitá-la. O resultado final será a mescla do número de gols, como o de escanteios, o de jogadas consideradas belas e atitudes dignas de respeito. Os dois times se reunirão para proclamar os resultados e ambos comemorarão o fato de terem feito o espetáculo, aproveitando para verificar em que pontos melhoraram. No futebol do futuro, o adversário não servirá para ser superado ou superar, e sim para ajudar a conferir em que aspectos cada time superou-se (a si próprio e não o adversário). O adversário nem assim se chamará. Será o ‘solidário’. As notícias dirão: ‘A seleção brasileira solidarizou-se ontem com a da Alemanha na verificação dos pontos em que ambas progrediram. A do Brasil venceu a si mesma por três pontos e a da Alemanha empatou com seu desempenho anterior. Ao final, todos juntos comemoraram a alegria de compartilhar o esporte e de ajudar um ao outro na tarefa de autoavaliação’”. 

Ambos os textos, seguidos de pequenas produções por parte dos próprios alunos e conversas, por si só, já são polêmicos e significativos. No entanto, as experiências práticas do “Esporte do futuro”, de Távola, representam o grande momento reflexivo para os alunos. Divididos em grupos, as crianças e adolescentes definem os combinados e critérios de pontuação, inclusive criando a chamada “súmula solidária”, para registros dos detalhes das partidas ocorridas e suas avaliações, e jogam literalmente o futebol “sugerido” pelo autor.

Quase sempre, ao final da atividade, os relatos dos alunos são muito significativos e diversas opiniões surgem, como aqueles que não veem sentido no “Futebol do Futuro”, justamente pela ausência de competitividade, aqueles que encaram como mais uma possibilidade, diferente e divertida, e outros que, por fim, identificam-se com o esporte, até então, “odiado”, percebendo que essa prática pode ser diferente, enriquecedora e, por que não, também prazerosa.

Os indivíduos corporalmente cultos são esses, sujeitos de sua própria aprendizagem, que sabem fazer, entendem o que fazem e, acima de tudo, valorizam cada possibilidade de prática como um conteúdo da cultura corporal. A satisfação do educador vem da compreensão de que todos os três estão corretos.

Um pai, certa vez, disse: “Queria eu ter vivenciado, na minha infância, o ‘Futebol do futuro’. Certamente, estando em qualquer uma dessas posições mencionadas: exercendo o meu direito mais voltado ao esporte de rendimento, ao de lazer ou ao educativo – provavelmente – eu teria sido uma pessoa melhor na minha juventude”. Respondi: “Nossos filhos serão melhores! Afinal, esse é o nosso objetivo, não?”

Um relato, por acreditar no esporte, quando bem conduzido e pensado, como uma ferramenta transformadora.