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Agô, o futebol e o esporte negro quer entrar

Antonio Carlos Pinheiro de Camargo

Estamos às vésperas de receber os dois maiores eventos esportivos do planeta, a Copa do Mundo de Futebol, há sete meses, e a cerca de mil dias das Olímpiadas/Paralimpíadas de 2016, megaeventos que são alvo de muitos países que desejam sediá-los. E o Brasil assumiu uma grande responsabilidade por ter que organizar ambos em um intervalo de dois anos, demonstrando que evoluiu no cenário político internacional, fruto do trabalho de Luiz Inácio Lula da Silva e Orlando Silva, e que agora está nas mãos da Presidenta Dilma Rousseff e do atual Ministro do Esporte, Aldo Rebelo.

O futebol é o esporte mais praticado no país, em seus chãos de terra batida (várzea), campinhos, quadras e grandes campos gramados, e a Copa do Mundo desembarca por aqui após 63 anos. A última vez que sentimos de perto as nuances desse congraçamento foi em 1950, época em que a televisão ainda não ditava as regras do jogo, mas o futebol já era utilizado como instrumento político. Isso se evidencia com a derrota da seleção brasileira na final da competição. Perdemos para o Uruguai pelo placar de 2X1, com um gol a 10 minutos do final da partida, no conhecido Maracanaço. O que marcou essa peleja foi esse viés. Para que o país sede não fosse visto como derrotado, elegeu-se um culpado para isso – o goleiro brasileiro Moacir Barbosa Nascimento (o Barbosa), ironias do destino, Barbosa tinha o mesmo sobrenome daquele que viria a ser considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, Edson Arantes do Nascimento (Pelé) – Barbosa foi acusado de ter falhado no lance. E sua vida, tanto pessoal quanto profissional, nunca mais seria a mesma dali em diante, Barbosa morreu em 2000, aos 79 anos, em Santos, onde vivia recluso ao lado de uma filha – sem conseguir se livrar da marca de vilão do Maracanaço. Isso demonstra que a elite dominante na época e o governo de Eurico Gaspar Dutra (PSD) utilizaram um negro como anti-herói (racismo) para diminuir o impacto causado pela derrota.

Pouca coisa mudou no esporte brasileiro, e principalmente no futebol, na relação do negro com o mesmo. O Brasil, apesar dos avanços nos últimos dez anos, no combate as desigualdades sociais e principalmente raciais, segue carregando a marca da falsa democracia racial. A Copa de 2014 e as Olimpíadas/Paralimpíadas de 2016 são grandes desafios para nós, mas também oportunidades únicas de ascensão, principalmente nas questões raciais, de gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Importantes estrategicamente, indo além do campo das competições.

Integrantes do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo 2014 concedem entrevista coletiva após reunião de diretoria do COL. Na foto, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke; o presidente do COL, José Maria Marin; e o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil.

Devemos aproveitar que 63% do povo brasileiro apoia a realização da Copa em nosso território, e que também se preocupam com a questão de superfaturamento, de obras, violência e criminalidade, as duas últimas atingindo diretamente nossa juventude negra. E o futebol deve ser mais que um esporte, tem o poder de combater essa realidade, sendo utilizado como plataforma de luta social e de inclusão desses jovens.

O futebol é referência para essa juventude desde o início do século passado com o primeiro negro que se destacou nos campos tupiniquins, Arthur Friedenreich, filho de uma lavadeira negra e de um comerciante alemão; E depois vieram outros como Leônidas da Silva, o Diamante Negro, Fausto, Domingos da Guia, e tantos outros jogadores negros que colocaram o Brasil no topo do mundo.

Os megaeventos que se aproximam deixarão legados para o Brasil, oferecendo vantagens paras as cidades e o país-sede. Esses legados deixam uma herança e provocam mudanças com benefícios econômicos e principalmente sociais, causando impactos positivos, de longa duração, influenciando vidas e a própria cultura do país, ou seja, a Copa e as Olimpíadas/Paralimpíadas significam muito mais do que estádios e ginásios.

Obras de mobilidade urbana em São Paulo. Foto: Delfim Martins – Portal da Copa – ME.

Outro ponto a ser destacado é fomento ao crescimento econômico, que provocará a redução das desigualdades sociais, com a criação de novos empregos, novas oportunidades de empreendedorismo, principalmente na economia criativa e serviços inovadores, proporcionando a valorização da identidade e autoestima nacionais e regionais.

Dessa maneira se faz urgente a aplicação do Capitulo VII, da Lei Geral da Copa – Lei 12.663, de 5 de junho de 2012, que trata das Campanhas Sociais nas Competições. Conforme artigo 29 – O poder público poderá adotar providências visando à celebração de acordos com a FIFA, com vistas à: I – divulgação, nos Eventos: a) de campanha com o tema social “Por um mundo sem armas, sem drogas, sem violência e sem racismo”; e III – divulgação da importância do combate ao racismo no futebol e da promoção da igualdade racial nos empregos gerados pela Copa do Mundo. Artigo que não foi aplicado na Copa das Confederações e na Jornada Mundial da Juventude, nesse ano, como previsto na lei.

Esse artigo foi defendido pela UNEGRO na III CONAPIR – Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, no início de novembro, através da proposta de Criação de Comissões Permanentes de Combate ao Racismo em toda e qualquer atividade esportiva, oriunda da Conferência do Estado de São Paulo. Já houve a sinalização da SEPPIR – Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial junto ao Ministério do Esporte, conforme fala da Ministra Luiza Bairros: “Já passou da hora de uma mobilização contra o racismo no futebol do Brasil. Temos alertado para a necessidade de efetivamente se fazer uma campanha no Brasil em preparação para a Copa contra o racismo no futebol. Queremos mostrar que o esporte é um exemplo de que a diversidade só ajuda a excelência… Não dá para ter racismo onde você depende de todo mundo, ainda mais num esporte onde o negro é uma excelência”.

Presidenta Dilma Rousseff durante a 3ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial – 3ª Conapir. Foto: Valter Campanato – Agência Brasil.

Um dos passos para a efetivação se deu em março de 2013, com assinatura do Memorando de Entendimento sobre Cooperação para apoiar a Organização de Grandes Eventos Esportivo Mundial assinado entre o Governo Brasileiro e o Governo dos Estados Unidos, recordando seus compromisso anterior refletido no Plano de Ação Conjunto para a Eliminação da Discriminação Étnico-Racial e a Promoção da Igualdade, assinado em Brasília, em 13 de março de 2008.

E mais recentemente nas assinaturas de Protocolos de Intenção estabelecendo colaborações Federal-Estaduais promover a inclusão racial para a Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016, no Seminário “Promoção do Empreendedorismo e da Igualdade Racial no Contexto dos Grandes Eventos Esportivos”, realizados nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro, em outubro último, desenvolvidos como uma iniciativa do Plano de Ação Conjunto Brasil-Estados Unidos para a promoção da igualdade étnico-racial (JAPER); e do Memorando de Entendimento sobre Cooperação para Apoiar a Organização dos Grandes Eventos Esportivos Mundiais.

Conforme o unegrino Alexandre Braga, em artigo publicado no Correio Brasiliense, em 18 de outubro de 2011: “O esporte na comunidade negra tem função estratégica bem diferente do que nas camadas burguesas ou mais endinheiradas da sociedade. Nestas, o esporte é usado como instrumento estético, de embelezamento e proteção contra o envelhecimento natural corpo numa repetição da antiguidade clássica. Naquelas, o esporte foi descoberto e declarado como rota para a superação da exclusão social e racial, em que a tonalidade preta da cor da pele era indício de garra, virilidade, condicionamento físico, porém de forma guetizada e recheada de tantos estereótipos como aberrações que entraram para história. A grande visibilidade que os atletas negros e negras têm em determinados esportes é fruto não de oportunidades democráticas, até porque somente agora elas começam a funcionar de fato, mas de habilidades pessoais construídas numa enorme capacidade de superação das mais penosas dificuldades. A ocidentalização da maneira de ser e ver das pessoas, ou seja, macho, branco, católico, heterossexual se espraiou e se difundiu para a grande parte das sociedades mundiais, enquanto uma concepção de alteridade foi atribuída para aqueles que fugissem a esses padrões preestabelecidos, e, como consequência, remetidos a lugar diminuto no cenário social”.

A Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos/Paralímpicos de 2016 nos propiciam uma oportunidade histórica de ampliação e concretização dos direitos de cidadania, alavancando o esforço continuo empreendido pelo movimento negro brasileiro, para a superação da pesada dívida racial que marca a nossa sociedade.

Deixo uma reflexão. Será que alcançaremos a excelência no combate ao racismo no esporte com o empoderamento dos negros, através de cargos de gestão em clubes, federações, confederações, ou encontraremos novamente um algoz negro caso o Brasil não seja campeão na Copa ou não alcance o número de medalhas que se espera nos Jogos Olímpicos/Paralímpicos? Banzar.

Antonio Carlos é Gestor Esportivo – Top Manager da Empresa KF Sports Elaboração de Projetos Esportivos e Culturais Execução de Eventos Esportivos e Culturais. Graduado em Gestão do Esporte pela Faculdade Superior do Esporte – Universidade São Marcos. Cursa Relações Internacionais na Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – Especialização em Projetos e Eventos pelo Ministério do Esporte Membro da UNEGRO – União de Negros pela Igualdade Criador do primeiro blog de gestão esportiva do Brasil.