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Afinal, o que é esse tal de “bom senso”

Luiz Carlos Ribeiro

Acaba de sair na mídia o manifesto do autodenominado Bom Senso F. C. Afinal, do que se trata? Será mais um sinal nebuloso de como estamos construindo a nossa democracia? Muito provável, e precisamos de alguma sensibilidade para percebermos isso.

Lembro-me que logo que saíram as primeiras notícias de atletas criticando o calendário esportivo do futebol, o Juca Kfouri fez severas observações, atribuindo a iniciativa ao sindicato dos atletas e acusando-o de nunca ter feito nada pelo interesse do atleta brasileiro.

Parece que foi uma análise precipitada. Até pode ser que o sindicato esteja apoiando, mas o movimento atual é uma iniciativa de alguns atletas sêniores do futebol brasileiro. O Kfouri mudou sua posição e parece apoiar o movimento.

Logo do Bom Senso F. C. (reprodução).

É notável como, depois da safra da democracia corinthiana, nos anos 1980, somente agora começam a surgir atletas fazendo manifestações políticas sobre o futebol. Ao longo dos anos 1990/2000 talvez tenha existido um ou outra manifestação, mas foi alguma voz isolada e silenciada pela euforia da valorização do jogador brasileiro no mercado internacional.

Mais recentemente, alguns fatos vêm acontecendo que podem estar contribuindo ao surgimento de crítica dos jogadores à organização do futebol nacional. Consideremos algumas hipóteses que, de forma não linear e simplista, podem nos ajudar a pensar o movimento atual.

A crise na economia europeia – principal mercado financeiro de futebol – é uma delas, pois colocou algum freio na espetacularização dos altos salários pagos aos jogadores, como por exemplo a imposição do fair play financeiro aos clubes europeus. Ao mesmo tempo, o empobrecimento do cidadão médio europeu começa a inibir o exibicionismo do luxo em que vivem certos jogadores. De algum modo essa exposição é uma forma de escárnio ao empobrecimento da maioria dos torcedores europeus. Um bom exemplo é a relação de elogio e crítica à postura do português Cristiano Ronaldo. Como jogador é idolatrado, mas é criticado quando expõe na mídia sua vida luxuosa e não manifesta nenhum sentimento com relação ao empobrecimento que vivem hoje os cidadãos do seu país.

Enquanto essa pobreza era restrita ao circuito dos já empobrecidos ou da maioria imigrante de origem latina, africana ou do leste europeu, o espetáculo da gastança parecia não incomodar. Mas agora a proletarização atinge a classe media, que compõe a maioria da população europeia. Atinge o seguro social dos aposentados, não há emprego nem expectativa para os jovens. O clima é de depressão coletiva e têm aumentado os casos de suicídios. Enfim, vários são os fatores de crítica ao autismo social em que vivem certos jogadores e dirigentes de ponta do futebol mundial.

Nesse contexto localizamos um outro fenômeno, que é o do retorno ao Brasil de vários jogadores que passaram pela experiência da sociedade europeia, tais como, Juninho Pernambucano, Alex, Pato e muitos outros. Alguns ainda ativos no esporte, mas que não precisam provar mais nada. Já constituíram certo patrimônio financeiro, alguns sabem que estão em fim de carreira como atletas, logo prescindem da negociação com os donos dos clubes, empresários ou de patrocinadores. Outros, há mais tempo inativos, têm igualmente se posicionado politicamente, mesmo que de maneira diferenciada e polêmica, como expressam os casos de Romário, Ronaldo e Bebeto.

Ronaldinho Gaúcho e Alexandre Pato na seleção brasileira. Ambos retornaram ao Brasil recentemente. Foto: Wagner Carmo – VIPCOMM.

O fato é que, a posição de sêniores dá a esses atletas a autonomia de dizer o que pensam. E de agir. Em especial em um mundo carente de conteúdos políticos autênticos. A direita clássica está calada (mas não morta!), pois o seu projeto neoliberal faliu. Vide o empobrecimento da classe media nos países ricos. A esquerda tradicional continua reproduzindo discursos formais e vazios de “luta de classes” e de derrubada da direita e do imperialismo. E a social-democracia – no Brasil, o PSDB ou o PT – fica no balanço entre cumprir uma agenda de modernização capitalista e atender problemas mais crônicos da pobreza. Na Europa nem isso ela está conseguindo. É o que estamos chamando de esgotamento das instituições e das ideologias. Claro, para não se reproduzir generalizações vazias, cada sociedade e cada tema acima elencado precisam ser analisados com mais cuidado.

Outro fator tem sido as ações do poder público – na Europa e no Brasil – no sentido de estabelecer algum tipo de controle sobre o sistema futebolístico como os exemplos, no Brasil, da Lei Pelé e do Estatuto do Torcedor.

E, mais recente, a medida aditiva à Lei Pelé, que discute no Parlamento por um fim às eternas reeleições de dirigentes de clubes e entidades, com estatutos com regras de gestão democrática e controle social interno, entre outras medidas de transparência política e financeira.

O paradoxo a isso tudo é a contramão da gastança do dinheiro público na construção de estádios – cuja maioria se transformará em elefantes brancos após a Copa de 14 – à vistas grossas dos governos e dos Tribunais de Contas.

Em síntese, o que quero dizer é que esses e outros fatores vem reclamando o posicionamento público de jogadores a certos descaminhos que vive o futebol brasileiro.

Uma leitura primeira do manifesto dos Bom Senso F.C. nos permite algumas considerações. No limite a postura dos jogadores retoma a velha questão da modernização do futebol, com uma proposta de racionalização do calendário. Essa proposta existia de forma periférica no discurso do Clube dos 13, no final dos anos 1980. Periférica por que para aqueles dirigentes racionalizar o calendário era uma caminho para constituir uma liga independente, restrita a um número reduzido de clubes. Nenhuma palavra havia em relação aos mais de 90% de clubes que ficariam de fora e talvez por isso a proposta nunca saiu do papel. Até por que a permanência no poder dos dirigentes das federações estaduais, da CBF e, no limite, da própria FIFA, é politicamente dependente desses 90% de excluídos.

Aliás, o dilema entre a elitização dos clubes ricos e o populismo em relação a maioria empobrecida dos clubes é o drama shakespeariano que vivem os dirigentes das entidades do futebol nacional e mundial, desde as primeiras gestões de Havelange na FIFA, no início dos anos setenta.

O ex-presidente da Fifa João Havelange. Foto: José Cruz – Agência Brasil.

Desse modo, a proposta atual dos atletas também faz rápida referência a essa massa de clubes menores, mas de forma tangencial.

A iniciativa é, sem dúvida, louvável por possibilitar abrir a discussão, mas ela não irá progredir sem levar em conta dois fatores que ocupam posições muito distintas no cenário futebolístico brasileiro: a força da rede Globo de televisão que no limite é quem organiza o futebol nacional e, na outra ponta, a massa de clubes médios e pequenos. Apesar do documento dos atletas manifestar preocupação com os clubes pequenos, será preciso muito engenharia política para conciliar os interesses dos grandes clubes e as redes de TV – que tem interesse manifesto na elitização do futebol – e da massa restante, com suas armas específicas de barganha. A questão é, em que medida racionalizar o calendário – proposta justa por vários aspectos – não fossiliza ainda mais a vida dos pequenos clubes?

No interior da questão do calendário outros temas são trazidos à discussão, tais como férias, período de pré-temporada, fair play financeiro, garantias trabalhistas e participação dos atletas nos conselhos técnicos das federações.

O ex-jogador de futebol Romário visita a Câmara dos Deputados. Foto: José Cruz – Agência Brasil.

O Deputado Romário já encabeça na Câmara Federal a discussão, e o movimento tem recebido apoio por meio de pronunciamentos como o do presidente da CBF e seu embaixador, Ronaldo Fenômeno.

A escolha do nome do movimento, bom senso, e os apoios que tem recebido, indicam não um embate litigioso, mas um longo processo de negociação.

Esse texto foi originalmente publicado no blog do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade e cedido para publicação nesse espaço.

Como citar

RIBEIRO, Luiz Carlos. Afinal, o que é esse tal de “bom senso”. Ludopédio, São Paulo, v. 52, n. 4, 2013.