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A cena do boxe: Ali no Ibirapuera (parte XI)

José Paulo Florenzano

A passagem de Muhammad Ali por São Paulo previa a realização de uma luta-exibição, programada para o ginásio do Ibirapuera contra um adversário sem muita expressão, Alberto Lovell, filho de um antigo boxeador argentino que havia brilhado nos ringues nos anos quarenta. A rigor, o caráter do espetáculo agendado para a noite de 17 de setembro não estava muito claro, nem para o público torcedor, nem para a crônica esportiva, tampouco para o pugilista argentino, que prometia “reagir” caso Muhammad Ali forçasse a luta.[1] A explicação da empresa Bel-Boxe, promotora do evento, não contribuía para dirimir as dúvidas, pois, ao mesmo tempo em que dizia ser uma disputa “no contest”, isto é, sem resultado oficial e, portanto, sem valor para o cartel dos contendores; salientava tratar-se de “uma luta mesmo, na qual poderá haver até nocaute”.[2] De acordo com a programação estabelecida pelos organizadores, ela se dividia em dois tempos distintos: os cinco primeiros assaltos contra o sparring Alonzo Johnson; os cinco últimos assaltos contra Alberto Lovell.

As expectativas do público, contudo, acabaram nocauteadas pelas informações desencontradas que cercaram a apresentação de Muhammad Ali. Com efeito, as “vaias” não demoraram a surgir, tornando-se cada vez mais intensas à medida que o espetáculo se desenrolava. Perto do fim, elas irromperam “muito fortes”, ressoando por todo o recinto.[3] Na observação lapidar de O Estado de S. Paulo, o “verdadeiro adversário” de Muhammad Ali foi o público do Ibirapuera.[4] Para conter as manifestações de descontentamento provocadas pelo sentimento de logro, ele teve de recorrer ao vasto repertório acumulado ao longo da carreira, desnorteando o adversário com um jogo de pernas, ao mesmo tempo em que o alvejava com alguns jabs de direita. Tratava-se, na avaliação da Folha de S. Paulo, de uma “extraordinária aula” ministrada para deleite dos críticos e para o aprendizado dos pugilistas.[5]

De fato, o jovem Eder Jofre reagia inconformado com os apupos da plateia: “Essa gente ou não entende nada de boxe ou está brincando”.[6] O velho Waldemar Zumbano, não escondia, por sua vez, a admiração pelo “maior” campeão dos pesos pesados, cuja performance ele acompanhava sentado próximo do ringue: “É realmente um bailarino”.[7] Mesmo fora do círculo dos profissionais, surgiam manifestações de encantamento com a exibição do boxeador, como a da atriz de teatro, Teresa Austragésilo: “ele está sempre dançando”.[8]

Conforme assinala Michael Oriard, dentro de uma modalidade esportiva tão vinculada ao exercício da força bruta, Muhammad Ali se notabilizava por “nos fazer pensar sobre a beleza”, reinventando a nobre arte a partir da dança e da poesia, aspectos “definidos pela cultura americana como femininos”.[9] A ousadia do Atleta de Alá consistia em ter introduzido valores comumente associados ao universo da mulher dentro da escola de virilidade na qual se constituía o boxe, desafiando não somente o corpo-arma do adversário, como, principalmente, o esquema perceptivo do público e da crítica.[10] Na constatação arguta do jornalista João Rath, publicada na revista Placar, Muhammad Ali se propusera, nada mais, nada menos, do que “substituir a violência pela beleza como principal elemento do espetáculo pugilístico”.[11] Conforme salientava o próprio lutador:

Eu gosto de boxe, mas não creio que se deva bater no adversário para agradar a plateia. Quando lutei com Floyd Patterson e Harry Cooper, não bati mais porque respeitei suas condições físicas, já precárias num certo instante da luta.[12]

Se, para a imensa maioria dos aficionados, como sublinhava a reportagem da Folha de S. Paulo, o boxe era “apenas pancada, sangue, nocaute”, para Muhammad Ali ele se transfigurava numa expressão estética mais elevada.[13] Surpreendidos com a ausência dos ingredientes que, segundo o senso comum, definiam a essência da modalidade esportiva, os espectadores no Ibirapuera vaiavam o artista cuja estilística de luta colocava em xeque os limites dentro dos quais se desenvolvia a prática do pugilismo.

A ilusão do Atleta de Alá, nesse sentido, foi a de ter subvertido a escala de valores do boxe, sobrepondo, à força física, a arte e a técnica.

De fato, para além da codificação já existente no esporte moderno, a prática desenvolvida por Muhammad Ali estabelecia um patamar mais elevado de restrições civilizadoras ao uso da violência dentro das quatro cordas.[14] Ao mesmo tempo, correlacionada com esta transformação, ela incorporava e inscrevia, no esquema mental do pugilista, a disposição intelectual de lançar sobre as coisas do ringue e do mundo uma interrogação indefinida. Em contrapartida, a vinculação à Nação do Islã impunha o fechamento do sentido, a obediência à estrutura de poder e o acatamento sem discussão da doutrina do movimento, a qual incluía a naturalização da ordem patriarcal. De fato, discorrendo na entrevista coletiva em São Paulo sobre a questão de gênero, Muhammad Ali foi taxativo: “O homem é mais alto do que a mulher e mais forte”.[15] Eis a ironia. O boxeador que trouxe para o espaço viril do pugilismo as características comumente associadas ao campo feminino; apresentava-se como defensor, no plano das ideias, dos dogmas imanentes ao mundo masculino. A academia do Atleta de Alá, decerto, não estava livre de contradições. Mas apesar delas, lograva o mais importante, isto é, ampliar as possibilidades de ser boxeador, introduzindo no tablado a dança e o riso, a política e a religião, a profecia e a poesia, esta última, escrita em um “guardanapo” quando se encontrava em um restaurante do centro de São Paulo:

Melhor que tudo na vida / É morrer lutando para ser livre / O que de pior pode haver / Que morrer do coração / Ou de alguma dose de drogas? / Deixem-me morrer sendo negro.[16]

A passagem de Muhammad Ali por São Paulo chegava ao fim. Embora curta, a estadia entre nós regalara momentos característicos do melhor estilo ao mesmo tempo combativo e irreverente do Atleta de Alá. A entrevista coletiva concedida à imprensa nacional, na qual foram abordadas questões que iam do Black Power à Nação do Islã, passando pela revolta dos detentos no presídio de Attica, constituía certamente o ponto alto da visita. Ratificando a avaliação do Jornal do Brasil, a Folha de S. Paulo também a considerava “a maior já realizada pelo jornalismo esportivo brasileiro”.[17] Mas a própria exibição, a despeito do caráter festivo que a marcara, não esteve despojada dos aspectos políticos que comumente definiam as apresentações do boxeador. Além do embate com a plateia e da discussão suscitada a respeito do bom uso da violência no boxe, houve, ainda, a luta simbólica ao redor da identidade negra. Um erro aparentemente banal a trouxe para o centro da cena. O placar eletrônico do Ibirapuera, ignorando o valor ideológico das palavras, ao invés de Muhammad Ali, registrava o antigo nome de batismo, Cassius Clay. Ao perceber o equívoco logo após o segundo assalto, o pugilista interrompeu a apresentação e “mandou trocar o placar”, restituindo ao letreiro do ginásio a designação correta.[18] O incidente, contudo, não foi suficiente para fazê-lo perder o bom humor. Numa evocação da cena de boxe interpretada por Charles Chaplin no filme “Luzes da Cidade”, Muhammad Ali envolveu o árbitro em sua dança, cercando-o em um canto do ringue, forçando-o a acelerar os passos para se desvencilhar da perseguição que o lutador lhe movia, levando o público a trocar por um instante a vaia pelo riso.[19] A incompreensão, contudo, acompanhava a desconstrução do boxe empreendida pela figura iconoclasta de Muhammad Ali. O Caderno B do Jornal do Brasil, desprovido de qualquer senso de humor, designava-o como o “palhaço do ringue”.[20]

Num período em que negros eram barrados nas piscinas e nos bailes de clubes, o Aristocrata foi um marco na história da sociedade brasileira. Muitas celebridades artísticas (Jair Rodrigues e Wilson Simonal, foto superior à esq.), políticas (Jânio Quadros, foto superior à dir.) e esportivas estiveram presentes em sua sede. Muhammad Ali foi uma delas. Segundo o fotógrafo Paulo Roberto, conhecido como Paulo Inglês por servir de intérprete na época, conta que: “Eu o levei para o La Licorne, uma espécie de Café Photo da época. Imediatamente formou-se uma roda de damas da noite em volta dele”. Foto: Reprodução.

Além da entrevista coletiva, e da luta-exibição, a estadia proporcionara ao pugilista duas breves incursões pela metrópole: a visita à Mesquita da Avenida do Estado e, pouco antes, na mesma manhã de sexta-feira, “a convite de alguns amigos”, ele foi conhecer o Aristocrata Clube, localizado no centro de São Paulo.[21] Fundado no dia 7 de março de 1961, em parte, como uma resposta dos negros de classe média às barreiras raciais erguidas nas associações dos brancos, o Aristocrata Clube, como o próprio nome deixava claro, se autoidentificava como uma elite distinta e distante da “massa negra”.[22] De acordo com o diretor do Departamento Social, Percival Pimentel, tratava-se de uma “vanguarda” que se propunha como objetivo “levantar a moral” dos “nossos irmãos”, afastá-los dos “bares” e das “gafieiras”, promover-lhes, complementava outro diretor, Alvim Alves, “o aprimoramento social por meio do esporte”.[23] De fato, o Aristocrata Clube acalentava o sonho de construir, no futuro, piscinas, quadras de vôlei e de basquete, para contemplar as reivindicações do Departamento Feminino. Para os homens, havia a proposta de providenciar um campo para o time de futebol no qual atuavam, dentre outros, o cantor Agostinho dos Santos e o jogador Brandãozinho. “Entre os associados do Aristocrata”, segundo a reportagem de A Gazeta Esportiva Ilustrada, constava o nome de Pelé.[24] Não obstante, não houve nenhum encontro entre os reis negros do futebol e do boxe. 

No início dos anos setenta, o contraste entre os dois ícones do esporte mundial não poderia ser maior: enquanto Pelé se achava imortalizado na condição de Rei do Futebol, graças à conquista do tricampeonato de futebol no México; Muhammad Ali buscava ascender novamente ao cume da carreira e provar que não estava morto para o boxe. De fato, ao contrário do que haviam decretado as manchetes da imprensa especializada, a era Ali não havia terminado.[25]


Notas

[1] Cf. “Cassius Clay chega hoje”, Folha de S. Paulo, 16 de setembro de 1971.

[2] Cf. “Muhammad Ali chega hoje para lutar amanhã”, Folha de S. Paulo, 16 de setembro de 1971.

[3] Cf. “Muhammad Ali fez de tudo, mas não usou força contra Johnson”, Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 1971.

[4] Cf. “Um espetáculo”, Jornal da Tarde, 18 de setembro de 1971.

[5] Cf. “Muhammad Ali fez de tudo, mas não usou força contra Johnson”, Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 1971.

[6] Cf. “Ali foi perfeito, ontem (A opinião é de Éder Jofre)”, Jornal da Tarde, 18 de setembro de 1971.

[7] Cf. “É realmente um bailarino (Waldemar Zumbano, ontem)”, Jornal da Tarde, 18 de setembro de 1971.

[8] Cf. “A sua outra imagem”, Jornal da Tarde, 18 de setembro de 1971.

[9]  Oriard. Michael. Muhammad Ali: The Hero in the Age of Mass Media. In: Muhammad Ali: the People`s Champ. Edited by Elliot J. Gorn. Chicago: University of Illinois Press, 1997, p.10.

[10] Com efeito, na coluna “Na grande área”, do Jornal do Brasil, o jornalista interino que a assinava às vésperas da luta com Sonny Liston discorria, perplexo, sobre o traço de “feminilidade” que ele identificava na personalidade de “Cassius Clay”, 23 de fevereiro de 1964.

[11] Cf. “É o fim do caminho?”, texto de João Rath, revista Placar, nº 409, 24 de fevereiro de 1978.

[12] Cf. “Clay acha luta dos negros mais importante que boxe”, Jornal do Brasil, 17 de setembro de 1971.

[13] Cf. “Muhammad Ali fez de tudo, mas não usou força contra Johnson”, Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 1971.

[14] Elias, Norbert; Dunning, Eric. A busca da excitação. Lisboa, DIFEL, 1992.

[15] Cf. “Clay acha luta dos negros mais importante que boxe”, Jornal do Brasil, 17 de setembro de 1971.

[16] Cf. “O homem que pede a Alá uma pausa para dar seus socos”, Jornal da Tarde, caderno especial, setembro de 1961. Há uma versão ligeiramente diferente publicada na Folha de S. Paulo: “Melhor do que morrer de ataque cardíaco, ou por efeito de drogas, seria morrer lutando. Eu voltarei. Deixem-me morrer como um negro”. Cf. “Cassius Clay, mais um campeão em S. Paulo”, 17 de setembro de 1971.

[17] Cf. Cassius Clay, mais um campeão em S. Paulo”, Folha de S. Paulo, 17 de setembro de 1971.

[18] Cf. “Clay só agradou nos dois assaltos”, Jornal do Brasil, 18 de setembro de 1971.

[19] Cf. “Mestre Clay”, revista Placar, nº80, 24 de setembro de 1971.

[20] Cf “Cassius Clay: um lutador de tempos diversos”, Jornal do Brasil, 16 de setembro de 1971.

[21] Cf. “Ele só queria que o povo visse o grande campeão: ele”, Jornal da Tarde, 18 de setembro de 1971.

[22] Andrews, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988). Bauru, SP. Edusc, 1998, p. 280.

[23] Cf. “Aristocrata Clube é ´preto no branco`”, A Gazeta Esportiva Ilustrada, nº 251, 1ª quinzena, abril de 1964.

[24] Cf. “Aristocrata Clube é ´preto no branco`”, A Gazeta Esportiva Ilustrada, nº 251, 1ª quinzena, abril de 1964.

[25] Cf. “Acaba a era Clay”. O Estado de S. Paulo, 9 de março de 1971.


Como citar

FLORENZANO, José Paulo. A cena do boxe: Ali no Ibirapuera (parte XI). Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 9, 2020.