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Museu do Impedimento: as mulheres e o futebol

Wagner Xavier de Camargo

 

Dizem que mulher não sabe o que é impedimento! Ouvi a afirmação de uma voz, assim que adentrei ao salão especial denominado “Museu do Impedimento”, um espaço criado para expor histórias e agregar memórias de um tempo em que mulheres eram proibidas de jogar futebol no Brasil e no mundo (um período que variou de 1921 a 1979). Tal local foi estrategicamente arquitetado logo na entrada, ainda no piso térreo do Museu do Futebol, dentro do Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Museu do Futebol no Estádio do Pacaembu. Fonte: Wikipédia

Assim que ouvi tal voz, um misto de sensações percorreu meu corpo. Uma música de fundo me capturou e logo percebi ela vinha de um depoimento de Asaléa de Campos F. Medina (ou Léa Campos), a primeira árbitra brasileira de futebol, cuja imagem era projetada numa imensa tela, na parede contrária à entrada da sala. Ali fiquei durante mais de vinte minutos.

O depoimento de Léa se intercambiava com o de Mariléia dos Santos (a Michael Jackson), uma grande artilheira da história do futebol feminino no país. Os relatos, a indignação, os dados pessoais de sofrimento e aquela música de fundo me fizeram chorar. A emoção veio pela identificação, lembranças de infância na qual também me acusavam de não saber o que era impedimento e de também não saber jogar futebol. Meninos de ontem, homens de hoje. Tristes anos de socialização!

Léa Campos relatava que foram anos difíceis, que brigou, inclusive, com familiares para se manter no mundo do futebol. A exposição mostra que ela foi a primeira mulher do mundo a se tornar árbitra profissional de futebol, inclusive sendo convidada pela FIFA para arbitrar um torneio internacional de futebol feminino no México, em 1971. Ela contou, no vídeo que rolava incessante na projeção, ter sido presa mais de 15 vezes durante o período de proibição e que policiais, ao chegarem nos estádios, perguntavam a ela: “você, de novo?”.

Garanti um disfarce neste momento de intensa emoção com a presença de uma excursão universitária, que recém-chegada, invadiu o salão. Enfim, o anonimato emocionado na multidão. Vários estudantes andavam de um lado a outro, curiosos acerca das informações, objetos e fotos que nunca tinham visto. Um grande painel ao fundo da sala trazia uma cronologia do impedimento e do tempo em que as mulheres eram proibidas de praticar o esporte bretão. Um simpático senhor veio me perguntar se eu estava me sentindo bem e me convidou para ver o estádio por dentro, pois havia ali ao lado uma passagem liberada e que dava acesso à paisagem do campo.

Na volta da rápida espiadela ao interior do Pacaembu, e na contramão dos curiosos estudantes que para lá se encaminhavam, consegui acessar os escritos dos pôsteres da exposição, agora descongestionados e liberados para leitura, espalhados pelo grande galpão. Já tendo visitado o interior do Museu do Futebol noutros tempos, percebi que alguns dados vinham de materiais lá de dentro e outros eram oriundos de arquivos pessoais das personagens ali entrevistadas. O exímio trabalho teve coordenação de Mariana Chaves, e pesquisas e textos, de Camila Aderaldo e Ligia Dona, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro no Museu do Futebol.

Consta que a primeira partida de futebol feminino se deu em 1898, em Londres, entre equipes de mulheres da Inglaterra e da Escócia. Norbert Elias, um sociólogo que tornou o esporte um problema de pesquisa, já nos mostrou que o futebol vai se expandindo na sociedade europeia ao longo do século XIX devido, particularmente, a uma maior sistematização e uniformidade da prática. Na Inglaterra, por exemplo, a modalidade é codificada por volta de 1863.

Desde o início, e por suas origens aristocráticas e machistas (afinal, naturalizou-se como uma prática de homens e entre homens), o futebol vai ser vetado a mulheres que queriam jogá-lo. A Football Association (F.A.) na Inglaterra estabelece o veto já em 1921, dizendo que jogos de mulheres não poderiam acontecer nos espaços usados pelos clubes membros da associação – e isso vai até 1971.

Exposição do Museu do Futebol. Fonte: Wikipédia

No Brasil, manobras políticas impediram o futebol de mulheres a partir do Decreto-Lei n. 3.199, de abril de 1941, que proibia tal prática simplesmente porque se acreditava que o jogar bola era “incompatível” (aspas irônicas) com o corpo feminino. Na página da legislação informatizada, no caput do artigo 54 da lei, encontra-se a redação: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

Nesse sentido, a instalação do Museu do Impedimento é uma excelente iniciativa para registrar parte desta história e nos fazer lembrar que houve muita luta por trás deste futebol de mulheres que conhecemos hoje. Museus são espaços de memória, que exercem importante responsabilidade social no resgate histórico de perspectivas subalternizadas. Neste caso, o Museu do Impedimento nos mostra uma história desconhecida, de uma parcela da população por muito tempo excluída das práticas futebolísticas. Com um acesso cultural até então negligenciado, ele nos oferece outros modos de expressão para a constituição de nossa subjetividade e exercício de nossa cidadania.

Depois disso, não há como apenas se contentar com a “história oficial dos fatos” na modalidade. O futebol é também outro, múltiplo. Nós somos outros, diferentes. E à semelhança do que disse Mariléia no vídeo-documentário que assisti muitas vezes (“ninguém vai me deter, ninguém vai me parar”), que o futebol de mulheres sempre resista e nunca pare!