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As feridas de Cabinda – Lomé, Togo

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

O ano de 2010 estava a começar da melhor maneira para Stan Occlo. A 20 de Dezembro, tinha feito a sua festa de noivado e, a 1 de Janeiro, partira para a República do Congo para concretizar o sonho de acompanhar a selecção do Togo na CAN, em Cabinda, o enclave angolano no meio do território congolês. Na manhã de 8 de Janeiro, uma sexta-feira, o assesor de imprensa da selecção nacional e consultor pessoal de comunicação de Emmanuel Adebayor começou o dia a ligar para o seu pai e para as duas irmãs. Era altura de entrar em Cabinda e Stan quis avisar a família. Estava longe de saber que seria a última ocasião para falar com eles. Na viagem de 92 quilómetros entre Pointe Noire, no Congo, e Cabinda, o autocarro da equipa do Togo foi vítima de uma emboscada por parte da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC).

Foto: João Henriques.

Assim que o autocarro cruzou a fronteira, Stan saiu de um dos assentos traseiros com a câmara de vídeo para filmar a paisagem cabindesa e para recolher testemunhos dos elementos da comitiva. Tinham passado meia dúzia de quilómetros quando, após uma ponte, um “rocket” atingiu o autocarro que transportava os equipamentos da selecção, o primeiro de uma caravana com cerca de uma vintena de veículos. A comitiva ficou imobilizada. De seguida, uma rajada de fogo cruzado atingiu a parte dianteira do autocarro onde seguiam os jogadores e a equipa técnica. Stan, apanhado de pé, desprevenido, foi atingido por quatro balas – uma no braço, as outras três no dorso, que lhe atingiram um pulmão, o fígado e os intestinos. Enquanto agonizava, os seus colegas resistiam a 32 minutos de tiroteio. “O ataque aconteceu às 14h. Levaram os feridos a três hospitais que não tinham meios para os operar. Só deram entrada nas urgências às 16h e as intervenções cirúrgicas só começaram às 19h. Ainda lhe conseguiram retirar duas balas do corpo mas o Stan não conseguiu resistir”, diz Azanledji Occlo, o pai do assessor. Stan viria a falecer às 4h da madrugada de 9 de Janeiro, o dia em que começámos a nossa viagem a caminho do Mundial.

Dimas. Foto: João Henriques.

Quase três meses depois, o Togo ainda não recuperou do trauma de Cabinda. O atentado terrorista da FLEC causou oito feridos, entre eles dois jogadores, e três vítimas mortais, uma delas o motorista do autocarro, de nacionalidade angolana, cuja confirmação de óbito continua a ser negada pelas autoridades angolanas. “Quando partimos para Cabinda pensávamos que íamos jogar futebol, nunca imaginámos que íamos para a guerra. O estado angolano e a Confederação Africana de Futebol (CAF) garantiram a segurança da competição. Se soubessemos que íamos para a guerra tínhamos levado militares e não futebolistas”, comenta Dimas Dzikodo, jornalista e melhor amigo de Stan Occlo, que só não entrou no autocarro alvejado devido a um atraso no voo de Lomé a Pointe Noire. Dimas mostra-nos as fotografias dos corpos após as autópsias e aponta-nos para as longas costuras na barriga das vítimas: “Nunca vi uma dissecação assim. Mesmo não tendo provas, acho que roubaram órgãos dos corpos dos nossos mortos no hospital militar de Cabinda”. O director do jornal “Forum de la Semaine” mostra-se indignado com a reacção da CAF que, após o atentado, apontou o dedo à Federação Togolesa de Futebol por desrespeitar a ordem para viajar para Cabinda de avião e nunca pela estrada. “Nunca apresentaram provas dessa suposta carta”, diz Dimas. “É uma teoria contraditória. Primeiro, porque vai contra a garantia de segurança do torneio em Cabinda. Depois, porque o Estado angolano disponibilizou uma força de segurança armada até aos dentes para acompanhar o autocarro. Por último, na fronteira entre o Congo e Cabinda, os membros da organização não barraram a passagem do autocarro. É uma acusação coverde e descabida”. Esta é apenas uma das divergências que estão a tornar este caso numa novela misteriosa com um final amargo para os togoleses. O governo do Togo ordenou a retirada da equipa da competição após o atentado e a CAF sancionou a selecção com a exclusão da participação na CAN por duas edições. “O artigo 80 do regulamento da prova diz que é proibido o abandono da competição excepto em casos de força maior. Um atentado com três mortos não é um caso de força maior? A decisão da CAN é humilhante para todos os togoleses”, diz Dimas.

Dimas. Foto: João Henriques.

Mas a trama não fica por aqui. O Estado angolano anunciou recentemente a detenção de dois elementos da FLEC responsáveis pelo massacre. Um deles, Pierre Ngondo, é nem mais nem menos do que um funcionário da Direcção de Desportos da República do Congo encarregue de acompanhar a selecção togolesa e de traduzir para francês os diálogos em português com as autoridades angolanas. Segundo testemunhas togolesas, Ngondo, filho de pai congolês e de mãe cabindense, estava no autocarro alvejado e até foi ferido no pescoço mas nem isso o ilibou da acusação de ser um membro da FLEC infiltrado na comitiva do Togo para avisar os rebeldes da passagem da equipa pela estrada armadilhada. “Ngondo é um bode expiatório e está inocente”, defende Dimas. “E a prova é que, segundo a nossa investigação, já foi libertado por pressão do governo congolês”. Toyitom Amelete, funcionário do Ministério da Comunicação e irmão da outra vítima mortal, Abalo Amelete, partilha da tese de que Angola e a CAF estão a fazer tudo para limpar a imagem de uma organização que foi imprudente. “A inclusão de Cabinda no torneio foi uma estratégia de marketing do estado angolano para mostrar ao mundo que Cabinda é Angola e que há paz no território”, diz. “Mas cabia-nos também a nós investigar a situação do enclave e boicotar, previamente, a realização de desafios no estádio de Cabinda”. Dimas vai mais longe na acusação: “É como se realizassem um Europeu na Rússia e um dos estádios fosse na Chechénia. O futebol é um agente de paz e não pode ser jogado num território em guerra”. Com efeito, a 27 de Outubro de 2009, a FLEC, pela pessoa de Jean Claude N’Zita, presidente da comunidade cabindense na Suíça, enviou a Sepp Blater, presidente da FIFA, uma carta em que o prevenia da ocorrência de atentados terroristas caso Angola mantivesse o propósito de organizar o torneio em Cabinda: “A CAN representa para os cabindenses uma provocação e um gesto de desrespeito do seu território por parte de Angola…os jogos da CAN nunca se poderão desenrolar em clima de paz”. A 5 de Novembro, a carta chegou às mãos da COCAN, o comité de organização da CAN em Angola, que a ignorou. A 9 de Janeiro, a FLEC, pela pessoa do seu presidente exilado em França, Rodrigo Mingas, reivindicou o ataque.

Toyitom Amelete. Foto: João Henriques.

Azanledji Occlo, pai de Stan. Foto: João Henriques.

No rescaldo da tragédia, a Federação de Futebol do Togo organizou a homenagem nacional às vítimas do atentado e deu 15 milhões de CFA (23 mil euros) às famílias enlutadas. Mas estas não se conformam e, alinhadas com o governo togolês, já puseram em tribunal acções contra a CAF, o governo angolano e a FLEC. “A CAF nem enviou uma comitiva ao funeral do meu filho”, diz Azanledji Occlo, emocionado ao falar de Stan. “Deram menos valor à sua morte do que à de um cabrito. E tudo por dinheiro. Eles não conseguem perceber que não há dinheiro que compre a dignidade de um homem”. Toyitom Amalete também não consegue apagar o desaparecimento do seu irmão mais novo, falecido com 56 anos. “Estava a preparar o enterro do meu irmão mais novo quando soube do tiroteio pela rádio”, diz. “Primeiro, disseram que o meu irmão Abalo estava ferido numa mão mas no dia seguinte soube que não tinha resistido a fortes ferimentos no tronco. Tive de enterrar os meus dois irmãos juntos”. Abalo era treinador do ASKO Kara, uma das melhores equipas da liga togolesa, e adjunto na selecção. Estava sentado na primeira fila do autocarro quando ocorreu a primeira rajada. Quase todos os feridos graves estavam sentados na parte da frente do autocarro. Como tinha sido membro do exército, reconheceu imediatamente o som fulminante das balas. Levantou-se e gritou à equipa para se deitar no chão. Terá sido nesse fatídico instante que foi baleado. Deixou a mulher e cinco filhos. “Tenho a certeza que os seus filhos e os seus netos só vão tranquilizar quando souberem a verdade…e há muita coisa por contar”, diz Toyitom.

Vicent. Foto: João Henriques.

Nem mesmo quem estava no autocarro conseguiu perceber bem o que se passou. Os tiros saíram do mato e nenhum dos terrorista se mostrou nem por um segundo. Vincent Bossou, defesa-central de 24 anos do Étoile Sahel, estava sentado no banco à frente de Emmanuel Adebayor, capitão e vedeta da equipa, quando a chuva de balas assolou o veículo. “Estava tranquilamente a ouvir música quando ouvi um estrondo forte. Inicialmente, pensei que eram foguetes lançados pelos fãs. Mas os estrondos continuaram e toda a gente se deitou no chão. Não me parecia real, sentia-me a viver um sonho mau”, diz o jogador. “Todos chorávamos e rezávamos. Eu deitei-me a gritar por Jesus. Havia quem gritasse por Geová”, recorda Sam Oncle, director técnico da selecção. “Quando vi os ferimentos de Abalo Amelete e do Dr. Ouadja percebi a gravidade da situação. Então, vi um soldado entrar dentro do autocarro e a tocar-me com a bota no corpo. Por uns instantes, pensei que ele nos ia matar a todos mas afinal era um guarda angolano que veio organizar a defesa”. O tiroteio perdurou 15 minutos seguidos. Quando parou, os jogadores começaram a ser evacuados para carrinhas. Nesse momento, os terroristas voltaram a premir os gatilhos por mais um quarto de hora. “O objectivo deles era matar-nos a todos”, diz Vincent. O jogador, tal como todos os seus colegas está a receber acompanhamento psicológico. “Tenho muitos pesadelos e acordo sobressaltado a meio da noite. Tenho colegas meus que ainda nem conseguiram voltar a jogar. Quem disser que é possível esquecer não é realista. Jamais esqueceremos Cabinda”, diz o jogador.

Caixas

Futebol no Togo

Sem grandes tradições na modalidade, o Togo atingiu o ponto mais alto da sua história quando se qualificou para o Mundial 2006, na Alemanha. “Os Gaviões”, nome pelo qual a selecção é conhecida, disputaram o Campeonato do Mundo no grupo da França, Suíça e Coreia do Sul, saíndo da competição sem averbar qualquer ponto. A campanha da equipa ficou marcada por conflitos com a Federação Togolesa de Futebol, que reteve até ao último jogo os prémios de jogo prometidos aos jogadores pela qualificação para o torneio. Emmanuel Adebayor, conhecido no Togo pelo seu nome do meio, Sheyi, é a grande vedeta numa selecção de desconhecidos. A casa de família de Adebayor em Lomé tem a particularidade de ter uma réplica da Estátua da Liberdade no telhado, que segura uma bola de futebol na mão direita. A selecção partia para a sua sétima presença na CAN quando foi vítima do ataque terrorista em Cabinda. Já em 2007, a campanha de qualificação d Togo para a Can’2008 ficou marcada por um desaste de helicóptero que vitimou o Ministro dos Desportos. O campeonato togolês é amador e é dominado pelo Ac Semassi Sodonké, com nove títulos na sua história, e pelo Etoile Filante de Lomé, com sete.

O atentado em seis momentos

1 de Janeiro de 2010 – A equipa togolesa aterra no aeroporto de Pointe Noir, na República do Congo, onde se prepara para a CAN com dois jogos amigáveis. A CAF aconselha os adeptos das equipas do grupo B, com jogos destacados em Cabinda, a ficarem alojados em Pointe Noir, onde o custo de vida é mais barato.

8 de Janeiro (13h locais) – O autocarro da equipa togolesa parte de Point Noire para fazer os 92 quilómetros em direcção a Cabinda. É organizada uma comitiva de cerca de 20 viaturas, liderada pelo autocarro com os equipamentos e também composta por uma escolta de militares armados com metrelhadoras e granadas.

8 de Janeiro (perto das 14h locais) – Poucos quilómetros após a fronteira ente o Congo e o enclave angolano de Cabinda, um “rocket” atingiu o autocarro que liderava a comitiva, bloqueando a caravana. De seguida, rajadas de balas atingiram o autocarro onde seguia a equipa, acertando inicialmente no motorista, Mário Adjoua, que ainda tentou ludribiar os guerrilheiros conduzindo ferido cerca de 300 metros. Os primeiros tiros foram letais e incidiram especialmente sobre a parte da frente do autocarro. Stan Occlo e Abalo Amelete foram vítimas dos primeiros disparos. Seguiram-se 32 minutos de fogo cruzado, num atentado que se estima ter sido perpetuado por 15 terroristas da FLEC.

8 de Janeiro (das 15h às 19h) – A segurança armada da organização conseguiu neutralizar os disparos e os nove feridos, entre eles dois jogadores, Serge Akakpo e Kodjovu Obilalé, foram evacuados em carrinhas pick-up para o hospital. Segundo fontes próximas da equipa, três hospitais negaram o atendimento por falta de meios. A rimeira intervenção cirúrgica ocorreu às 19h, cinco horas após os ferimentos. Entretanto, a FLEC, pela pessoa do seu presidente exilado em França, Rodrigo Mingas, reivindicava o atentado.

9 de Janeiro – Os capitães das quatro selecções do grupo B reunem-se para discutir um abandono conjunto da CAN. Segundo os togoleses, Didier Drogba, pela sua proximidade com Emmanuel Adebayor, estava decidido a boicotar a competição e sentia-se inseguro. Porém, alegadas pressões da CAN levaram a que as restantes três equipas optassem pela participação. Na selecção do Togo, as opiniões dividiam-se; alguns jogadores queriam jogar, outros diziam-se incapazes. O governo togolês é chamado para decidir a contenda.

11 de Janeiro – O governo togolês ordena que a sua selecção regresse a casa alegando a falta de disponibilidade psicológica para entrar na competição. A CAF, pelo contrário, defende que o poder político penetrou ilicitamente no plano desportivo e sanccionou o Togo com a exclusão das duas próximas edições da Taça das Nações Africanas.

 Togo vs CAF

A 30 de Janeiro, a CAF decidiu suspender a selecção do Togo das competições oficiais organizadas pela Confederação nos próximos quatro anos, ou seja, afastando o Togo das duas próximas edições da CAN e obrigando a Federação Togolesa de Futebol ao pagamento de 50 mil dólares de multa. A razão da suspensão foi o alegado desrespeito da selecção pelas regras do torneio ao abandonar o torneio após o ataque terrorista de 8 de Janeiro. A Federação e o Governo togolês classificaram a decisão de “injusta e desumana”. 25 mil populares manifestaram-se nas ruas de Lomé contra a decisão, exigindo a demissão do presidente da CAF, Issa Hayatou. Actualmente, as famílias das vítimas e o governo togolês avançaram com processos judiciais no tribunal internacional contra a CAF, o Estado angolano e a FLEC.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes foram de Portugal à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.