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Apelido é nome encantado

Guilherme Trucco

Entre 1890 e 1937 a capoeira era proibida de ser praticada por lei. Assim como o samba, o culto de religiões de matriz africana, ou qualquer outra manifestação cultural não aprovada pela visão normativa católico-europeia ocidental, era tudo enquadrado em crime de vadiagem, a famosa contravenção.

Os praticantes de capoeira angola, com toda sua mandinga (palavra que deu origem à ginga) começaram então a se chamar entre si apenas através de apelidos. Poucos se conheciam pelo nome verdadeiro. Dessa forma, ficava mais difícil para a polícia identificar e perseguir capoeiristas que ficavam conhecidos na boca do povo.

A tradição seguiu, a capoeira não é mais crime, pelo contrário, mas o legado do apelido ainda é importante. Hoje em dia, geralmente, ele é dado pelo mestre capoeirista durante o batismo do aluno aprendiz. Se nota, em grandes mestres, inclusive, que o apelido retrata de alguma forma o estilo de jogo do mestre, que deve ser único de cada jogador, principalmente quando se fala da capoeira angola, mais dançada, mais ritualística, mais arte.

Exemplos não faltam com Mestre João Grande, João Pequeno, Jogo de Dentro, Curió, Siri de Mangue, Cobrinha Verde, e por aí adiante.

Foto: Beto Barata/Crrative Commons.

Tudo isso para voltar ao assunto do apelido, mas aplicado ao futebol. Não é de hoje que se reclama, de forma saudosista, do desuso de apelidos nos jogadores de futebol. Infelizmente essa prática foi perdida, mas mais do que saudosismo, levanto aqui a bola de que essa perda vai solapando a própria magia, a mandinga e encantamento do futebol brasileiro. Que é o que nos diferencia.

Luis Antônio Simas cita a escalação clássica do Vila de Cava F. C., glorioso clube de várzea de Nova Iguaçu na década de 1980: Elizângela; Camunga, Carlinhos Nem Fudendo, Mão Branca e Tornado; Jorge Macaco, Capiroto e Corno Manso; Curupira, Abecedário e Aderaldo Miquimba. Cita o esquadrão para discorrer que, em tempos de “peça de reposição”, perdemos nossos gingadores mágicos.

Tínhamos apelidos dos mais variados.

Apelidos compostos: Mário Tilico, Valdir Bigode, Serginho Chulapa.

Apelidos diminutivos, menos criativos, porém onipresentes: Leivinha, Coutinho.

Também os designadores de origem: Paraíba, Carioca, Mineiro, etc.

Percebam, que mesmo os diminutivos e de origem já começam a rarear hoje em dia! Que exagero.

Ainda existiam os apelidos que misturavam as categorias: Juninho Pernambucano, ou então Dadá Maravilha.

Dadá, inclusive, inicia com o tipo de apelido que mais aprecio: o de vogal repeteco. Esse, via de regra, vem carregado desde criança, quando o jogador ainda era moleque de tudo, e permaneceu. Moleque e apelido.

Exemplos vastos… Para citar alguns: Didi, Vavá, Zizinho, Bobô, Jajá eo clássico pleonásmico Biro-Biro.

O maior de todos, Pelé, surgiu quando Edson ainda criança não conseguia pronunciar o apelido do goleiro do Vasco, Bilé. Outro belo apelido, diga-se de passagem.

Sem os apelidos estamos perdidos. Relegados a jogar o jogo do europeu, de nome e sobrenome, e não o nosso próprio. Perdemos nossa assinatura, por assim dizer. Estamos indo atrás do futebol moderno, e não o gingado, mandingado, mágico.

Futebol moderno? Foto: di.fe88

Essa história de defesa alta para roubar a bola ainda no campo de ataque, no meu tempo de moleque, era conhecida como apelação. E o time que usava esse tipo de sortilégio, era o famoso apelão. Tática pueril de quem não tem habilidade e encantamento nos pés, capaz de vencer defesas num lance, e não com 78% de posse de bola. O time apelão precisa jogar todas as suas fichas em algo que consiga controlar: a preparação física. Aí, meus amigos, desculpa, não é mais futebol, não é mais jogar bola, perdeu o apelido, é chute ao arco, ou coisa que o valha.

E digo mais, se o Neymar Jr. fizer como o Dadinho (que virou Zé Pequeno num terreiro de Umbanda), for no terreiro também, e mudar o nome na camisa pra Neneca, garanto que volta a jogar bola de novo, e a copa de 2022 tá no bolso. E tenho dito.