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Africa United

Leandro Ginane

A Copa do Mundo da Rússia trouxe à tona um novo estilo de futebol, mais veloz, forte e tático, e teve como grandes destaques as seleções da Bélgica e da França. Em ambos os casos, os filhos de imigrantes africanos de países como Congo, Marrocos, Mali, Senegal, Argélia, entre outros foram os protagonistas.

Umtiti, que fez o gol da vitória francesa na semifinal, é camaronês. Mbappé, Pogba, Lukaku engrossam a lista de jogadores que superaram as dificuldades de serem filhos de imigrantes e chegaram à seleção de seus países. Um olhar superficial sobre essa questão sugere que França e Bélgica integram as pessoas independente de sua origem racial, mas ao aprofundar a análise nota-se que a política de imigração impõe a estas pessoas situações de pobreza e preconceito, as quais são repercutidas pela mídia, como disse o artilheiro da Bélgica na Copa:

“Quando as coisas vão bem, leio os jornais e eles me chamam de Romelu Lukaku, o atacante belga. Quando as coisas não vão bem, eles me chamam de Romelu Lukaku, o atacante belga de ascendência congolesa”.

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Lukaku pela Bélgica em 2018, durante a Copa do Mundo. Foto: Дмитрий Садовников – soccer.ru.

Curiosamente, Lukaku tem como desejo encontrar o brasileiro Adriano Imperador, nascido e criado nas favelas cariocas.

A seleção francesa, campeã da Copa da Rússia, possui apenas quatro jogadores que não se enquadram neste perfil. Segundo Marine Le Pen, essa seleção não representa o país:

“Quando vejo essa seleção, eu não vejo a França representada. Nem a mim mesmo”, afirma a líder da extrema direita no país.

Estes jogadores sentem o preconceito na pele, que ocorre também dentro de campo, onde atletas brasileiros e companheiros de clube de Mbappé, no PSG, mesmo tendo superado dificuldades semelhantes às dele, tentam menosprezar o talento do jovem francês de dezenove anos ao considerá-lo “apenas rápido” e ao compará-lo a Donatello, uma das tartarugas ninja mutantes.

A visibilidade que a Copa do Mundo deu a estes atletas deve provocar uma reflexão à luz da questão dos imigrantes que buscam melhores condições de vida nesses países. Isto precisa se tornar um tema a ser explorado pela mídia e pelos organizadores do evento, dando atenção às histórias de superação como a de Lukaku, que via sua mãe misturar água ao leite para que durasse toda a semana.

A entrevista do atacante belga ao site The Player’s Tribune é reveladora e mostra o quanto esses descendentes de africanos sofrem para ocupar um lugar ao sol, semelhante à história de milhares de brasileiros espalhados pelo mundo.