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Aos machos torcedores de futebol, um coito interrompido!

Wagner Xavier de Camargo

No último dia 25 de agosto, num jogo clássico entre São Paulo e Vasco, no estádio São Januário, o árbitro Anderson Daronco parou a partida por causa dos gritos “time de viado”, oriundos da arquibancada do time carioca em relação à equipe visitante. A paralisação foi uma surpresa para todos e funcionou como um coito interrompido para os famigerados machos torcedores de plantão.

Na partida Vasco contra São Paulo, Daronco paralisa o jogo e conversa com capitães sobre cantos homofóbicos dos torcedores cruzmaltinos. Foto Reprodução/vídeo.

Em relações heterossexuais entre homens e mulheres há uma prática muito antiga, de tempos imemoriáveis, que é o coito interrompido. O lance todo é baseado num método de retirar o pênis da vagina poucos milésimos de segundos antes da ejaculação. A intenção é clara: evitar a gravidez. O resultado, nada eficaz. Porém, o coito interrompido mata o barato, marca fim de jogo (metaforicamente falando), interrompe o que de melhor estava acontecendo em termos daquele sexo lá proposto.

O coito interrompido proposto pelo árbitro Daronco foi bem empregado, em que pesem opiniões contrárias. E nesse caso, a tática funcionou no que de melhor ela se propõe: ou seja, cortar ou interromper os insultos homofóbicos que àqueles torcedores entoavam em forma de xingamento. A decisão arbitral está corretamente baseada em recente publicação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol (STJD), que emitiu uma recomendação contra tais atos, pedindo que árbitros, auxiliares e delegados tomem atitudes enérgicas em partidas oficiais contra “manifestações preconceituosas e de injúria” no que diz respeito à sexualidade de jogadores ou outros participantes da competição. A atitude do árbitro tem que, inclusive, constar em súmula e outros documentos dos jogos.

Trecho da súmula da partida entre Vasco e São Paulo, em que o árbitro Anderson Daronco relata os gritos homofóbicos e a consequente paralisação do jogo. Foto: Reprodução.

Tal medida do STDJ foi estabelecida tendo como referência à Federação Internacional de Futebol (FIFA), que vem desenvolvendo ações no combate à homofobia e ao racismo e, em julho passado, enfatizou o combate adotando procedimentos contra atos discriminatórios em partidas de futebol. Além disso, o posicionamento do STJD ressoa decisão recente do Superior Tribunal Federal (STF), que enquadrou os crimes de homofobia em práticas de racismo. No caso futebolístico, a punição é a paralisação imediata da partida e, se ainda persistir o ato infracional, a equipe pode ser punida com perda de 3 pontos. Os clubes têm reclamado de tais imputações e, por orientação do STJD, precisam desenvolver campanhas educativas contra homofobia (e, eu defenderia também, contra transfobia) por parte das arquibancadas.

Um dos tweets mais visualizados nas páginas que falavam do acontecido naquele domingo ironizava: “o futebol moderno e suas frescuras”. É assim que atitudes educativas e de respeito ao outro são chamadas. Alguém já parou para pensar que duas situações presentes no futebol atual, quais sejam, o VAR (ou árbitro de vídeo) e o endurecimento acerca de manifestações homofóbicas, preconceituosas, racistas, podem estar mudando o “clássico” futebol como se conhece? Afinal, o futebol como é jogado atualmente surgiu há muito tempo, nas escolas públicas inglesas ainda no século XIX. Aquele era o “futebol moderno” de que se refere o amigo do tweet repassado. Será que depois de mais de um século transcorrido, sua prática não pode estar se transformando?

Aos machos torcedores, uma palavrinha. Eles, obviamente, não gostam deste sistema de punição e nem do controle de seus atos por parte de agentes externos – no futebol, é o corpo arbitral; na escola, os/as mestres e professores/as; em casa, suas mulheres ou companheiras. Por isso reagem violentamente tanto no ambiente homossocial do futebol torcedor, quanto na esfera privada (e pobres mulheres, que, em geral, sofrem com a denominada “violência de gênero”). O torcedor macho não quer controle, mas controla; não quer reclamação, porém fica com mimimis perante decisões institucionais que buscam, no mínimo, tornar o cenário futebolístico menos injusto e mais inclusivo.

Luxemburgo, técnico do Vasco, pede para que os torcedores cruzmaltinos parem com os gritos homofóbicos contra a equipe do São Paulo. Foto: Reprodução/TV.

Em suma, e para completar a metáfora: o pau fodedor quer continuar dentro, fodendo até gozar. Não quer coitos interrompidos, pois já está cansado deles; não quer perseguição em seu momento de prazer; não quer aborrecimento enquanto ejacula. O pau fodedor quer foder e não ser fodido – nem por outros, nem por mulheres, nem por gays, nem por negros. Isso é o que de pior temos como reflexo de uma masculinidade tóxica, que contamina pessoas e ambientes nos quais se manifesta. Sua toxicidade aos poucos mata, inclusive, os machos que a exercem.

No referido “clássico” de futebol, o árbitro seguiu o protocolo adotado pela FIFA, as diretrizes do STDJ, seu bom senso (algo raro em tempos atuais) e parou a partida. Explicou didática e calmamente para Wanderley Luxemburgo, do Vasco, o motivo que provocou sua decisão. Foi chamado de “viado”, obviamente. Os machos torcedores não conseguem lidar com o que não entendem e, assim, desferem xingamento pronto e rápido. Também não refletem, não pensam; pensar dói.

E para aumentar suas frustrações, que venham mais coitos interrompidos! Quem sabe tais torcedores não aprendem algo a partir da castração de seus prazeres mais íntimos.

 

PS: Qualquer identificação com o que chamei de “machos torcedores”, uma qualificação obviamente generalizante, fica por sua conta!