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Aprendendo Hóquei no Museu

Wagner Xavier de Camargo
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Jogo entre Montreal Canadiens e Toronto Maple Leafs em 1938. Foto: Conrad Poirier.

A primeira vez que assisti uma partida de hóquei no gelo foi nos idos de 2003, numa ocasião em que estava no Canadá a trabalho. Não me lembro dos nomes das equipes, tampouco da importância da contenda. O “pouco caso” talvez se explique pelo frio que sentia na arena esbranquiçada e gélida: fui levado por um amigo canadense para vivenciar uma experiência de sua “paixão nacional” e, versado em futebol de campo do Brasil, não consegui entender e muito menos apreciar àquele jogo. Sem agasalho, o frio do local me congelava o cérebro e me impedia de compreender porque meu amigo tanto gritava e pulava. Mas a vida deu suas voltas e tive outras oportunidades de assistir à modalidade, em diferentes contextos e lugares. Assim como brasileiro pira no futebol de campo, o mesmo acontece com canadenses no hóquei sobre o gelo.

No início desse mês, novamente a trabalho no país do extremo norte da América, algo interessante se passou comigo no nível das experiências esportivas: pude aprender mais sobre hóquei, porém agora dentro de um museu. O Canadian Museum of History, localizado na capital Ottawa, está com parte da ala do segundo andar dedicada à exposição sobre o hóquei no gelo, organizada a partir de objetos pessoais de Mike Wilson (um colecionador privado), de utensílios do Pointe-à-Callière Montréal Archaeology and History Complex e de materiais diversos coletados junto à associação de ONGs canadenses voltadas para a preservação da história e da memória.

Como diversas outras alas de muitos museus espalhados pelo país, essa exposição sobre hóquei é interativa, instrutiva e muito colorida. Há desde objetos antigos (como medalhas e broches), primeiros tacos e patins utilizados, camisas e uniformes de grupos ou equipes, troféus, bandeiras, máscaras de proteção de goleiros, acessórios de vestimentas e até uma mini quadra montada no centro de um salão. De qualquer ângulo que deseje o/a visitante da exposição é possível perceber o quanto a história da modalidade se confunde com a própria história de edificação da jovem nação. Se as placas explicativas lá nos contam que a origem do esporte é desconhecida (sugere-se, inclusive, que foi um entretenimento entre população autóctone e colonizadores, em dado momento civilizacional), sua sistematização por meio de regras cresceu tão rápida quanto se consolidavam as fronteiras nacionais canadenses.

Em 1893, Lord Stanley de Preston, um político britânico que desde 1888 era Governador-Geral do Canadá, criou uma competição para premiar as equipes amadoras de hóquei no gelo – a Stanley Cup. O troféu, que era conferido a melhor das equipes, passou a ser disputado apenas por times profissionais nas décadas iniciais do século XX.

Ainda nas primeiras sessões da exposição é possível ler sobre as rápidas mudanças no esporte a partir das implementações oficiais. O próprio crescimento do profissionalismo ocasionou o surgimento de ligas profissionais, que começavam a representar o país em competições internacionais. Tal fato, agregado ao melhor pagamento de jogadores e ao crescente interesse público (inclusive com o aparecimento de grupos de fãs), desembocou na formação da National Hockey League (NHL), em novembro de 1917. Essa hoje poderosa liga profissional de hóquei, criada com apenas quatro grupos canadenses naquela época, provavelmente atingirá o expressivo número de 31 equipes filiadas na temporada 2017-2018, incluindo times canadenses e americanos.

Em todas as salas que visitei, por todos os lados, percebi a construção do hóquei como um esporte masculino, em que pese haver visto, logo nas primeiras imagens da exposição, uma incrível foto de dois grupos de mulheres jogando hóquei no gelo no Canal Rideau, na cidade de Ottawa, durante o inverno de 1890. Tal impressão inicial veio de uma leitura que fiz anos atrás do livro Crossing the line, de Laura Robinson, no qual a autora explorou exatamente a dimensão machista do esporte, os abusos nele encontrados e mesmo a disseminada “cultura do estupro”, cultivada pelo machismo instituído no discurso e nas atitudes de atletas homens, e direcionada tanto a fãs mulheres, quanto executada em bandos (os chamados gang rapes, ou estupros em grupo).

Porém logo percebi que a curadoria da exposição havia sido cautelosa no que dizia respeito ao tratamento relativo às mulheres e mesmo à diversidade (sexual, de gênero e de corpos). Num corner, especialmente iluminado, encontro o uniforme de Hilda Ranscombe, que foi uma importante jogadora de hóquei, ainda na década de 1930. Há indícios de que clubes de mulheres que praticavam o esporte começaram a empolgar multidões entre os anos 1920 e 1930 no Canadá, dando origens a institucionalização de competições femininas. A exposição destacava a equipe The Preston Rivulettes que incrementou o jeito de jogar, conquistou quatro campeonatos naquela década e levou grupos de mulheres torcedoras à loucura nas arquibancadas.

Hilda Ranscombe nos anos 1930 (Foto Wagner Camargo)

Hilda Ranscombe nos anos 1930, Museu de História Canadense. Foto: Wagner Camargo.

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Uniforme e patins de Hilda Ranscombe, Museu Canadense de História. Foto: Wagner Camargo.

Logo me veio à lembrança o nome de Hayley Wickenheiser, cuja história conheci fazendo pesquisa de campo em Vancouver, em 2011, e que fora capitã da equipe feminina de hóquei no gelo do Canadá, campeã dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, justamente em Vancouver. Para minha surpresa, na exposição do Canadian Museum havia os acessórios (patins, uniforme, etc.) que Wickenheiser utilizou naqueles Jogos Olímpicos. Ainda sobre essa competição havia um destaque para Marie-Philip Poulin, uma jogadora que marcou o gol definitivo no jogo final entre Canadá e EUA, e que acabou conferindo a medalha de ouro de hóquei no gelo às canadenses.

Além de menção às mulheres, houve também destaque para o chamado Sledge Hockey, ou hóquei no gelo adaptado para pessoas com deficiência física. Assim como outros esportes adaptados, o sledge hockey é jogado da mesma forma e sob as mesmas regras que a modalidade convencional, divergindo apenas nas adaptações necessárias no trenó com lâminas e nos tacos. Como atletas com deficiência física passam por avaliações funcionais que os habilitam a jogar conforme suas habilidades residuais, tais equipamentos são, em geral, personalizados para cada corpo. A exposição mostrou uma foto do pioneiro Dean Mellway e sua equipe, vice-campeã paraolímpica dos Jogos de Inverno de Nagano, Japão, em 1998.

No fim da exposição encontrei uma mesa de brinquedo, onde algumas crianças e adultos se aglomeravam ao entorno, e onde se podia jogar hóquei com pequenos bonecos presos a bastões, algo muito semelhante a mesas de futebol pebolim, comuns no Brasil. Naquele instante revivi momentos da infância, me diverti e, sobretudo, me sentia feliz por ter aprendido tanto e ter percebido como é importante cuidar da história e da cultura esportiva de um país. O colorido da exposição havia me contagiado, definitivamente.

Pee Wee Table Hockey Game, Museu de História Canadense (foto Wagner Camargo)

Pee Wee Table Hockey Game, Museu de História Canadense. Foto: Wagner Camargo.

Semanas após, já na cidade de Quebec e bem distante de Ottawa, vi uma camiseta à venda numa vitrine que trazia, na estampa frontal, os dizeres “10 razões que explicam porque hóquei é melhor do que mulheres” e, enumerados, um a um dos motivos. Fiquei horrorizado, por algumas horas. Obviamente, não vou elencá-los aqui para não acalentar o teor medonho do sexismo e do preconceito neles explícitos. Naquele momento, no entanto, tive um duro dado de realidade, que me lembrou de outra concepção de esporte, mais próxima do que vivemos no Brasil. E foi naquele exato momento em que quis voltar ao museu e àquela visão idílica de outros valores possíveis nos esportes de nossas sociedades contemporâneas.