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Alfonso XIII, a monarquia espanhola e o futebol

Copa Além da Copa

O futebol espanhol é intimamente ligado à monarquia. Você pode encontrar referências a isso prestando apenas um pouco de atenção ao assistir a jogos do país ibérico: a principal copa de clubes se chama “Copa del Rey”, muitos dos clubes mais tradicionais possuem um “Real” no nome, coroas são presença quase que garantida em distintivos. De onde, afinal, vem toda essa devoção a uma família que, por boa parte do século XX, esteve em exílio?

Esse texto é um complemento ao vigésimo sexto episódio do podcast Copa Além da Copa. O tema é a história do País Basco, seus clubes e o derby entre Athletic Bilbao e Real Sociedad. Você pode ouvi-lo clicando aqui.

Alfonso XIII já nasceu Rei da Espanha. Seu pai, Alfonso XII, morreu enquanto Maria Cristina da Áustria estava grávida do herdeiro ao trono. Ela serviu como regente até seu filho alcançar 16 anos, idade necessária para reinar por lá.

O dia finalmente chegou em 1902. Celebrações foram feitas por toda a Espanha, afinal, o país voltaria a ter um rei de fato, plenamente capaz de exercer as suas funções. Dentre elas, o primeiro grande campeonato de clubes do país: vinte anos após o futebol chegar na terra da paella, finalmente uma competição organizada, ainda que em formato de mata-mata, mostraria qual era o melhor entre os jovens clubes espanhóis. O nome não poderia ser outro: Copa de la Coronación.

A Copa de la Coronación foi vencida pelo Bizcaya, time que foi resultado de duas agremiações de Bilbao juntando forças para representar a cidade. Em 1903, com a coroação devidamente resolvida, não haveria porque a competição manter tal nome. Mudou para Copa del Rey.

O Athletic Bilbao campeão da Copa del Rey de 1903. Fonte: Wikipedia.

Por receber tantas homenagens do popular novo esporte, Alfonso XIII logo tratou de se aproximar dos campos de futebol. Não se sabe se isso aconteceu por haver um interesse genuíno ou pelo monarca ter sido o primeiro a perceber o quanto poderia aproveitar essa nova paixão popular para uso político. Mas, de uma forma ou de outra, aos poucos as ligações entre coroa e clubes foram se estreitando.

O nome “Real” – permissão da coroa

O futebol chegou de maneira bastante tardia à cidade de La Coruña. Em 1902, José Maria Abalo voltou de seus estudos na Inglaterra com bolas e chuteiras na bagagem, história sempre tão repetida. Com o esporte já a todo vapor em outras regiões do país, não demorou para que fosse fundado um clube por lá: o Deportivo La Coruña.

Os fundadores tiveram uma grande ideia: convidar o Rei, que já havia demonstrado interesse pelo esporte, para ser presidente de honra do clube. Alfonso XIII ficou bastante satisfeito, e em troca concedeu o título de “Real” à equipe da Galícia. Surgia assim o Real Club Deportivo La Coruña. E, mais do que isso, uma tradição que se espalharia por toda a Espanha.

Os próximos clubes a conseguirem a honraria seriam, em 1910, a Sociedad de San Sebastián, hoje Real Sociedad, e a Sociedad de Santander, antecessora do Real Racing Club de Santander.

Em seguida, em 1912, foi o Club Deportivo Español de Barcelona, hoje mais conhecido como Espanyol, e, em 1914, o Vigo Sporting Club, hoje Real Club Celta de Vigo, e o Betis Foot-Ball Club, hoje Real Betis Balompié. O Real mais famoso, de Madrid, só conseguiria a permissão de Alfonso em 1920. 

Alfonso XIII. Foto: Reprodução.

Cabe registrar que, em todos esses casos, os clubes precisaram de alguém na corte espanhola que intercedesse por eles, como uma espécie de indicação ou validação junto ao Rei, que se tornava então presidente de honra das equipes. Além do nome ligado à realeza, os clubes ganhavam o direito também de usar o símbolo da coroa em seus distintivos.

Identidade local contra o centralismo

Por trás do aparentemente simples ato de colocar um “Real” em seu nome e uma coroa em seu distintivo, está uma questão que motiva até hoje movimentos separatistas na Espanha: a ideia de que abraçar uma nacionalidade espanhola é renegar a história e a cultura locais.

Podemos exemplificar isso com o caso dos clubes da Catalunha: o FC Barcelona, fundado em 1899, e o Español, fundado no ano seguinte. Os barcelonistas, que reivindicavam representar a cultura catalã, viram o surgimento do rival com o nome “espanhol” como uma provocação, renegando o regionalismo que era tão presente em seu próprio clube.

Além disso, a Catalunha tinha uma ideia de ser cosmopolita, aberta à modernização europeia, considerando o governo central espanhol excessivamente retrógrado e conservador. O Barcelona defendia essa bandeira, não à toa tendo sido fundado por um suíço, Joan Gamper, cujo nome real era Hans Gamper.

O Español foi na contramão com uma regra: não contar com jogadores estrangeiros. E, diferentemente dos clubes bascos, acostumados a jogar apenas com bascos,  o “estrangeiro” seria somente quem não fosse espanhol – o que automaticamente igualava catalães, bascos, galegos e todos os que haviam nascido no território do país.

Portanto, ao tomar a iniciativa de solicitar a Alfonso XIII o título de “Real” para o clube, os diretores do Español abraçavam essa cultura espanhola centralista e jogavam lenha na fogueira da rivalidade com o Barcelona, que preferia sua identidade local. E assim foi com várias outras rivalidades por todo o país.

Um clube com nome de rei

Em 1916, a febre de utilizar o rei para validar e promover o seu clube chegou ao seu ápice em Palma de Mallorca, a capital das Ilhas Baleares, ao leste da Península Ibérica. Sabendo que o monarca era um entusiasta do esporte, um grupo de baleares fundou o Alfonso XIII FC. 

Como era de se esperar, o próprio Alfonso concedeu ao clube o título de “Real Sociedad” de maneira célere, ainda naquele ano. E, como se não bastasse, os fundadores da equipe ainda criaram um time reserva, batizado de Victoria Eugenia, a esposa do rei.

Mas, em 1931, com a instauração da segunda república espanhola, que veremos à frente nesse texto, a equipe foi obrigada a trocar de nome. Passou então a se chamar Club Deportivo Mallorca.

A segunda república

Após a queda do ditador Primo de Rivera, o próprio Alfonso XIII se viu obrigado a tentar levar a monarquia espanhola por um caminho mais democrático e constitucional. Convocou então eleições para 1931, que tiveram uma votação expressiva a favor dos republicanos. 

A segunda república espanhola foi proclamada em 14 de abril de 1931, com o Rei se vendo obrigado a deixar o país. A consequência de tudo isso para os clubes “reais” foi dura: o título e a coroa que haviam batalhado para conseguir utilizar seriam proibidos, como qualquer outra referência à monarquia.

No Real Madrid, isso significava que o clube voltaria a se chamar apenas Madrid CF. Como uma substituição à coroa, o distintivo ganhou pela primeira vez uma faixa roxa, cor tradicionalmente ligada ao reino de Castilla, região onde fica a capital espanhola.

O distintivo do Real Madrid e sua coroa. Fonte: Josué Trejo/Pixabay.com.

Nem a Copa del Rey sobrevive à ditadura

Durante a Guerra Civil, monarquistas lutaram junto aos nacionalistas. Eles acreditavam que o Rei teria seu posto restaurado caso esse lado saísse vencedor. Exilado desde 1931, Alfonso XIII se declarou “um falangista de primeira ordem” e constantemente enviou dinheiro e armas a Franco e seus comandados.

Nada disso foi suficiente: após a vitória, Franco disse que “não via nenhuma função para a monarquia na nova Espanha”. Alfonso XIII mais tarde escreveu: “escolhi Franco quando não era ninguém. Me traiu e me enganou a cada passo”.

Com isso, a Copa del Rey passou muitos anos tendo outros nomes: Foi “Copa de Su Excelencia el Presidente de la Republica” entre 1931 e 1936 e “Copa del Generalíssimo” entre 1939 e 1976.

Ao menos em um aspecto Franco permitiu que o futebol espanhol se parecesse com o de antes da ditadura: os clubes denominados “Real” puderam recuperar seus nomes e suas coroas.

Vale mencionar que tanto o ditador quanto o Rei Alfonso XIII eram adeptos do Real Madrid. Há muitas acusações sobre supostos favorecimentos ao clube madrilenho, principalmente durante a ditadura, mas esse é assunto para outro momento.