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“Amo os estádios de futebol, mas também os odeio com muita força”. Preconceito e devoção no Atílio Marotti

Leda Costa

“Amo os estádios de futebol, mas também os odeio com muita força” foi uma frase dita pelo meu amigo e pesquisador de futebol, Gustavo Bandeira. Fiquei fascinada por ela porque conseguiu traduzir o que muitas vezes sinto e, especialmente, senti no estádio Atílio Marotti, há alguns meses. Recorri a Gustavo para aconselhamento acadêmico e pessoal a respeito de um dos momentos mais difíceis que passei nesses anos que frequento as arquibancadas por aí a fora.

No estádio Atílio Marotti presenciei claras e exaltadas manifestações de preconceito, o que não seria uma novidade em se tratando de futebol. Homofobia e racismo andaram lado a lado nas arquibancadas do Serrano, tradicional time de Petrópolis, no Rio de Janeiro. A homofobia – gesto corriqueiro e que ainda não incomoda suficientemente o mundo futebolístico – foi explicitada a cada tiro de meta batido pelo goleiro adversário.

Já o racismo podia ser ouvido da boca de indivíduos isolados ou de pequenos grupos que despudoradamente gritavam, também para o goleiro adversário, frases como “volta para a jaula, macaco”. Pela primeira vez, em um estádio, ouvi ofensas racistas tão explicitamente proferidas.

Lembrei do mal-estar gerado em algumas jogadoras de futebol que nos Jogos Olímpicos 2016 ouviam o grito “bicha” durante suas partidas. Lembrei do caso Aranha, no jogo Grêmio e Santos. E pensei que esses casos formavam uma pequeníssima fatia de um problema muito maior composto por casos de homofobia e racismo que não chegam aos nossos ouvidos e, pior, nem mesmo ao conhecimento das autoridades.

Fiquei olhando para o goleiro do Duque Caxiense e imaginando quantas vezes ele já devia ter ouvido aqueles mesmos xingamentos em suas diferentes variantes. Pensei em diversos outros jogadores que passam pela mesma situação, atuando em campos hostis como aquele parecia ser. Lembrei das milhões de pessoas que são vítimas de preconceito no dia-a-dia, isso porque o preconceito na sociedade brasileira é uma realidade vivida no cotidiano. E estádios de futebol historicamente parecem ser um local onde a intolerância se manifesta com certa liberdade e quase que de modo naturalizado.

Essa é a face que me faz odiar os estádios.

Porém se existe a raiva, também há o amor e a devoção. No Atílio Marotti tive a alegria de presenciar o renascimento de um clube que durante alguns anos agonizou, perdido em dívidas e dificuldades financeiras que chegaram a ameaçá-lo de sequer conseguir montar uma equipe para disputar a série C do Campeonato Carioca. Tive o prazer de participar de um jogo em que pela primeira vez se vendeu cerveja artesanal, deliciosamente degustada enquanto a bola rolava.

Ao final da partida, pude pisar no gramado – o que adoro fazer – e ver de perto a comemoração dos jogadores e a devoção de seu Gilberto que atravessou o campo de joelhos para agradecer a subida do Serrano para a série B.

Sentimentos conflitantes, os quais tento traduzir nas próximas linhas

“Camisa com história não morre” e o estádio Atilio Marotti

O Serrano Football Club foi fundado em 29 de junho de 1915. São mais de cem anos de história, fato que por si só merece todo respeito. Assim como diversos outros clubes centenários, como o São Cristóvão, por exemplo, o Serrano vive às margens do futebol espetáculo. É fato que o Serrano somente ingressou em competições profissionais na década de 1970 e no ano de 1980 viveu seu grande momento no Campeonato Carioca.

Time do Serrano em 1915.

No dia 19 de novembro daquele ano, o Serrano venceu o Flamengo de Zico impedindo o time rubro-negro de conquistar o tetracampeonato. O gol de Anapolina, aos 18 minutos, virou projeto de conclusão de Curso do jornalista Eduardo Monsanto. Mais que isso, virou momento antológico no percurso do clube.

O público desse jogo girou em torno dos 14 mil pagantes – como pode-se ver na reportagem abaixo citada – um recorde para o Atilio Marotti, estádio fundado em 07 de setembro de 1951.

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O Globo, 20/11/1980

Em 1981, o Serrano caiu e nunca mais voltou para a séria A. Nos anos 2000, o clube foi para a 3ª divisão e ano passado correu risco de ter seu estádio leiloado devido a dividas. Por pouco não conseguiu montar um time para disputar a série C de 2016, mobilizando assim uma campanha liderada por Eduardo Monsanto, hoje jornalista da ESPN, que juntamente com outros torcedores e simpatizantes do Serrano montaram a Frente Azul formada por pessoas dispostas a compor uma equipe de gestores. A Frente Azul elaborou a campanha “Camisa com história não morre” visando arrecadação de dinheiro. O vídeo promocional contou com a participação de diversos artistas, ex-jogadores e jornalistas (ver abaixo).

Com o dinheiro arrecadado e parcerias com patrocinadores o Serrano conseguiu reformar o estádio tornando-o apto a receber público e conseguiu montar um time que foi vice-campeão da Série C e o mais importante, subiu de divisão. Em 2017 poderemos ver o Serrano na série B do carioca. Esse acesso foi confirmado no jogo contra a Duque Caxiense por mim assistido das arquibancadas e alambrados do Atílio.

Atilio Marotti. Preconceito e Devoção

O Preconceito

Há algum tempo eu almejava assistir a um jogo do Serrano no Atílio Marotti. Porém, sempre esbarrava em um problema comum que aflige aos times fora do circuito mainstream: a falta de estádios aptos a receberem público. O último jogo realizado no Atílio Martotti foi em agosto de 2014. Por isso, comemorei quando soube que o Serrano havia conseguido os laudos necessários e que, portanto, atuaria junto a sua torcida nas partidas da série C de 2016.

Por coincidência, escolhi visitar o Serrano em um jogo importante no qual poderia ser sacramentada a sua subida para a série B, uma tremenda vitória para um clube que há anos estava no ostracismo, quase fechando as portas. Isso em grande medida explica a expectativa de um grande público no Atílio. Por isso, cheguei cedo em Petrópolis para poder ter tempo de encontrar o clube, comprar ingresso e esperar o início do jogo.

Foi uma longa espera, somente compensada com a abertura do portão do estádio, o que aconteceu cerca de duas horas após a minha chegada.

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Além da cerveja industrial, pela primeira vez em um estádio de futebol, houve a venda de cerveja artesanal, a DuZé, vendida pelo próprio:

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Munida de um copo de cerveja DuZé fui em direção às arquibancadas, onde os torcedores iam chegando.

Foto: Leda Costa.

Foto: Leda Costa.

 

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

O Serrano entrou em campo cercado de festa e expectativa. Eu, como de praxe, não costumo ficar comentando aspectos táticos e técnicos relativos às partidas que assisto. Nesse jogo, em especial, essa minha incapacidade foi aumentada. Desde o primeiro tiro de meta batido pelo goleiro do Duque Caxiense percebi que o grito “bicha”  havia chegado ao Atílio com força. Esse grito pode ser ouvido em diversos estádios do país e, nos Jogos Olímpicos 2016, chamaram a atenção de jogadoras Canadenses de futebol que declararam ao jornal Los Angeles Times que haviam se sentido incomodadas com os frequentes “bicha” ouvidos no Itaquerão, em São Paulo.

No México, de onde esse gesto foi importado, a Federação de Futebol lançou a campanha “Abrazados por el fútbol” da qual participam jogadores da seleção. A campanha visa combater os cânticos homofóbicos comuns nos estádios mexicanos e que levaram a Fifa, em 2015, a punir financeiramente a Federação Mexicana. Em outubro deste ano, a Fifa multou diversos países, entre os quais Brasil, por causa de manifestações homofóbicas em jogos das Eliminatórias para a Copa de 2018.

Pelos gramados do Brasil, os gritos de bicha lançados para os goleiros adversários e os outros insultos desse tipo, ainda não causam mal-estar suficiente às autoridades esportivas e nem mesmo a imprensa. Por esse e outros motivos, o clima homofóbico no Atílio Marotti não é uma exceção, mais parecendo uma regra. Esse fato, entretanto, não diminuiu minha insatisfação com os gritos de bicha que ouvi no estádio do Serrano.

Voltei minhas atenções para o jogo. Aos 40 minutos saiu o gol do Serrano que fez a série B ficar muito próxima. Então a torcida cantou “Serrano é minha paixão. Vou me pintar de azul”

Foto: Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Aproveitando o embalo do gol e do final do primeiro tempo, fui na direção do alambrado para de lá assistir ao restante da partida. Resolvi ficar atrás do gol do Duque Caxiense. Enquanto a bola não rolava, vi pessoas em clima festivo e de grande familiaridade, o que é bastante comum em jogos de clubes com forte laço local como é o caso do Serrano. Vizinhos, parentes, colegas de trabalho se cumprimentando, celebrando e fazendo planos futuros de encontros no Atílio Marotti para ver o Serrano na série B.

Foto: Leda Costa.

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Mas no segundo tempo, tudo pareceu mais difícil. O jogo ficou monótono e o Serrano perdeu o fôlego inicial. Então veio o empate do Duque Caxiense, aos 30 minutos, deixando a torcida surpresa e assustada. Nos minutos finais, veio a fúria de alguns torcedores que ali estavam no alambrado atrás do gol. A cada tiro de meta, novos e mais fortes gritos de “bicha”, somados agora a ofensas raciais. Um grupo de cerca de 5 pessoas se revezam em gritar  “volta para a jaula” para o goleiro William, frase dita diversas vezes e acompanhada de muitos e pesados palavrões. Quando aquela frase era repetida, as gargalhadas se estampavam no rosto de algumas pessoas que estavam próximas. Havia mulheres, homens jovens, homens de meia idade, todos com grau de proximidade, o que provavelmente contribuiu para que os indivíduos sentissem maior liberdade de dizer algo tão claramente racista.

Perguntei a uma das pessoas que xingavam: “você não acha que está sendo racista” e ouvi como resposta: “você queria que eu chamasse ele de meu amor. A graça do futebol é essa”. Não respondi nada. Me calei  e senti certo medo de continuar questionando, afinal eu estava longe de casa, sozinha e não conhecia bem o lugar. Enquanto me sentia culpada e um tanto cúmplice daquele momento, o juiz marcou um pênalti a favor do Serrano que marcou o segundo gol, virou o placar e garantiu o acesso à Série B.

Vocês podem perguntar: não havia jogadores negros no Serrano? Sim, havia, incluindo o artilheiro do time, Marcelo Macedo, autor do segundo gol do clube de Petrópolis e que foi ovacionado pelos torcedores, inclusive aqueles que tanto hostilizavam o goleiro adversário. Obviamente que isso complexifica o cenário, mas não diminui a gravidade do ocorrido.

O jogo termina e então sinto vontade de ir embora o mais rápido possível.

Mas….

Mas acontece que há o lado que me faz amar os estádios e o futebol. E esse lado me fez voltar.

A devoção

Muitas pessoas podem achar que comemorar um acesso para a série B de um campeonato local como o Carioca é algo que não faz sentido. Porém, minha convivência com clubes e jogos do circuito não-mainstream do futebol me fizeram ver que a alegria não é um privilégio dos grande clubes, das vitória e conquistas em campeonatos nacionais da Séria A ou internacionais como a Libertadores.

A alegria está em todos os gramados de futebol e a vitória pode assumir significados diversos. Para quem quase não conseguiu montar um time e que por muito pouco não fechou as portas, é de se comemorar o 2 a 1 que deu ao Serrano a possibilidade de jogar a Série B do Carioca.

Por isso, muitos que estavam nas arquibancadas desceram e entraram no campo do Atílio. Inclusive eu.

 

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Foto: Leda Costa.

Foto Leda Costa

O goleiro Felipe, do Serrano, seu filho pequeno e esposa chorando. Foto: Leda Costa.

No desgastado gramado vi um senhor que de joelhos atravessava o campo de ponta a ponta, comovendo jogadores do Serrano e do Duque Caxiense.

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Seu Gilberto atravessando o gramado de joelho. Foto: Leda Costa.

Foto Leda Costa

Foto: Leda Costa.

Seu nome é Gilberto e com ele conversei brevemente. Dele ouvi que o Serrano era seu grande amor, desde a juventude. De tanto sofrimento com os anos de derrota, resolveu fazer a promessa de atravessar o campo, o que cumpria com dificuldade, mas com a alegria de ver o clube dando provas de que não morreria assim tão fácil.

Me deitei no gramado e rapidamente pensei em tudo que havia experimentado ali no Atílio Marotti. Experimentei o ódio aos estádios, lugar que pode ser inóspito porque, em grande medida, muitos tendem a imaginá-lo como um local onde tudo é permitido, até mesmo o preconceito descaradamente manifestado.

É comum achar que essa permissividade é o elemento que torna os estádios um local mágico e especial, pois neles reinaria a rebeldia e liberdade de se poder agir sem as censuras do cotidiano. Porém, os gestos machistas, homofóbicos, racistas e tanto outros adotados com tanto orgulho por torcedores nada mais são do que a reiteração de todas as mazelas presentes no dia a dia. Nesse sentido, os estádios não promovem libertação alguma.

Reiterar preconceitos tão presentes na sociedade, tão presentes em nosso dia-a-dia, nada mais faz do que contribuir para o seu fortalecimento fazendo do futebol e do ato torcer mais uma escola de intolerância. Portanto, acredito que quem quiser tornar os estádios um local de rebeldia, pense que ser rebelde hoje em dia, em um mundo tão assustadoramente violento e conservador, consiste em escolher caminhos alternativos que não façam do preconceito uma bandeira. Afinal, o mundo já está repleto dele.

Foto: Leda Costa.

Assim como ocorreu com o caso Aranha, é importante não pensemos que a torcida do Serrano é racista ou homofóbica. Repito que diversos acontecimentos por mim presenciados não são exclusividade do clube de Petrópolis, mas percorrem o mundo futebolístico. O Relatório do Observatório de Discriminação Racial no Futebol, recentemente publicado, nos mostra como o preconceito no futebol ainda é um sério problema a ser discutido para que se possa viabilizar medidas punitivas e,sobretudo, preventivas.

E é com esse intuito que escrevo esse relato que mistura sentimentos de repúdio e fascínio despertados por um espaço que considero de extrema relevância para a vida de milhões de pessoas.

Os estádios de futebol certamente possuem singularidade porque neles podemos viver momentos únicos e nos sentirmos únicos, como se estivéssemos no centro do mundo. E eu de fato não consigo compreender que um gesto tão comum do cotidiano como é o preconceito possa ser considerado como elemento fundamental à atmosfera singular das arquibancadas de futebol.

Se os estádios são únicos é porque neles temos acesso a uma série de experiências que fogem à lógica tecnocrática do nosso cotidiano.  Atravessar um campo de joelhos por um time que subiu para a Série B do Carioca me parece, esse sim, um gesto rebelde.

Há muitos elementos que fazem do futebol uma manifestação insurgente. E certamente o preconceito não é uma delas.