133.13

É preciso lembrar sempre que nosso futebol é Aldir Blanc também

Luis Eduardo Veloso Garcia

Blanc: dois pra lá, três pra cá  – por Paulo-Roberto Andel …

I know, my soul,
Romário em frente ao gol

Aldir Blanc[1]

Por ser uma obra calcada no cotidiano urbano, especificamente de uma cidade de um país do qual o futebol é um elemento constituinte do dia a dia, os textos de Aldir Blanc trabalhavam com o futebol de diversas maneiras, desde seu uso como temática direta, ou de construção de frases que fazem parte deste universo futebolístico mas colocadas em outras contextualizações, até as citações constantes de grandes personagens, jogadas e times que pertencem à mítica construída do imaginário futebolístico brasileiro.

Começando pelas crônicas, é possível encontrar somente na produção publicada em livros um número muito grande das quais o futebol aparece de alguma forma, seja na temática ou na linguagem deste esporte. Entre estas crônicas, algumas são presenças constantes em diversas coletâneas que tenham futebol e literatura como abordagem central, entre elas, “Artistas da Rua Futebol e Regatas”, publicada na antologia Paixão e Ficção – Contos e Causos de Futebol, organizada por Luis Pimentel.

Destacam-se em suas publicações no gênero outras obras como “Sina”, uma homenagem ao grande goleiro Barbosa; “À sombra das goiabeiras em flor” e “Cachorrada fatal”, em que o capitão Bellini se encontra no centro de ambas as tramas; “Uma última palavra”, onde vemos sua perspectiva de um Clássico dos Milhões (Flamengo x Vasco); “Não interrompe, pô!”, na qual ele declarava toda sua admiração pelo arrasador Expresso da Vitória vascaíno; “A copa e a cópula”, em que faz um paralelo entre o campeonato mundial e os relacionamentos; e “Até Morrer”, a crônica em que ele buscou trazer as principais memórias que carregou na vida com esse esporte, deixando claro que iria “torcer até morrer”.

Fora as crônicas com o futebol publicadas em livro, temos também aquelas que apareceram nos diversos jornais e revistas em que Aldir Blanc colaborou em sua carreira, incluindo o último texto que escreveu, “Estádio Aldir Blanc”, que não foi publicado quando ainda era vivo.

No caso das canções, observa-se o espaço em que a obra dele mais se popularizou, conseguindo, através de gravações de sucesso de João Bosco, Elis Regina, Ivan Lins e tantos outros nomes, marcar presença importante na história de nossa música brasileira. Nesta produção, o número de referências ao futebol também mostra-se extenso, com diversos exemplos conhecidos de letras num universo de mais de 450 canções registradas. Em toda coletânea que envolva a música e o futebol em nosso país, o nome de Aldir Blanc destaca-se, sendo inclusive um capítulo inteiro do livro Futebol – No País da Música (2009), de Beto Xavier, além de aparecer em diversas citações da obra A Presença do Futebol na Música Popular Brasileira (2010) de Assis Ângelo.

Entre as parcerias mais conhecidas do autor em que o futebol está presente, temos os clássicos compostos com João Bosco, como “Incompatibilidade de Gênios”, canção que retrata um casal em pé de guerra em que para provocar o homem a mulher insiste não deixá-lo escutar o jogo de sua grande paixão, o Flamengo; “De Frente pro Crime”, canção construída em cima de dois famosos bordões do futebol imortalizados pelo narrador Januário de Oliveira – o “de frente pro crime” do título e o “tá lá mais um corpo estendido no chão” – e que fazem um paralelo de uma situação da violência urbana através de referências ao futebol; “Gol Anulado”, letra que aponta uma analogia entre um amor perdido e a sensação de um gol anulado; e “Linha de Passe”, da qual a narração de várias situações que se completam entre si, como o samba e a feijoada, recebem a devida comparação com a tabelinha de uma linha de passe construída por um time[2].

Com Guinga, temos canções como “Par ou Ímpar”, que conta a história de um militar ex-torturador do período da Ditadura nacional que ainda repete seus atos de brutalidade dentro das peladas de futebol que disputa, história esta baseada numa figura real; ou “Yes, Zé Manés”, em que a valorização da cultura brasileira passa pela referência ao nosso esporte de um “Romário em frente ao gol”, sempre mortal, nunca perdendo para seus adversários estrangeiros[3].

Outras parcerias importantes em que o futebol se faz presente e que podemos exemplificar encontram-se nas canções feitas com craques como Djavan, na canção “Êxtase”, da qual um dos retratos da sensação de êxtase é justamente a comemoração de um gol do Vasco no meio da torcida; e com Moacyr Luz, na canção “Mandingueiro”, em que o futebol aparece, de novo, através da representatividade do valor nacional que carrega, dando “olé nos gringo”, como diz a letra.

Sem dúvida um dos casos mais famosos de canção diretamente relacionada ao futebol, embora pouca gente saiba, passa pela produção de Aldir Blanc, que é o compositor do tema das transmissões do futebol da TV Globo, chamado “Coração Verde-Amarelo”, feito em parceria com Tavito para a Copa do Mundo de 1994 nos EUA, e que acabou se tornando a vinheta usada até hoje em qualquer comercial deste canal quando o assunto é jogo da Seleção Brasileira. 

O futebol não se limitou somente às crônicas e canções de Aldir, pois no único livro de literatura infantojuvenil do autor a trama inteira é construída em relação a este esporte, aparecendo já no título da obra, que é uma referência clara a uma das mais conhecidas expressões do futebol criada pelo radialista Benjamin Wright: Uma Caixinha de Surpresas (2010). Construído tanto na significação dramática que este esporte pode refletir – nas palavras do próprio autor na introdução do livro, “um instrumento de amizade, compreensão e autossuperação” – quanto no formato escolhido, numa divisão por capítulos nomeados de maneira que somente um conhecedor do esporte compreenderá (“primeiro tempo”, “intervalo – os principais lances”, “segundo tempo”, “prorrogação”), aqui, também, o espaço do cotidiano relacionado ao subúrbio carioca é observado pelos jogos e brincadeiras de rua das duas crianças retratadas, Condensado e Cigarrilha.

Este esporte consegue cumprir um importante papel em nossa literatura para as crianças, pois através de sua popularidade ele encontra um caminho para atingir, com a proximidade do dia a dia, as emoções e cenas que fazem parte da vida do público-alvo desta literatura.

Covid 19 leva aos 73 anos o compositor e escritor Aldir Blanc deixando obras como o” Bebado equilibrista” entre outras (Rio de Janeiro RJ 04 05 2020). Foto: Twitter

Temos ainda uma pequena obra de aforismos chamada Guimbas, lançada em 2008, que, como não poderia deixar de ser, tem vários pensamentos relacionados ao futebol. Tais aforismos que encontram a temática deste esporte na obra são marcados pela proximidade que estes têm com as máximas tão comuns ao esporte bretão[4]. A busca pelo efeito humorístico é outra marca destes aforismos, como podemos ver nos exemplos a seguir presentes no livro: “Na segunda-feira é fácil reconhecer o sujeito que saiu do Maracanã no domingo anterior, encheu os cornos e se meteu numa discussão sobre o resultado do jogo Vasco X Flamengo. É o que tem 12 pontos na testa” (BLANC, 2008, p.23); “Nos primórdios do nobre esporte bretão, airbag era a expulsão do ar, quando a bola atingia, na barreira, o saco do zagueiro” (Idem, ibidem, p.52) ou “Os torturadores são volantes de contenção políticos” (Idem, ibidem, p.81).

Por último, e justamente pela relação ainda mais complementar com o futebol, destacamos o livro Vasco – A Cruz do Bacalhau (2009), feito em parceria com o jornalista e historiador José Reinaldo Marques, e que tem como principal intuito, reconstruir a história do clube de coração de Aldir Blanc, o Clube de Regatas Vasco da Gama. Apesar do conteúdo histórico da formação e da trajetória do time no decorrer de suas décadas ser devidamente respeitado, o autor optou também em outros trechos da obra por contar causos famosos do clube que nem sempre podem ser confirmados historicamente, mas que fazem parte da memória dos torcedores, como lendas sobre jogadores, torcedores ilustres e outras coisas do tipo.

Portanto, seja em seus livros de crônicas, nas letras das canções de grande destaque, na literatura infantojuvenil, na produção aforística, ou até na obra “historiográfica vascaína”, a produção de Aldir Blanc fez do futebol não só um tema recorrente capaz de convergir com o retrato do cotidiano urbano nacional, mas, acima de tudo, um elemento inerente do espaço que define sua obra.

Lembrar a produção futebolística dele é fazer jus a honra que ele deu a esse esporte deixando seu olhar atento em todos os caminhos artísticos que seguiu, ao ponto de ser lembrado por outro craque da crônica, o colorado Luis Fernando Veríssimo, como um dos motivos que pode – e deve, sempre – dar orgulho para um clube tão importante do nosso futebol que é o Vasco da Gama:

É preciso lembrar sempre que o

Vasco da Gama não é o Eurico Miranda:

É sua história e suas glórias,

Incluindo o Aldir Blanc.

(Luis Fernando Veríssimo)

 

Notas

[1] Trecho presente na canção Yes, Zé Manés (1993), feita em parceria com Guinga.

[2] As análises de todas essas canções citadas encontram-se pormenorizadas no capítulo intitulado “Bosco e Blanc”, presente no livro Futebol – No País da Música (2009), de Beto Xavier.

[3] Estas duas análises também podem ser vistas no livro Futebol – No País da Música (2009), de Beto Xavier.

[4] Sobre as máximas do futebol, recomenda-se a leitura do artigo “Futebol, Linguagem e História”, de Raul Milliet Filho, publicado nos anais do XIX Encontro Regional ANPUH –SP – 2008.

 

Referências
(para conhecer o futebol pela visão de Aldir Blanc)

Crônicas:

BLANC, Aldir. “Sina”. In:_________. Brasil passado a sujo: a trajetória de uma porrada de farsantes. São Paulo: Geração, 1993. p. 59-61

BLANC, Aldir. “Á sombra das goiabeiras em flor”. In: _________. Rua dos Artistas e transversais. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 17-19

BLANC, Aldir. “Cachorrada fatal”. In: _________. Rua dos Artistas e arredores. São Paulo: Codecri, 1978. p. 43-45.

BLANC, Aldir. “Uma ultima palavra”. In: _________. Rua dos Artistas e transversais. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 336-338

BLANC, Aldir. “Não interrompe, pô!”. In: _________. Rua dos Artistas e transversais. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 89-91.

BLANC, Aldir. “A Copa e a cópula”. In: _________. Brasil passado a sujo: a trajetória de uma porrada de farsantes. São Paulo: Geração, 1993. p. 77-78.

BLANC, Aldir. “Artistas da Rua Futebol e Regatas”. In: _________. Rua dos Artistas e transversais. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 117-119.

BLANC, Aldir. “Até Morrer”. In: _________. Brasil passado a sujo: a trajetória de uma porrada de farsantes. São Paulo: Geração, 1993. p. 71-75.

 

Canções:

BLANC, Aldir; BOSCO, João. De frente pro crime.  Rio de Janeiro. RCA, 1975.

BLANC, Aldir; BOSCO, João. Gol Anulado.  Rio de Janeiro. RCA, 1976.

BLANC, Aldir; BOSCO, João; EMILIO, Paulo. Linha de passe.  Rio de Janeiro. RCA, 1979.

BLANC, Aldir; DJAVAN. Êxtase.  Rio de Janeiro. EMI-Odeon, 1980.

BLANC, Aldir; GUINGA. Par ou ímpar.  Rio de Janeiro. Velas, 1993.

BLANC, Aldir; GUINGA. Yes, Zé manés.  Rio de Janeiro. Caravelas, 2001.

BLANC, Aldir; LUZ, Moacyr. Mandingueiro.  Rio de Janeiro. Dabliú, 1998.

BLANC, Aldir; TAVITO. Coração verde amarelo.  Rio de Janeiro. Som Livre, 1994.

 

Livro de aforismos

BLANC, Aldir. Guimbas. Rio de Janeiro: Desiderata, 2008.

 

Livro infanto-juvenil:

BLANC, Aldir. Uma caixinha de surpresas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010.

 

Livro sobre a história do Vasco:

BLANC, Aldir. Vasco: A cruz do bacalhau. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

Como citar

GARCIA, Luis Eduardo Veloso. É preciso lembrar sempre que nosso futebol é Aldir Blanc também. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 13, 2020.