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Apartheid gaúcho? A Liga da Canela Preta

Gilmar Mascarenhas

Em 1999, tive a honra de publicar um artigo que constitui o primeiro registro e esforço acadêmicos em torno da lendária Liga da Canela Preta. Desde então, outros pesquisadores, poucos, se debruçaram sobre o tema, inclusive um documentário foi produzido, em 2017, por Antonio Textor, citando diversas passagens daquele meu artigo. Todos enfrentaram a imensa escassez de dados em torno de mais um importante movimento no longo processo de afirmação e emancipação das coletividades afrodescendentes no Brasil.

O texto que trago agora corresponde a um extrato, revisto e atualizado, do supracitado artigo.

Sabemos que, nas principais cidades brasileiras da virada do século XIX para o seguinte, um avassalador processo de transformações sociais impactou os cenários da vida cotidiana. O projeto “civilizador” da jovem nação republicana acolhia forte apelo “europeizante”, e nesta onda de importações de modismos europeus por parte das elites o futebol encontra seu canal de fácil penetração na vida social urbana, assumindo assim tons aristocráticos em determinados âmbitos de celebração de pretenso cosmopolitismo grande visibilidade.

Ao mesmo tempo, e apesar da permanência das estruturas arcaicas de poder, a concebida modernidade nacional pretendia romper radicalmente com o passado escravista, de forma que a numerosa população negra sofria naquele momento uma exacerbação dos mecanismos de estigma e exclusão social. O projeto moderno glorificou o trabalho livre do imigrante europeu e fechou as portas do mercado de trabalho aos herdeiros da escravidão. Para muito além dos mundos do trabalho, portas também se fechavam no campo mais geral das sociabilidades urbanas: os lazeres, e neles a novidade do futebol.

Na cidade de Porto Alegre de então, polo industrial e centro convergente da próspera zona colonial ítalo-germânica, a ideologia racista da (mais tarde denominada) República Velha encontrou terreno particularmente fértil. Segundo a historiadora Sandra Pesavento, ao longo do século XIX se esboça na periferia da cidade de Porto Alegre a formação de pequenos núcleos habitacionais de predominância negra, bem como se nota a existência de zonas (as “emboscadas”) caracterizadas por abrigar temporariamente escravos fugitivos. Mas é com a desescravização que a territorialidade negra ganha corpo, através da geração de “um cinturão de cor em torno da cidade branca que se aburguesava lentamente” (Pesavento, 1995:84).

A origem destes novos territórios “étnicos” tinha relação direta com a cruel exclusão do segmento negro liberto de diversos setores da economia urbana que se industrializava e que claramente priorizava a força de trabalho do imigrante europeu. Neste contexto se observa a formação de um novo bairro na cidade, reconhecido oficialmente desde 1896 como “arrabalde da Colônia Africana”. Composta por tanques públicos para as lavadeiras e casario rústico de madeira, a aglomeração compacta da população negra na franja da mancha urbana de então (e em absoluto contraste com esta) constituiu uma espécie de gueto, centro aglutinador de práticas religiosas afro-brasileiras e alvo de intensa discriminação na imprensa local.

Deste arrabalde periférico, verdadeiro enclave étnico situado numa colina, desceriam os negros em direção à várzea do “Caminho do Meio”, do “Campo do Bom Fim” ou da “Volta do Cordeiro”, pelo simples direito de praticar o futebol, imprimindo novos sentidos a esta modalidade esportiva que rapidamente iniciava sua popularização.

Mais próximo à área central da cidade, havia outro “território” de segregação racial conhecido por Areal da Baronesa, assim chamado por ocupar terrenos da antiga chácara da Baronesa de Gravataí, e pela abundância de areia de origem fluvial (do outrora sinuoso riacho popularmente conhecido por arroio Dilúvio). No século XIX, era uma “emboscada”, isto é, local não urbanizado, propício ao esconderijo provisório de escravos foragidos. Outra importante concentração de negros era a “Ilhota”, sítio alagadiço vizinho ao Areal da Baronesa, e assim denominado em função das curvas do supracitado riacho formarem um alvéolo, quase “ilhando” um trecho do terreno.

As condições geomorfológicas do sítio (a “várzea”) contribuíram para sua permanência enquanto área não edificada no interior da urbe, e, a exemplo de São Paulo e de tantas outras cidades brasileiras, a várzea mostrou-se propícia à prática informal do futebol. Ali se localizava o primeiro campo de jogo do Sport Club Internacional, porém abandonado pelo clube no ano seguinte à sua fundação (1909) devido aos alagamentos no inverno. Habituados à condição marginal, os negros não tardaram a ocupar o desprezado terreno já preparado e demarcado para praticar seu futebol domingueiro. Mais tarde, ali “fundaram” a lendária Liga da Canela Preta, denominação vulgar (e fortemente pejorativa) para o que na verdade se chamava Liga Nacional de Football Portoalegrense (nome sugestivo: o nacional possivelmente apontando para a condição nativa, “da terra”, quiçá criticando a larga presença na liga branca de “não brasileiros”: argentinos, uruguaios, alemães, italianos e até poloneses, sendo que nos três últimos segmentos um grande contingente de descendentes).

Para melhor compreender e dimensionar a liga de atletas negros é preciso contextualizar historicamente suas ações no cenário esportivo porto-alegrense. Examinando a economia urbana e regional no início do século, Paul Singer define Porto Alegre como a “cidade dos alemães”, tendo em vista a forte predominância de “dinastias econômicas germano-riograndenses” na organização e condução dos grandes negócios. Se observasse a vida esportiva, chegaria à mesma conclusão: a maioria das associações esportivas “oficiais” é de origem germânica.

Em 1910, contando com sete agremiações na Liga Metropolitana, a prestigiada “liga dos brancos”, é disputado o primeiro campeonato municipal, e o futebol local inicia finalmente um processo de difusão social mais abrangente e efetivo. Supostamente, é no transcorrer desta década de 10 que este esporte começa a se popularizar como prática de entretenimento urbano, consolidando-se enquanto tal nos anos vinte.

É difícil precisar o momento de fundação da Liga “Nacional”, a liga dos negros. Podemos situar seu início em meados da década de dez, a partir da constatação da apropriação, desde 1911 ou 1912, do abandonado campo do SC Internacional pela população negra local, que, numerosa, teria provavelmente possibilidades de organizar alguns times de futebol. Sua oficialização pode também ter ocorrido em meados daquela década.

Consta que a liga contava no início com os seguintes clubes: Primavera (dos arredores da Rua Gonçalves Dias), Bento Gonçalves (famoso clube que excursionou com êxito pelo interior do estado em 1923), União, Palmeiras, Primeiro de Novembro, Rio-Grandense, 8 de Setembro (da área então chamada de Colônia Africana, hoje o bairro Rio Branco), Aquidabã e Venezianos, totalizando nove clubes associados. A temporada anual se iniciava no dia 13 de maio, em evidente alusão à abolição da escravidão, e os jogos atraíam grande interesse.

Clube 8 de Setembro, o da Colônia Africana.

A principal rivalidade no interior da liga foi construída entre o Bento Gonçalves e o Rio-Grandense. O Rio-Grandense (não confundir com outros clubes homônimos) era um time de mulatos, os chamados “mulatinhos cor-de-rosa”, formado por funcionários públicos e de hotéis. Já o Bento Gonçalves era um time majoritariamente de negros, formado por engraxates e outros profissionais, quase sempre muito pobres.

Em 1922, quando os “canelas pretas” alcançavam seu auge, a liga “branca” criou uma segunda divisão e nela abriu, ainda que de forma controlada e restrita, oportunidades para jogadores e clubes negros, fato que os atraiu progressivamente, acionando, ao que parece, na segunda metade dos anos 1920, um processo de lenta e gradual decadência da Liga da Canela Preta, extinta na década seguinte, a de trinta.

A denominação oficial da liga ficou praticamente esquecida na memória urbana local, em favor de um registro que despreza, ironiza e atribui um sentido de estranhamento e alteridade, destacando a “cor” das canelas daqueles atletas. A própria eleição do termo “canela” evidencia o menosprezo: no futebol devidamente praticado, a parte do corpo que deve tocar e conduzir a bola é o pé e não o tornozelo. O uso da “canela” denota ignorância ou falta de habilidade motora. Na linguagem popular do futebol, dar uma “canelada” indica mal controle da bola ou mesmo agredir o adversário pelo gesto indevido das pernas. Em suma, a expressão “canela preta” constitui uma dupla acusação, um duplo tom pejorativo no ato de apelidar a Liga Nacional.

Considerando-se que Porto Alegre é um dos principais centros de prática do futebol no Brasil, é de se notar a relativa lentidão local em permitir o acesso de negros na liga principal. Acreditamos que tal cenário tem ampla relação com a estrutura urbana de Porto Alegre: a presença de guetos negros e outros bairros étnicos mencionados por Pesavento pode ajudar a explicar a segregação racial reinante no futebol local.

A existência de ligas como a da “canela preta” parece não encontrar suporte na dinâmica geral das relações inter-raciais no Brasil. Se a tal “democracia racial” constitui sabidamente um discurso há muito contestado severa e consistentemente, por outro lado não devemos esquecer que o Brasil desenvolveu um racismo de natureza peculiar, que guarda significativas diferenças em relação a casos paradigmáticos como os Estados Unidos (antes da Declaração dos Direitos Civis) e a África do Sul (durante o Apartheid), onde a discriminação racial assumiu formas se não mais radicais, ao menos mais claras, menos disfarçadas, figurando abertamente no quadro jurídico-institucional.

Não há, no Brasil, até onde sabemos, paralelo com a Liga da Canela Preta. No caso gaúcho, tivemos também em Pelotas a Liga José do Patrocínio e na cidade de Rio Grande a Liga Rio Branco, ambas exclusivamente criadas e formadas por negros, e que funcionaram igualmente entre as décadas de 1910 e 1930. Eram os corajosos egressos da Abolição buscando lugar e reconhecimento numa sociedade movida pelo preconceito racial e por estruturas arcaicas de dominação. Um longo e lento processo de luta e de conquistas árduas, que também no futebol se realizou e está a aguardar, sempre, novas pesquisas e reflexões.


Referências

PESAVENTO, S. “Os excluídos da cidade. In: Presença Negra no Rio Grande do Sul. Cadernos Porto e Vírgula. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1995.

MASCARENHAS, G. O futebol da Canela Preta: o negro e a modernidade em Porto Alegre (RS). Anos 90, n. 11, 1999, p. 144-161.