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As manifestações e o legado da Copa

Tiago Rosa Machado

A massacrante vitória da seleção brasileira sobre a aclamada e reverenciada campeã mundial e bicampeã europeia, na final da Copa das Confederações, até poderia passar desapercebida1 não fossem alguns componentes outrora ausentes ou perdidos no cenário do futebol brasileiro. Seguindo a sugestão do placar do jogo, vamos ficar somente com 3 pontos, que obviamente poderiam ser levantadas em maior número, assim como o placar-chocolate imposto aos espanhóis: 1) as recentes manifestações que tomaram as ruas do Brasil, 2) a surrada máxima do futebol como ópio do povo e 3) as disputas pela atribuição de significados aos eventos históricos futebolísticos.

Fred comemora o gol que abriu o placar da final. Mesmo deitado dentro da pequena área ele conseguiu finalizar. Foto: Laurence Griffiths – Getty Images.

Para abrir o marcador, logo de cara, é preciso atentar para a relação que se estabeleceu entre a seleção brasileira e as manifestações que assumiram proporções inéditas no Brasil nos últimos dias. Há aqui, também, uma amplitude de possíveis conexões, tais como as mobilizações já organizadas de longa data2 e que no calor e no calendário da Copa das Confederações alcançaram maior visibilidade e amplitude. Entretanto, é para uma espécie de ufanismo patriótico que vale atentar; um desfile-ostentação de signos nacionais, muito comuns em época de Copa do Mundo, que de modo rasteiro e oportunista – tal qual o camisa 9 da seleção no 1º gol do jogo – passou a ocupar as ruas durante as mobilizações/manifestações Brasil afora. Bandeiras brasileiras, rostos pintados de guache atóxico verde-amarelo e o hino nacional sendo insistentemente entoado dispersaram-se em meio a máscaras de “V for Vendetta” e ganharam a simpatia da grande mídia. Grande mídia, vale registrar, que assumiu um farsesco e clamoroso “vira-casaca” e, como num rápido “dois-toques”, viu seus próprios jornalistas envolvidos pela violência policial e, ato contínuo, o grande mobilizar das massas igualmente reprimida pela polícia; como resposta, rapidamente substituiu “baderneiros” por “manifestantes” (veja o vídeo ao final do texto), deixou em impedimento a ação de “uma minoria de vândalos” e, no afã de virar o jogo das pautas de anos de trabalho das organizações sociais, elidiu as propostas objetivas e aplaudiu os gritos disformes “contra a corrupção”, “sem partido”, “pelo Brasil” etc. Jogadores e comissão técnica brasileira foram instigados a opinar sobre as manifestações e, como não poderia deixar de ser, apoiaram os protestos.

A execução do hino brasileiro antes dos jogos condensou essa conjuminância um tanto bisonha de fatores. As competições internacionais de futebol, para emular e excitar os ânimos dos nacionais impõem a execução dos hinos dos países representados em campo; por puro “time is money” e para poupar o público de chatice maior, os hinos são executados sem letra e editados de modo a cabem em pouco mais de 1 minuto. Entretanto, já no jogo Brasil x México, na 1ª fase do torneio, e depois acalorado na semi-final contra o Uruguai e, ainda mais, fazendo entornar o caldo na final do Maracanã os torcedores de Fortaleza, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, junto aos 11 jogadores brasileiros, cantaram com fúria (sem trocadilhos com a seleção espanhola) as rebuscadas e semi-enigmáticas rimas de Osório Duque Estrada, mesmo após o fim do rápido playback. A essa demonstração de crença numa abstração nacional – pretensamente alçada a condição de pureza ideológica – o jornal espanhol “Marca” assinalou como fundamental para o gol inicial de Fred: “Brasil comenzó la goleada con su himno”. Não subjuguemos, ganhar no futebol está entre as coisas mais importantes para a identidade nacional brasileira.

Negligenciado durante muito tempo pela esquerda e ainda renegado a manifestação pouco séria, o futebol – e mais particularmente a seleção brasileira – e também o poder de inflamação do hino nacional (associados ou não) são sim importantíssimos campos de disputa e podem servir para um melhor entendimento das questões que estão postas.

Num arremate forte e certeiro, no momento mais propenso Neymar faz 2 a 0 e comemora. Foto: Mowa Press.

“A equipe jogou muito além do esperado e fizemos muita gente feliz.”

Volta e meia a questão do futebol como ópio do povo reaparece, e desta vez não foi diferente. Com a vitória brasileira na final da Copa das Confederações não demorou para que questões do tipo “Com a vitória brasileira as manifestações irão acabar?” surgissem. Evidentemente que estando no centro das atenções mundiais do futebol e recebendo jornalistas e turistas de várias partes do mundo as manifestações no Brasil ganharam grande notoriedade em todo o planeta. Protestos marcados nas praças e horários dos jogos mais importantes escancararam a subserviência imposta pela FIFA e a permissividade cruel dos Estados que desejam abrigar suas competições, obrigados que são a extrapolar o uso de armas (não usaremos o eufemismo “não letais” por respeito à espécie humana) e de seu material bélico “humano”. A reação da população brasileira à imposição de um Estado de sítio supranacional pela entidade máxima do futebol mundial foi elogiada até mesmo pelos riquinhos europeus da Alemanha, que receberam a FIFA no mundial de 2006. A ocupação dos espaços e a marcação cerrada dos comandados de Felipão na histórica final contra os espanhóis só encontrou paralelos nos manifestantes que por meio de suas ações escancararam para todo o mundo as remoções higienistas, os incêndios premeditados, a intransigência especulativa, a elitização do esporte mais operário da modernidade, o conluio fraudulento entre as entidades do futebol mundial e os grandes grupos midiáticos, o mau-caratismo da classe dos dirigentes esportivos e as grandes corporações que os financiam, e tantos outros “poréns” (Blatters, COLs, Havelanges, Marins, Del Neros etcaterva) que parasitam este fenômeno social total e maravilhoso que é o futebol.

Se é válido evocar a máxima “ópio do povo”, por que não questionar o próprio uso desta já batida expressão? Por acaso não sabe o povo o que faz, de modo a ser sempre enganado/sedado por obra de alguém? Não é já clarividente – em meio à medicalização social pós moderna – que a diferença entre o veneno e o remédio é só a dose de sua administração? Acaso não há prazer no ópio ou, genericamente, em fazer uso de alguma substância que altere a percepção de mundo? Mais a fundo, quase que numa viagem digressiva, não estaria o consumo destas substâncias, em sua maior parte, associado a uma busca por uma condição mais alegre, livre e feliz de vida? Ora, já bem frisou César Menotti, técnico da seleção Argentina campeã da Copa de 78 – aquela tida por alguns como a mais manipulada pelos homens da caserna: “el fútbol fue siempre una hermosa excusa para ser feliz”. No Brasil também não faltam exemplos de que o futebol transcende os significados rasos que lhe atribuem os pragmáticos de plantão: a seleção de 70, militarizada pelo “pra frente Brasil”, punha em prática exercícios de liberdade que alimentaram fundamentais movimentos no futebol brasileiro, tais como a resistência de Afonsinho e a Socrática Democracia Corinthiana. É então o futebol o ópio? Sim!, obrigado, por que não seria? É nosso pão e circo? “Diversão é solução sim”, e se for no circo do futebol, que seja com Garrincha e sua trupe. Afinal, como disse Eduardo Galeano, Garrincha “foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol. Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa”.

Fred bate colocadinho, sem defesa para o adversário: 3×0. Foto: Tânia Rego – Agência Brasil.

O que está em jogo, então, e que dá números finais a este placar, é a busca contínua pela significação dos eventos, pela seleção fatos (sempre pretensamente apresentados como portadores de alguma neutralidade), pela atribuição de sentido às vivências sociais. Tanto no futebol como nas manifestações de rua. Nos últimos dias alguns valores perderam status e tantos outros passaram a ser compartilhados no cenário de mobilizações Brasil afora. Não seria temerário dizer que o brasileiro deixou pra trás a pecha de ser submisso (ditado este moldado e imposto por meio de muita repressão ao longo de nossa história), de não se mobilizar pela busca de seus anseios (de qual setores sociais estavam falando?) e, também, de não mais se empolgar com a seleção brasileira. A 1 ano da Copa do Mundo, evento bem mais grandioso e capaz de condensar ainda mais as atenções do mundo, a solução dos conflitos que estão aí postos e que foram retro-alimentados pela preparação do Brasil para abrigar a Copa de 2014 – seja em relação à política (que em todas as esferas elege e financia obscuramente as suas prioridades), ao policiamento (que tal e qual o futebol passa a ser questionado em termos de sua militarização) e à estruturação do futebol brasileiro (reduto sinistro do coronelismo de cartola) – passa, se ainda houver tempo, pelo início imediato da reparação de injustiças históricas e pela atenção a estas palavras que há anos ecoam das ruas e das arquibancadas do Brasil.

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[1] Quem se lembra das finais da ConfCup Brasil 6×0 Austrália, em 1997? e da mais recente Brasil 3×2 EUA, em 2009?)

[2] Basta lembrar as mobilizações contrárias à Copa do Mundo, contra as remoções forçadas para a construção ou acesso aos estádios, contra o emprego de verbas públicas no financiamento de tais obras ou mesmo por mais transparência no esporte brasileiro e particularmente na gestora do futebol nacional, a CBF – esta também em recente processo de mudança, fruto das pressões advindas de diversos setores da sociedade.

Como citar

MACHADO, Tiago Rosa. As manifestações e o legado da Copa. Ludopédio, São Paulo, v. 49, n. 1, 2013.