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As eras distintas que tinham que acabar

Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Primeiro de dezembro de 2019. Duas eras se encerraram no início da noite daquele domingo no Allianz Parque. Após uma vexatória derrota para o já campeão Flamengo, Mano Menezes e Alexandre Mattos foram demitidos pelo presidente Maurício Galiotte – ou seria pela patrocinadora Leila Pereira? Falamos disso em breve. O fato é que, se a era Mano durou pouco e deixa um saldo zero, a era Mattos teve momentos de brilho, e merece um olhar muito mais atento.

Quem vê o resultado desse Palmeiras e Flamengo pode não concordar quando o classifico como vexatório. Para entender, é preciso ver como a derrota foi construída. Um Flamengo em ritmo de treino, já campeão brasileiro, que pressionava, construía e ameaçava um Palmeiras apático e impotente. Todas as vezes que queria acelerar o jogo, chegava em nosso gol. O placar de 3 a 0 sem esforço foi iniciado já no primeiro minuto do segundo tempo. Depois disso, os cariocas apenas esperaram o jogo acabar, e permitiram que criássemos chances a partir do esforço de sempre de Dudu e da entrega de Willian e Bruno Henrique. O gol de honra veio no fim com Matheus Fernandes. Pouco. Muito pouco. Praticamente nada.

E é no “como” que Mano cai. Os resultados em si nem são tão ruins, e o treinador ostenta um bom aproveitamento de 63,3% dos pontos disputados, numa das melhores campanhas do Palmeiras na história do Brasileirão. O problema é que o Flamengo subiu o sarrafo, não apenas dos resultados, mas do modo de jogar. Renato Portaluppi e Jorge Sampaoli mostraram muito mais futebol com muito menos investimento e, junto com Jorge Jesus, escancararam que se pode fazer muito mais. Mano foi cobrado sobre isso diversas vezes pela torcida e também pela diretoria, e mostrou-se incapaz de mostrar o que se esperava. Cai o treinador que nem devia ter vindo, vide o desempenho fraquíssimo de sua equipe anterior, o Cruzeiro.

Último jogo do técnico Mano Menezes no comando do Palmeiras. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Isso vai para a conta de Mattos, ex-diretor executivo do futebol do alvi-verde. No Palmeiras desde 2015 com Paulo Nobre, montou os times campeões nacionais de 2015, 2016 e 2018. Esse ano, porém, os resultados não vieram e ele foi pessoalmente cobrado. Inexplicáveis e caríssimas contratações, como Borja e Carlos Eduardo, mostraram-se erros crassos, ainda mais quando comparadas as contratações flamenguistas, que trouxe oito de seus 11 titulares apenas na atual temporada. Diferente de Mano, a era Mattos tem saldo positivo, com dois títulos do Brasileirão e um da Copa do Brasil, mas já não havia mais clima para a permanência do dirigente.

Junto com a falta de resultados, Mattos vai embora porque o modo com que comandou nosso futebol, apesar de vitorioso em diversos momentos, também se esgotou. A torcida cansou de ter um elenco inchado, com vários jogadores medianos, todos mais ou menos parecidos. Cansou das contratações que compõe elenco e não chegam para jogar. Cansou do futebol-resultado, defensivo, que seus treinadores apresentavam, sendo ou não campeões.

Além do futebol profissional, a maneira de gerir a base também é passível de críticas, apesar de ser uma de suas grandes virtudes. O Palmeiras nunca teve grande tradição de títulos e revelações de suas crias, e em sua gestão à frente do futebol, alcançamos o patamar de categoria mais vitoriosa do país. A transição para o profissional, porém nunca existiu. Com a exceção de Gabriel Jesus, vimos nossos jovens de destaque serem emprestados e vendidos ao exterior, e nunca aproveitados na equipe profissional. Era impossível não questionar se os garotos não deveriam ganhar espaço no time principal em detrimento de contratações que apenas compunham elenco.

As escolhas de treinador de sua era também não passam desapercebidas, já que pareciam eternos tapa-buracos que duravam enquanto dessem certo, independente da uma perspectiva de desenvolvimento de trabalho. Vamos fazer uma retrospectiva: 2015 começa com Oswaldo de Oliveira, que sai para a entrada de Marcelo Oliveira. Marcelo apresenta um futebol ruim, mas vence a Copa do Brasil, então permanece para o ano seguinte. Como o mal futebol continua, Cuca vem pro seu lugar, sendo campeão brasileiro, mas não continua por escolha pessoal. Para 2017, a diretoria traz Eduardo Baptista, que tem bons resultados, mas acaba caindo por causa da sombra de Cuca, que volta ao Palmeiras no meio do ano. Não conseguindo repetir os bons resultados, Cuca cai
ainda no Brasileirão, e Valentim assume até o fim do campeonato. Para 2018, é prometida uma nova filosofia, mas Roger Machado não é bancado pela diretoria, e cai na primeira crise. O salvador da pátria Felipão assume e vence o campeonato nacional meio “sem querer”, poupando os titulares para os mata-matas, que acabamos não passando das semifinais. O futebol pobre de Scolari é mantido pra 2019, mas também não suporta a queda dos resultados, e vai embora após eliminações na Copa do Brasil e Libertadores e a goleada por 3 a 0 contra o Flamengo no Maracanã. Para apagar o incêndio, vem Mano Meneses, que claramente não iria mudar nada. Uma série de erros que se sustentavam enquanto venciam, mas que todos podiam ver que não iam suportar muito tempo. O erro chamado Mano acabou sepultando também o diretor de futebol.

Maurício Galiotti é presidente do Palmeiras. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Galiotte diz que agora será diferente. Que o novo modo com que o Palmeiras vai tratar seu futebol levará em conta sua base, contratações que chegam e resolvem e jogadores que respeitam e honram o time. Ele, porém, é uma das pessoas que menos demonstram esse respeito pelo clube. Como explicar as cifras milionárias em contratações e salários que não mostram a que vieram? Como explicar tantos anos de base esquecida? Como explicar ingressos tão caros que trazem uma torcida apática?

E, claro, como explicar que, antes do anúncio oficial, Leila Pereira, dona da Crefisa, já havia anunciado que Mano não era mais nosso treinador? Leila, inclusive, foi poupada de todos os protestos que as organizadas palmeirenses fizeram nas últimas semanas, diferentemente do técnico, do diretor e do presidente. Sua relação com a Mancha Verde é muito próxima, visto que patrocina seu Carnaval. Será que veremos críticas a ela também, ou ela será blindada em sua busca por popularidade visando a presidência do clube? Se a relação do presidente e da patrocinadora não é das melhores, quem realmente comanda o Palmeiras?

Por fim, com a queda de Mano, o favorito da torcida, e meu também, é Sampaoli. O argentino viria como o respiro de futebol ofensivo que não tivemos nos últimos anos. Não restam muitas dúvidas de que a diretoria tentará trazê-lo, mas dúvidas permanecem sobre seu respaldo caso venha. Galiotte já demonstrou inúmeras vezes que não tem comando e convicção, mesmo que se porte de modo diferente quando vai reclamar do VAR. Sampaoli não aceita goela abaixo todas as ações das diretorias dos clubes por onde passa, e é de se esperar que aconteçam desentendimentos entre ele, o presidente e a patrocinadora. Ainda assim, o treinador seria uma luz verde de esperança no fim do túnel da torcida palmeirense que, mais do que resultado, quer ver seu time voltar a mostrar futebol de verdade. O desejo, no momento, é que a especulação se torne realidade.