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As ruínas do Estádio Avanhard e os rastros do futebol em Pripyat como testemunhos da tragédia nuclear de Chernobyl

Thiago Carlos Costa

Partindo do conceito de história proposto por Walter Benjamin, quando o mesmo afirma que; “a história é objeto de uma construção cujo o lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”.”[1]. Assim analisar eventos históricos se torna um desafio para o pesquisador, principalmente quando o que chama a atenção são as ruínas, os rastros e as lacunas que em alguns momentos a escrita da história teima em suprimir. Portanto, neste breve texto proporemos uma reflexão sobre como as ruínas do Estádio Avanhard levam a pensar e pesquisar sobre o futebol em Pripyat, a sua tragédia radiotiva e suas conexões com a sociabilidade local.

No último dia 26 de abril de 2016 foram relembrados os 30 anos do acidente na Usina Nuclear de Chernobyl, localizada na Ucrânia, que à época integrava a extinta União Soviética. Ao longo destas três décadas foram produzidos diversos documentários, artigos e reportagens que tratam do tema da tragédia nuclear de Chernobyl, mas duas questões me chamaram a atenção. A primeira são as imagens das ruínas, e o avançado estado de deterioração das edificações, ruas, avenidas acompanhadas pelo avanço da vegetação e da vida selvagem na região urbana de Pripyat nestes últimos trinta anos. Uma segunda questão me foi posta por indicação da minha esposa, quando me apresentou o livro, Vozes de Tchernóbil: Crônica do futuro[2], escrito pela jornalista e escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, premiada com o Nobel de Literatura em 2015. Neste livro a autora fez uma detalhada e profunda pesquisa de história oral com pessoas diretamente e indiretamente ligadas ao acidente nuclear de Chernobyl. Assim, Svetlana Aleksiévitch consegue dar vozes para mulheres, operários, liquidadores, soldados, camponeses, cientistas e outras testemunhas oculares, protagonistas e vítimas desta tragédia. No livro são narradas cenas terríveis de uma história dramaticamente silenciada, mas que nesta obra ganhou força nos relatos das cenas indizíveis produzidas pelo acidente na usina. Este livro se configura talvez em uma das obras mais contundente sobre a tragédia de Chernobyl, pois dá voz às pessoas envolvidas neste evento traumático.

Imagem do Estádio Avanhard em 1986.

Imagem do Estádio Avanhard em 1986. Foto: Reprodução.

Imagem do Estádio Avanhard, atualmente.

Imagem do Estádio Avanhard, atualmente. Foto: Reprodução.

Retomando a questão do panorama das ruínas de Chernobyl e Pripyat, com suas ruas, avenidas, edificações e paisagens, que compõem hoje em 2016, um cenário fantasmagórico, podemos aqui refletir sobre a história do vazio, observando as ruínas das edificações e pesquisar nos rastros como índices para se pesquisar a memória constituída naquela sociedade. O livro de Svetlana Aleksiévitch ajuda muito a compor esse contexto social de antes e depois do acidente, propondo uma leitura de alguns aspectos da sociedade de Pripyat e Chernobyl. Nestas cenas das ruínas podemos propor um diálogo com o passado destas duas cidades ucranianas e pelos rastros tentar visualizar alguns aspectos da vida local até a tragédia nuclear. Portanto, dentre as ruínas de Pripyat, as imagens de um estádio de futebol abandonado me chamaram a atenção para a prática do jogo e suas relações na sociedade local. A cidade de Pripyat foi inaugurada pelo governo da União Soviética (URSS) em fevereiro 1970 para servir de moradia para os trabalhadores (e para suas famílias) da Usina Nuclear, construída em Chernobyl, cidade que ficava a pouco mais de 5 quilômetros da nova cidade. Entre os anos de 1950 e 1980, havia na URSS um intenso trabalho em torno da energia nuclear para diversos fins, e uma série de usinas deste tipo e cidades para os trabalhadores foram construídas. A cidade de Pripyat fica cerca de 100km de distância de Kiev, capital da Ucrânia, e também aproximadamente menos de 20km da fronteira com a Belarus. Naquele momento a cidade de Pripyat foi à nona cidade deste tipo construída pelo governo soviético. Estas cidades eram providas de toda a infraestrutura necessária, como prédios residenciais, escolas, hospitais, transportes, praças, centros comerciais, espaços culturais e demais espaços de sociabilidade. A cidade de Pripyat chegou a ter uma população em torno de 50 mil habitantes às vésperas do acidente na usina nuclear.

Inserido nesse contexto de crescente vida social na cidade de Pripyat foi criado em meados dos anos de 1970, o FC Stroitel Pripyat[3] time de futebol da recém-inaugurada cidade. O elenco e comissão técnica do time eram compostos por atletas de Chernobyl, Pripyat e de vilarejos próximos às duas cidades ucranianas. A trajetória do FC Stroitel Pripyat foi relativamente discreta, sendo que nos primeiros ele atuou em torneios locais de modo semiprofissional. A partir de 1981, o Stroitel Pripyat passou a jogar um campeonato regional na região de Kiev, que servia de etapa intermediária para o acesso a terceira divisão do forte campeonato soviético de futebol. Ao longo da primeira metade da década de 1980, o Stroitel conseguiu sua melhor colocação em 1985, quando ficou em segundo lugar, quase atingindo o seu objetivo, gerando uma expectativa de sucesso no time e na sua torcida. Até então, o Stroitel mandava seus jogos em um pequeno estádio, e com a boa campanha de 1985, conseguiu apoio para a construção do Estádio Avanhard, que teria capacidade para 5 mil pessoas. O desenvolvimento do time na promissora cidade de Pripyat era crescente, e o time já no início dos anos de 1980 contava já com atletas em times infantis e juvenis, formando suas divisões de base. O ano de 1986 parecia ser promissor para o futebol do Stroitel Pripyat que jogaria no seu novo estádio que seria inaugurado no 1º de maio daquele ano, colhendo as boas expectativas da temporada anterior.

Mas em 26 de abril de 1986, ocorreu a explosão do reator 4 da Usina Nuclear em Chernobyl, jorrando uma nuvem radioativa que contaminou o ar, vegetação, solo e rios da região. Segundo informações[4], o Stroitel teria um jogo contra Borodyanka no mesmo dia 26 de abril, pela Taça regional de Kiev, mas a partida foi cancelada por conta do acidente nuclear. Simultaneamente, o governo soviético tentou conter os desdobramentos do acidente na usina em Chernobyl com os trabalhos de bombeiros e soldados, mas começou a evacuar a região apenas 36 horas após a explosão do reator. A nuvem radioativa percorreu rapidamente a Europa, passando nos dois primeiros dias, pela Belarus, chegando à Alemanha, Suécia e França que deram o alerta de níveis de contaminação radioativa acima dos normais para a comunidade internacional. Imediatamente foi estipulada uma zona de exclusão de cerca de 30 km no entorno de Chernobyl e Pripyat, e os cerca de 50 mil habitantes da região foram retirados da região contaminada e levados para outras cidades soviéticas. A ação de rescaldo na Usina de Chernobyl e em Pripyat, foi iniciado de pronto, inclusive atletas e membros do Stroitel Pripyat participaram desse trabalho, – estas e outras pessoas que, desde o acidente trabalharam nesse rescaldo foram denominados; de liquidadores.

Imagem de 1986, de crianças do time infantil do Stroitel Pripyat, brincando no campo. Yuevsyukova--Mistetstvo-1986

Imagem de 1986, de crianças do time infantil do Stroitel Pripyat, brincando no campo. Yuevsyukova–Mistetstvo-1986. Foto: Reprodução.

Imagem do time juvenil do FC Stroitel Pripyat com a comissão técnica.

Imagem do time juvenil do FC Stroitel Pripyat com a comissão técnica. Foto: Reprodução.

Imagem do time principal do Stroitel Pripyat em 1986.

Imagem do time principal do Stroitel Pripyat em 1986. Foto: Reprodução.

Passado o acidente, fora dessa zona de exclusão, foi criada a cidade de Slavutich[5] para abrigar os trabalhadores da usina nuclear. Cabe ressaltar que a explosão aconteceu no reator 4 da Usina, e haviam mais 3 reatores que foram mantidos em funcionamento até meados dos anos 2000. Obviamente o FC Stroitel Pripyat foi transferido para Slavutich e passou a se chamar FC Stroitel Slavutich. O time retomou suas atividades já em 1987, conseguindo um terceiro lugar na liga regional, mas em 1988, após uma fraca campanha, o time foi extinto. Há registros da retomada do futebol profissional em Slavutich em 1994, com o nome de FC Slavutich, o time atuou entre os anos de 1995 até 1998, quando encerrou suas atividades. Esta ruptura do futebol em Pripyat e o reinício em Slavutich, e a extinção do time, levantam uma série de questões sobre a prática do esporte. Qual foi o destino de seus jogadores, treinadores, além da sociabilidade proporcionada pelo jogo em paralelo a própria fragmentação política ocasionada pelo fim da União Soviética em 1991. De modo geral, antes do acidente radiativo, o futebol em Pripyat parecia estar em franco crescimento tendo em vista os relatos, imagens e cenas dos times infantis e juvenis na cidade, além do próprio desempenho do time principal na liga local. Mas obviamente o acidente na usina nuclear e o compulsório abandono de Pripyat fragmentaram o time, e os desdobramentos imediatos ao deslocamento para Slavutich demandaria uma pesquisa mais aprofundada.

Retomando ao início do ponto de partida desse texto sobre como as ruínas do Estádio Avanhard servem de gatilho para pesquisar os rastros do futebol em Pripyat para se refletir a sociabilidade local, concluímos que estas ruínas trazem consigo estes rastros, como relatos, imagens, documentos numa composição desse mosaico de uma ruptura violenta proporcionada pelo acidente nuclear. Conceitualmente pensar as ruínas e os rastros pelo viés benjaminiano e sua construção de sentido passa por:

“Fundir a visão alegórica à do historiador é crucial para Benjamin. Ele reitera a importância dessa fusão na descrição do caráter destrutivo que “converte em ruínas” as coisas do mundo para que, assim, possa ver “caminhos”, “significados” dentre elas. No seu sentimento de desconfiança da “marcha das coisas”, ele traz para si a possibilidade de “conhecimento” do malogro da história. Não ficando de olhos fechados para esse malogro, as ruínas são, para ele, alegóricas, já que podem ser transformadas, experimentadas de uma nova forma.”[6]

Portanto, neste breve texto, tratamos como as lacunas proporcionadas pelas ruínas de um estádio de futebol que nem chegou a ser inaugurado serve de testemunho para se pensar o tempo histórico com suas rupturas, deslocamentos e ressiginificados. Concluo que a escrita da história se torna fascinante justamente por essa possibilidade de construção de narrativas a partir de fragmentos teoricamente silenciados e postos em conjunto sendo paradoxal, pois a esse direcionamento é ora salvação, ora uma violência iconoclasta.

[1] BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras escolhidas. Volume 1. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.229.

[2] ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil: crônica do futuro. Tradução: Sonia Branco. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[3] http://www.sports.ru/tribuna/blogs/golden_ball/605515.html

[4] http://trivela.uol.com.br/chernobyl-30-anos-o-clube-que-sumiu-do-mapa-e-o-estadio-que-nunca-inaugurou/#6

[5]http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/04/conheca-cidade-construida-para-substituir-pripyat-perto-de-chernobyl.html

[6] OLIVEIRA, Elane Abreu de. A ruína e a força histórico-destrutiva dos fragmentos em Walter Benjamin. In: Cadernos Walter Benjamin. ED. UECE. Periódico N.9, Julho a Dezembro de 2012. p.33