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Aos que aqui estiveram, aos que aqui estão e aos que virão: entre reflexões, vibrações e devaneios de uma torcedora no Mineirão

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa

Semanas atrás, recebi um convite de minha irmã para irmos ao jogo do Cruzeiro no Mineirão. Confesso que, inicialmente, diante de uma rotina apertada de trabalho e por estar na reta final de uma pesquisa, o meu ímpeto foi de agradecer e continuar focada nas prioridades. Mas, como uma pausa para respirar pode ser um dos recursos para sobrevivermos aos tempos difíceis, aceitei o convite, vesti minha camisa e fomos ao jogo: eu e mais 3 mulheres. A Força azul feminina em campo!

Bem, aqui neste texto, eu poderia dizer sobre o jogo e o resultado; sobre a presença significativa de mulheres no estádio, naquele dia; sobre a percepção que tive de que há incentivo das forças públicas de segurança para que as pessoas saiam o quanto antes do entorno do Mineirão, uma vez que vi um dos feirantes sendo chamado a atenção em relação ao horário de venda de alimentos; enfim, como campo de experiências e de ações, a ida ao estádio pode oferecer diferentes possibilidades de análise e escrita.

As reflexões que compartilho aqui neste texto são inspiradas na experiência do torcer e no olhar sobre anos passados do Mineirão. Naquela noite me peguei pensando nas pessoas que por ele transitaram, nas que transitam e naquelas que ainda virão. E, como em uma viagem no tempo, inspirada nas fotos antigas da época da construção do Mineirão, imaginei os trabalhadores. E aquelas pessoas, por um breve momento, como se estivessem em um curta metragem, apareceram em minha visão.

Talvez essa escolha seja por eu estar tão concentrada nas fontes da pesquisa sobre o Mineirinho, em que, por vezes, o Mineirão dava o ar da graça, revelando-se em imagens e documentos diversos. Ou porque eu vi tantas pessoas no Mineirão durante o jogo e me lembrei dos personagens invisíveis que por ele estiveram e dedicaram tempo e energia para edificá-lo, deixando o Gigante da Pampulha como legado de seus trabalhos, como a expressão da presença deles, como um presente para o nosso lazer.

Fotografia da Maquete do Estádio Minas Gerais, Mineirão. Fonte: Arquivo do Mineirinho.

É possível também que, sensibilizada pelo dia 1° de maio, em que se comemora o Dia do Trabalhador, eu tenha ficado ainda mais mobilizada a pensar sobre o contexto do trabalho e sobre trabalhadores. Ainda mais nesses tempos tão conturbados, em que estamos vendo o universo do trabalho e das relações trabalhistas sendo reconfigurados, de modo que parecem estar se esfacelando aos nossos olhos.

É interessante as possibilidades que temos de torcer estando no estádio. Eu, por vezes, me pego vendo as reações das outras pessoas. Assistir a um jogo no estádio é bem diferente de estar em frente à televisão. O campo de visão é bem mais amplo e rico quando estamos nas arquibancadas! Não há replay para o gol perdido ou a falta realizada. Perdeu o lance? Uma breve solução para recuperar parte dessa perda seria perguntar para alguém que estiver ao seu lado sobre o que aconteceu. Mas, às vezes é melhor perder alguns lances do jogo a ter que carregar a tristeza de ver certas cenas, isso também é possível!

E, nesses devaneios de torcedora que busca ampliar o campo de visão, terminei observando a estrutura do Mineirão e a organização do espaço: as arquibancadas, o campo, a cobertura, os corredores, as grades de proteção e os diferentes setores e seus personagens. E, nessa viagem em relação ao espaço do Mineirão, estando dentro dele, em certo momento, pensei nos que “aqui estiveram”, ou seja, seus trabalhadores.

Lembrei das imagens do período da construção do Mineirão, que coletei, no Arquivo do Mineirinho. Uma delas eu já apresentei aqui no texto, a que ilustra a maquete da construção do Mineirão. Fiquei pensando sobre o trabalho árduo que aqueles operários tiveram para levantar tamanha estrutura, em tempos que a tecnologia não era tão generosa quanto hoje, para a construção de grandes obras. Haja suor, força e trabalho!

Trabalhadores na construção do Mineirão. Fonte: Arquivo do Mineirinho.

Quantos homens e quantas mulheres passaram por ele nesse período? O que esperavam para o estádio? Gostavam de futebol? Jogavam futebol? Frequentaram o Mineirão depois de inaugurado? Indagações, reflexões e possibilidades colocadas em campo, pensamentos que viajaram no tempo. E, eu, voltei ao jogo que estava acompanhando.

Falando em jogo, imagino que vocês podem estar pensando que, de tão ruim que estava, eu terminei desviando a minha atenção dele. Mas, não! O jogo entre Cruzeiro e América, partida válida pela semifinal do Campeonato Mineiro de 2019, estava muito bom! Em especial para o Cruzeiro, que já entrou em campo com vantagem e terminou o jogo com a vitória por um placar de 3 x 0. E, assim como os torcedores do América, que ainda que estivessem em menor número deram gás na torcida, os jogadores do coelho alviverde, ainda que tivessem que reverter um placar pouco favorável a eles, deram gás até o final da disputa, mesmo seguindo em desvantagem no placar durante o jogo.

Essa é uma parte que posso apresentar sobre os que “aqui estão”: torcedores e torcedoras, jogadores e jogadoras, que envoltos por variados trabalhadores trazem para o estádio, a cada jogo que é realizado nele, uma nova vida ao Gigante.

E, o que esperar para os que “aqui virão”? Pois bem, como toda obra humana é expressão da ação sobre algo, em um determinado tempo e contexto social, chego à conclusão de que é imprevisível imaginar o que encontrarão nesse estádio, no futuro. Mas, já passadas mais de cinco décadas de sua inauguração, continuamos vendo bons jogos e boas torcidas aqui dentro, ainda que não seja sempre. Mas, pensar o quê? Esperar o quê? Afinal, o sempre dura até que acabe!

Meu desejo e minha torcida é que ao pisarem dentro do Mineirão encontrem futebol! E de preferência, o melhor do futebol: a alegria!

Mineirão, palco do futebol: anos iniciais. Fonte: Arquivo do Mineirinho.