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As crônicas de Nelson Rodrigues e a seleção brasileira

Gabriel Sulino Martins

Nelson Rodrigues (2013) como um brasileiro apreciador do futebol exercido pela nossa seleção. Descreveu magistralmente crônicas sobre a seleção canarinho, em um contexto de miscigenação, no qual tínhamos o estereótipo de ser uma nação inferior às europeias. E se tornou mais fatídico este signo quando perdemos em casa a Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai por 2 a 1, intitulada pelos jornalistas como o Maracanaço. O complexo de vira-lata é um rotulo que levávamos e sentíamos por sermos um país que já foi colonizado, tendo uma nação miscigenada, com uma falsa ideia de classificação construída historicamente, no qual punha o homem branco europeu, seu futebol e outras questões acima de nós. Valendo frisar que no contexto no qual não tínhamos ganhado nenhuma Copa do Mundo até 1958.

Gol de Ghiggia na final da Copa do Mundo de 1950, que selou a virada uruguaia e a derrota brasileira. Foto: Divulgação.

Começamos a romper com esse rotulo, quando ganhamos a Copa do Mundo de 1958, em uma final contra a Suécia por 5 a 2, com gols de Vavá, Pelé e Zagallo para o Brasil e, para a Suécia, Liedholm e Simonsson. Uma final que decretou o fim do complexo de vira-lata. Enquanto isto, Nelson Rodrigues (2013) em sua crônica: “O escrete é nosso!”, exaltava como os campeões do mundo incomparáveis, desempenhando um futebol mágico, o melhor futebol do mundo. Enfatizando que os jornais alemães, franceses, ingleses e outros admitissem que o nós somos os maiores. E admitindo um interesse estrangeiro em nossos craques que não deviam deixar o país, até se for preciso, amarramos eles na mesa.

Em algumas de suas crônicas exaltou os nossos campeões mundiais, como Vavá, Pelé, Garrincha, Didi, etc. Temos como exemplo, Didi, que é um dos maiores jogadores da história da seleção brasileira de futebol, definido por Nelson Rodrigues (2013) em sua crônica: “Garrincha, passarinho apedrejado”, como um príncipe etíope. Atuou na seleção nas copas de 1958 e 1962. Um meio de campo de classe que atuou com elegância ao lado de craques como Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Pepe, Bellini, etc. Atuava com elegância de um príncipe e, como um armador, organizava o jogo para que o rei do futebol e companhia brilhassem com a camisa verde e amarela. Mas, mesmo assim, pouco ouvimos falar pouco de Didi.

Didi. Foto: Divulgação.

Nesta mesma crônica se exalta a coletividade de craques do Brasil, em uma partida contra o Chile em 1962, em um clima de rivalidade, no qual, mesmo com o juiz metendo a mão, a seleção conseguiu se impor com um jogo fenomenal de Didi, mesmo com a expulsão de Mane Garrincha, sem Pelé e com Amarildo que se machuca no decorrer do jogo. O Brasil triunfou, como o próprio Nelson Rodrigues relatou (2013, p. 34): ”O time ou o país que tem Mané é imbatível”.

Nelson Rodrigues (2013) sempre foi um apaixonado por futebol e sempre descreveu em suas crônicas jogos do Brasil, e, a partir dessas leituras, podemos analisar a constituição do futebol. O Brasil, como dito anteriormente, é um país colonizado, assim como outros. Se formos observar, todos os países da América Latina foram colonizados, e, por este motivo, temos a competição de clubes Libertadores, reunindo as melhores equipes de toda a América do Sul. Tendo esse viés e levando em consideração o contexto de cada país, o Brasil tem um processo diferente de outros países da América do Sul.

A própria falsa ideia democracia racial pode ser vista através da história da seleção brasileira contada nas crônicas de Nelson Rodrigues (2013). Neste quesito, vemos o frango do goleiro negro Barbosa em 1950, eleito o responsável pela derrota do Brasil, no Maracanã, para o Uruguai, de virada por 2×1. O episódio reflete o racismo sofrido pelo goleiro e o racismo estrutural existente no Brasil. O Brasil apenas voltou a ter um goleiro negro no campo depois de muito tempo, com Dida. Isto é um exemplo que rompe com a falsa ideia de uma democracia racial brasileira, onde levamos muito tempo para ter de novo um negro no gol da seleção canarinho depois de Barbosa. Lembremos uma das crônicas feitas por Nelson Rodrigues (2013), depois de algum tempo, em 1959, pela Manchete Esportiva, intitulada “O tempo e a eternidade sobre o goleiro Barbosa”: “Amigos, o velho Barbosa está fora do Brasil. Mas não importa e explico: — a ausência do verdadeiro craque é tão ativa, militante e absorvente como a presença viva. Só o perna de pau consegue ser esquecido. Um Barbosa, não.” (RODRIGUES, 2013, p. 58-60).

Barbosa. Foto: Wikipedia.

Nelson Rodrigues (2013) relatou Barbosa como goleiro, alguém que não pode falhar, pois só é permitido a falha de um atacante, médio e zagueiro. Mas por que Barbosa como um goleiro negro não pode falhar? A maior carga de culpa da derrota de 1950 é dada ao goleiro. Bem, lembremo-nos de que todos falharam na jogada, pois, como um time, deviam se posicionar para defender o goleiro do chute no gol do atacante uruguaio Ghiggia. Essa derrota é lembrada, depois de nove anos por Nelson Rodrigues (2013), como um goleiro que teve sua parcela de culpa pela derrota do Brasil em 1950.

Notamos, entre 1950 e 1962, alguns aspectos do complexo de vira-lata e do racismo estrutural existente no Brasil através desses casos. Através dos escritos de Nelson Rodrigues (2013), identificamos vários aspectos ligados a essa constituição. Em vista disso, podemos observar o Brasil e todo um complexo de vira-lata a partir da historicidade da seleção brasileira. Neste texto, apresentei alguns aspectos desse complexo de vira-latismo e do racismo estrutural existente no futebol a partir das crônicas de Nelson Rodrigues (2013).

Referências:

NELSON, Rodrigues. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.