09.7

Alguns aspectos da imprensa esportiva no Brasil

Marcel Diego Tonini
A imprensa esportiva é quem faz o “choro”, cria rivalidades e às vezes ódios, mesmo porque o “choro” não é mais do que um desabafo da paixão bairrista, e que quanto mais se alimenta, mais cega fica.
Thomaz Mazzoni

Quem acompanha minimamente o futebol, seja através da imprensa escrita, seja através da imprensa falada, deve ter lido ou ouvido, em algum momento, comentários contra ou a favor de algum grande clube ou mesmo da seleção brasileira que são mais efusivos e apaixonados. Um bom exemplo disso tem sido a cobertura dos jogos do Corinthians na Série B do Campeonato Brasileiro de 2008. Uma ligeira percepção é suficiente para constatar que as atenções se voltam quase que exclusivamente para este clube: as notícias antes, durante e depois das partidas; as narrações (independentemente de o time alvinegro estar atacando ou defendendo); as entonações ou mesmo vibrações dos narradores e comentaristas.

É claro que o apreço do jornalista com este ou aquele clube pode não ser o único motivo pelo qual o leva a tomar tais atitudes. Uma série de fatores deve ser considerada: o tamanho do clube e da sua torcida, a publicidade, os interesses financeiros da imprensa, a demanda do público, os fatos que envolvem a situação momentânea do clube (se ele está para subir ou cair de divisão, se ele está para trocar de treinador, se enfrenta uma crise política, financeira…), entre tantos outros. Contudo, não é meu interesse neste breve texto explorar esse lado. Na verdade, estou mais preocupado em mostrar de maneira abrangente alguns aspectos da imprensa esportiva brasileira, tais como clubismo, bairrismo, regionalismo e ufanismo.

Desde os anos 1930, pelo menos, é comum vermos na imprensa esportiva matérias criticando a postura de jogadores e de clubes ao tentarem, respectivamente, mudar de agremiação e contratar atletas de times rivais ou de outras regiões. O antropólogo Luiz Henrique de Toledo cita em seu livro, Lógicas no futebol, um caso que causou profunda celeuma entre alguns cronistas paulistas. Tratava-se da tentativa de transferência do goleiro King do São Paulo para o Flamengo. A Gazeta Esportiva explicitava sua posição a respeito com o seguinte título: “Uma chantage a damno do São Paulo F.C.” (2002, p. 166).

Já na década seguinte, com o maior prestígio dos clubes paulistas (talvez, principalmente, em virtude do grande investimento são-paulino para a formação do seu grande time dos anos 1940 que foi chamado de “Rolo Compressor”), inverteram-se as reclamações. Agora, quem se queixava da conivência da imprensa com as atitudes dos clubes era crônica carioca. Tal como sugere o pesquisador, esses acontecimentos revelavam a precariedade do profissionalismo a pouco instaurado e o “amadorismo” envolvendo aqueles que se diziam “especialistas“. Afinal, as censuras de ambos os lados tinham um teor passional próprio dos torcedores, o que minimizava a reivindicação feita por eles em prol de um jornalismo mais específico e legítimo.

Se voltarmos os olhos para o presente, veremos que uma parcela deste mesmo jornalismo e uma grande parte dos clubes continuam fazendo as mesmas críticas. Todo final ou meio de temporada são inúmeras as notícias veiculadas a respeito das transferências de jogadores entre clubes. Por causa de muitos atletas profissionais estarem vinculados a empresários (ou a um grupo deles), muitos clubes em má situação financeira ou sem condições de concorrer com o mercado mundial ficam à mercê das decisões tomadas por essas pessoas e, quando chega a época das transações ou mesmo antes de terminar as principais competições, começam a acusar esta ou aquela agremiação de tentar contratar um dos seus proeminentes jogadores.

No futebol nacional, os grandes clubes paulistas, com destaque para o São Paulo, são sempre alvo dessas reclamações, como podemos ver nas seguintes manchetes: “Lusa acusa Verdão de aliciamento e vai à justiça” (http://200.150.147.211/noticias/07-07-06/121833.stm), “Atlético PR acusa São Paulo de aliciar atletas da base” (http://esportes.terra.com.br/futebol/estaduais2007/interna/0,,OI1530402-EI8022,00.html), “Time da Força Sindical põe jovens no Brasileirão e acusa o São Paulo de ‘roubo’” (http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u64939.shtml).

Interessante notar que os próprios dirigentes do tricolor paulista, que a cada polêmica vivem se defendendo e argumentando a favor do profissionalismo e do planejamento, acusaram os alemães do Bayern de Munique de aliciamento frente ao zagueiro Breno, no final de 2007 (ver notícia em: http://www.lancenet.com.br/noticias/07-11-21/195756.stm). Na mesma época, Bebeto de Freitas, famoso por seu (des)temperamento, convocou até uma coletiva para expressar a sua indignação, inclusive com relação à uma suposta omissão da imprensa. Vejamos um trecho: “O São Paulo alicia nossos jogadores durante a competição, e ninguém fala nada. O Palmeiras está aliciando o Cuca, e ninguém fala nada.” (http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/0,,MUL210169-4274,00-BEBETO+CRITICA+SAO+PAULO+E+PALMEIRAS.html).

Seguindo Toledo, com o passar do tempo, um conjunto de transformações gerenciais e técnicas no nosso futebol fez com que muitos jornalistas não revelassem suas preferências clubísticas e elaborassem um discurso mais tecnicista e menos encantado. Aquela conduta mais carnavalizada, subjetiva e próxima do universo torcedor, presente até os anos 1970 aproximadamente (lembremos de Zé Italiano da Rádio Gazeta de São Paulo), foi cedendo lugar para uma postura mais competitiva, objetiva e profissional. Foi uma tentativa de afirmar a posição dos “especialistas”, graduados em cursos de jornalismo, comunicação e afins, frente aos “amadores”, que sempre marcaram presença na imprensa esportiva (lembremos de Chico Buarque nas crônicas d’O Estado de São Paulo durante a Copa do Mundo de 1998).

Embora, ainda hoje, a grande maioria dos jornalistas tenta esconder o clube para o qual torce, qualquer pessoa que acompanha semanalmente as partidas, com os mesmos narradores, comentaristas e repórteres, é capaz de perceber aos poucos as paixões “domesticadas”. Algo que deve ser até compreendido, pois, sobretudo no “calor” do jogo ou em lances polêmicos, é difícil separar o lado torcedor do profissional, momento em que a neutralidade arrogada fica em segundo plano. Reprovável mesmo é a postura daqueles “especialistas” que mantêm relações escusas com dirigentes, empresários, treinadores e jogadores, formando um sistema de trocas mútuas de favores e que envolvem informações, privilégios, acordos, valorização de imagem, muitos interesses políticos e econômicos, além de tantas outras coisas que, certamente, deixam os princípios éticos de lado.

Um exemplo disso foi o veto de Dunga às entrevistas exclusivas, entre outros privilégios concedidos à Rede Globo, e, como conseqüência, as críticas e ironias dos funcionários da emissora ao trabalho do treinador no comando da seleção brasileira. Fatos mais claros e pontuais sobre esse tipo de relação entre imprensa e dirigentes ou outras pessoas que compõem o mundo do futebol são conhecidos, porém pouco revelados publicamente por conta da dificuldade de prová-los. Com este intuito, seria extremamente interessante coletar relatos de assessores de imprensa dos clubes; membros de redação e de comissão técnica; familiares de jornalistas, dirigentes, treinadores e jogadores; ou mesmo quartos-árbitros, que acompanham de perto o trabalho dos jornalistas e dos treinadores e auxiliares técnicos. Certamente, muitos casos viriam à tona e poderíamos identificar fatores e personagens que impedem o crescimento do nosso futebol. Uma saída muito mais produtiva seria o desenvolvimento da nossa tênue tradição investigativa no jornalismo esportivo.

Muitos dos “especialistas” que cobram abertamente das federações, clubes e dirigentes uma postura mais transparente e profissional são aqueles mesmos que se sujeitam a fazer parte de programas que, diária ou semanalmente, acirram rivalidades e incitam indiretamente brigas entre torcidas. Basta citar o programa Debate Bola da Rede Record, que colocava caixões com insígnias dos clubes que estavam em crise ou que perdiam partidas importantes. Refiro-me aqui ao que vejo no estado de São Paulo (seja no interior – Araraquara, São José do Rio Preto ou Campinas –, seja na capital), apesar de imaginar que o mesmo ocorre em outros locais, haja vista a disputa entre regiões (não só entre sudeste e nordeste) que envolveu a final da Copa do Brasil, deste ano, entre Corinthians e Sport.

Por outro lado, há aqueles jornalistas – e os da Rede Globo são o maior exemplo disso – que exageram no ufanismo que provavelmente muitos deles não acreditam, mas que o fazem por serem politicamente corretos e por construírem e expressarem uma imagem do país via futebol. É comum vermos nas coberturas dos campeonatos sulamericanos a seguinte frase: “O Internacional – que poderia ser trocado por qualquer outro clube brasileiro que restou em um torneio – é o Brasil na Libertadores!”. Não sejamos hipócritas, eu duvido que o torcedor gremista vai aflorar o seu lado patriota em detrimento da sua paixão clubística. Somos o “país do futebol” independentemente de torcermos por qualquer que seja o clube brasileiro em uma competição internacional.

Ainda que leve em consideração que a imprensa esportiva tenha de “criar” acontecimentos, explorar polêmicas, exagerar na voz e na tinta para garantir ou mesmo elevar o consumo do público torcedor, penso que ela deve ter a mesma consciência de responsabilidade que têm os árbitros de futebol, os quais sabem que, por menor que seja a sua decisão dentro de campo, afetam a vida dos torcedores. Afinal, uma das funções dos jornalistas não é comunicar, informar, esclarecer a população sobre algum acontecimento ou abrir os olhos dela para determinado fato? Mas para tanto, não devem usar meios ilícitos ou abandonarem a ética. O que, de maneira alguma, implica na falta da realidade ou da emoção na crônica esportiva. É só lermos Nélson Rodrigues.

Um jornalista que expõe de antemão sua opção clubística não será menos profissional por isso. Ao contrário, sendo honesto com o leitor ou o ouvinte, coloca à prova a isenção do que escreve ou fala, abrindo espaço para o público decidir se foi ou não parcial em seu comentário ou análise. Assim como vários de seus colegas, Juca Kfouri é um exemplo disso. Pois é capaz de expressar-se nos programas que participa e nos textos que escreve contra o seu clube de coração, o que para alguns corinthianos pode ser motivo de “traição”. Sem medo de dizer o que muitos pensam, escreve em seu blog mensagens como “Todos contra o Grêmio/São Paulo/Corinthians”, nessa era do campeonato brasileiro de pontos corridos. Disse, ele, ter recebido inúmeras críticas por parte dos torcedores, porém não irá mudar de postura e nem quer agradar esta ou aquela torcida. Preocupado com a realidade, escreve o que pensa e tenta controlar sua subjetividade, como todos nós… A propósito, sou corinthiano.

Bibliografia
COELHO, Paulo Vinicius. Jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2003.