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As agruras de um sonho: problemas na Vila Olímpica Rio-2016

Wagner Xavier de Camargo

A ideia de escrever este texto me veio após as primeiras declarações de atletas, técnicos e equipes estrangeiras sobre as consideradas “péssimas” condições da Vila Olímpica Rio-2016, apresentada ao mundo pelas mãos do prefeito Eduardo Paes.

A Vila Olímpica carioca foi entregue cerca de quinze dias antes do início das competições e, tão logo começou a ser ocupada, apresentou problemas de infraestrutura: faltavam finalizações no paisagismo, havia vazamentos e alagamentos em alguns apartamentos, os serviços de lavanderia estavam a pleno vapor e, o primeiro anúncio ao mundo sobre a “vila problemática” veio dos australianos – que, inclusive, se retiraram para um hotel enquanto não houve posicionamento oficial sobre os problemas no prédio que ocupavam.

Esse assunto pautou algumas conversas com amigos e, em que pese concordar com eles sobre as críticas à infraestrutura brasileira para os Jogos Olímpicos, tendo a trazer algumas considerações sobre Vilas Olímpica/Paralímpica como um exercício reflexivo.

Rio de Janeiro- RJ, Brasil- 27/07/2016- O prefeito Eduardo Paes faz a entrega simbólica da chave da Cidade do Rio de Janeiro a representantes da delegação da Austrália nos Jogos Olímpicos Rio 2016 na Vila dos Atletas. Foto: João Paulo Engelbrecht/ PCRJ

O prefeito Eduardo Paes faz a entrega simbólica da chave da Cidade do Rio de Janeiro a representantes da delegação da Austrália nos Jogos Olímpicos Rio 2016 na Vila dos Atletas. Foto: João Paulo Engelbrecht/PCRJ.

A primeira Vila Olímpica da história foi edificada pelos alemães para os Jogos Olímpicos de Verão de Berlim, em 1936. Tal construção foi planejada minuciosamente para ser uma cidade-modelo, que não somente abrigaria atletas homens de todas as delegações nacionais (sim, mulheres atletas ficariam numa hospedaria próxima ao Estádio Olímpico), como funcionaria com tudo o que de mais importante era necessário para dar suporte à competição. Judith Holmes, em sua obra Olimpíada 1936, glória do Reich de Hitler, descreve o empreendimento concretizado pelo regime Nazista para colocá-lo na história: casas completamente mobiliadas, camas bem confortáveis, cabines telefônicas, um bom número de lojinhas, um hospital, um bosque florido nos arredores e até um cinema na área central. Visitei parte dessas instalações em 2010 e, apesar do abandono do lugar, realmente ainda se percebe o porte ostentoso.

Em que pese a essa altura leitores/as estarem inclinados a achar que escolhi a experiência germânica para contrapor ao que chegou a ser considerado a “catástrofe brasileira”, esclareço que essa não é minha intenção. A Vila Olímpica berlinense de 1936 teve, igualmente, muitos problemas, uma vez que não existiam locais para as práticas físicas específicas (as academias de musculação, pistas de atletismo, salões de lutas e mesmo as piscinas presente hoje nestas estruturas eram ausentes), houve dificuldades no transporte de atletas da Vila para as arenas de competição e mesmo problemas de encanamento foram identificados. Até uma reclamação de um jogador inglês, como conta Holmes, virou polêmica: “faltavam cegonhas no lago”, disse ele. Segundo consta, Hitler reagiu e mandou buscar 200 aves dessas e pediu que não poupassem esforços para que o empreendimento tivesse notoriedade.

A Vila Olímpica do Rio-2016 entrou em funcionamento e foi ocupada conforme o previsto. Ela servirá aos atletas olímpicos/as e, em setembro próximo, será utilizada pelos/as atletas paralímpicos/as. Minhas experiências nas Vilas Paralímpicas (Sydney, Atenas e Pequim) modelaram minha visão de mundo sobre esportes e sobre estruturas olímpicas/paralímpicas. Longe de serem construções perfeitas, em todas elas problemas sempre aparecem: todas eram distantes dos centros das cidades, o que colocava as equipes em situações involuntárias de isolamento; os alagamentos eram frequentes em nossos quartos; os serviços de lavanderia atrasavam devido à gigantesca demanda; a higiene não foi o ponto forte da Vila Olímpica na China-2008; em Atenas e Pequim havia canteiros de obras por todos os lados, mesmo no início dos Jogos Paralímpicos e, em nenhuma das ocasiões, os restaurantes não estavam funcionando a pleno vapor (mesmo porque são menos atletas com deficiência presente nos Jogos do que atletas não deficientes e, portanto, parte deles estava fechada).

Rio de Janeiro- RJ- Brasil- 24/07/2016- Prefeito Eduardo Paes participou da abertura da Vila dos Atletas. Foto: Beth Santos/ PCRJ

Vista da Vila Olímpica. Foto: Beth Santos/PCRJ.

De um lado, se se constata que a Vila Olímpica carioca apresentou problemas e esta(rá) longe de ser um “modelo ideal”, é importante que se reconheça que “modelos ideais” não existem e nunca existirão. As Vilas Olímpica/Paralímpica são construções arquitetadas para um determinado fim, redimensionado posteriormente mediante interesse da especulação imobiliária. De outro, a história nos mostra que a primeira Vila Olímpica construída em Berlim-36 também apresentou problemas, mesmo nos dias subsequentes da competição.

Tal qual uma cidade, as vilas têm uma dinâmica de funcionamento, que necessita de um contingente grande de pessoas para executá-lo. Problemas sempre aparecerão e eles são importantes, pois materializam tais construções como “reais”, em que pese elas continuem a habitar sonhos de atletas e não atletas como “idealizações imaginadas”.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. As agruras de um sonho: problemas na Vila Olímpica Rio-2016. Ludopédio, São Paulo, v. 86, n. 6, 2016.