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Assistente de Arbitragem das Redes Sociais: método de controle e punição

Marco Antunes de Lima

No último dia 6 de março, após a derrota do Paris Saint Germain para o Manchester United por 3 a 1 e a consequente eliminação do time francês da Liga dos Campeões da UEFA nesta temporada, o brasileiro Neymar Jr. postou uma nota em sua página pessoal na rede social Instagram reclamando da marcação de um pênalti a favor do time de Manchester, que acabou decretando a eliminação do PSG. O craque brasileiro, que não jogou, apenas assistiu à partida no estádio, pois estava contundido, escreveu:

“Isso é uma vergonha!!! Ainda colocam 4 caras que não entendem de futebol pra ficar olhando lance em câmera lenta. Isso não existe!!! Como o cara vai colocar a mão de costas? Ah vá pá pqp”

Reprodução Instagram Neymar Jr (@neymarjr).

Clayson foi julgado por sua injúria ao árbitro no dia 17 de abril, correndo o risco de ser suspenso da partida final do Campeonato Paulista, mas o Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo resolveu, por 3 votos a 1, apenas advertir o atacante corintiano e permitiu que ele disputasse o jogo final, que seria apitado pelo próprio Raphael Claus.

Já no último dia 8 de abril, o atacante do Corinthians, Clayson, ao sair para o vestiário comemorando a classificação de sua equipe para a final do Campeonato Paulista, após eliminar o Santos nas cobranças de penalidades, foi filmado proferindo palavras ofensivas direcionadas ao árbitro da partida, Raphael Claus. O atacante teria dito “chupa, Claus!”. O mais irônico, talvez, é que o vídeo foi filmado e postado nas redes sociais pelo próprio clube que Clayson defende.

Imagem de Clayson logo após ter proferido xingamentos ao árbitro Raphael Claus. Reprodução: Corinthians TV.

 

Infelizmente, para Neymar foi diferente. A comissão disciplinar da UEFA (CEDB) suspendeu o jogador por três jogos, a serem provavelmente cumpridos nos três primeiros jogos do PSG na próxima Liga dos Campeões da UEFA. É bom deixar claro, que não foi a primeira vez que a UEFA puniu um jogador por críticas à arbitragem. O goleiro Buffon, companheiro de Neymar no PSG, quando jogava ainda na Juventus de Turim, recebeu punição semelhante por críticas pós-jogo ao árbitro da partida contra o Real Madrid. Entretanto, percebo algo diferente no caso Neymar: ele não estava nem jogando, nem mesmo relacionado; estava apenas acompanhando o seu time das arquibancadas.

Entendo que, dentro de campo, durante a partida, um jogador, seja lá ele quem for, tem que ter controle emocional e não proferir xingamentos ou críticas ostensivas contra a equipe de arbitragem, torcedores ou adversários, pois corre o risco de ser advertido com cartões e, posteriormente, suspenso por aquilo que os árbitros colocam na súmula. Isso faz parte das regras do esporte. Mas, repito, isso tudo dentro do campo, durante a partida. Somente. Não foi o caso de Clayson e, muito menos, o de Neymar.

Clayson proferiu as ofensas contra o árbitro Raphael Claus a caminho do vestiário, com o jogo terminado. O jogador provavelmente estava desabafando aquilo que não poderia falar dentro de campo, pois seria justamente advertido pelo árbitro. Nada mais normal para quem sabe o quanto um jogo de futebol pode conter de emoções reprimidas. Ora, me parece que os velhos dirigentes da bola paulista, ao enquadrar Clayson para julgamento por ofensas pós-jogo ao árbitro, as quais, por sinal, não estavam na súmula, não têm a mínima ideia do tanto de emoções contidas em uma partida de futebol. Os dirigentes me parecem proteger demais figura do árbitro, que, na visão do torcedor, não está lá para conduzir o jogo, mas sim para atrapalhar o jogo de seu time. Clayson não é torcedor, que pode (e deve) ficar ofendendo o árbitro durante a partida, mas é humano, e tem o direito de desabafar aquilo que sente sem ser julgado por isso. Os dirigentes do TJD-SP não deveriam julgar Clayson por seu desabafo contra o árbitro. O máximo que poderia acontecer é, se bem Claus entendesse, abrir processo contra o jogador Corintiano contra injúria, pois ela sem dúvida ocorreu. Mas, se assim o fizesse, teria que abrir processo contra os milhares de torcedores que o injuriam pelas redes sociais cotidianamente.

O caso de Neymar Jr, a meu ver, é ainda pior. Reflete uma exagerada ingerência dos dirigentes esportivos na vida dos atletas profissionais. Neymar postou críticas à arbitragem após a partida, claramente irritado com o que julgava ser um erro de interpretação da imagem do árbitro de vídeo. Não cabe aqui discutir se a marcação do pênalti a favor do Manchester United foi correta ou não. Não cabe discutir se a crítica feita por Neymar era válida ou não. O que cabe discutir é que Neymar não estava nem em campo, não estava nem relacionado para a partida; era tão somente mais um torcedor do Paris Saint Germain naquele momento e ele teria todo o direito de fazer a crítica que ele quisesse em suas redes sociais sem ser julgado e punido pelos dirigentes da UEFA.

Os jogadores profissionais de futebol são pessoas como todos nós, como, inclusive, todos os dirigentes e todos os representantes da imprensa esportiva. São pessoas que, além de participarem da partida, também sentem felicidades e frustrações advindas dessas partidas, assim como os dirigentes esportivos, torcedores e membros da imprensa. Qual o sentido de punir um jogador por ele ter emitido uma opinião sobre a arbitragem da partida, após o jogo e fora de campo? Não vejo nenhum sentido nisso. Só vejo um controle autoritário por partes dos dirigentes organizadores e seus tribunais de direito esportivo com o intuito de regular comportamentos daqueles que realmente proporcionam o espetáculo futebolístico.

Lyon Olympic Stadium, Décines-Charpieu, France. Foto: Thomas Serer/Unsplash.

Em uma democracia, e entendo que o mundo do futebol deveria ser tratado de maneira democrática, todos têm direito à opinião, sejam elas sobre lances do jogo, sobre a atuação da arbitragem, sobre a atuação dos próprios atletas; torcedores sobre jogadores e jogadores sobre torcedores, torcedores e jogadores sobre dirigentes e membros da imprensa e vice-versa. Por mais que haja exageros nas redes sociais, e existem, existem maneiras no Direito capazes realmente de punir esses exageros, conhecidas como Leis. Mas, um dos maiores direitos adquiridos pelos cidadãos, Neymar e Clayson e outros atletas assim são, é o da livre expressão. E o que os tribunais esportivos estão fazendo é cerceando esses direitos.

A imprensa esportiva progressista muitas vezes cobra os atletas profissionais para exporem sua posição política, inclusive Neymar Júnior. Este autor que vos escreve também não é diferente, principalmente com Neymar. Não me parece justo aceitar a punição dada pela UEFA a Neymar por ele ter emitido uma opinião sobre a arbitragem de um jogo. É preciso cobrar que dirigentes parem de punir atletas por suas opiniões e passem a cobrar outros dirigentes e até mesmo torcedores por seus crimes de racismo, por exemplo. Problema sério na Europa do século XXI (triste isso, não?), o racismo não é punido pela UEFA da mesma forma que jogadores que criticam a arbitragem são punidos.

O assunto do momento no futebol é o debatido e polêmico VAR (Video Assistant Referee), que tem servido para ajudar os árbitros nas decisões referentes ao jogo e que tem como ideia demonstrar uma transparência nas decisões das arbitragens durante a partida. Mas me parece que os dirigentes vêm usando ao mesmo tempo um instrumento de controle sobre os atletas e suas opiniões (usam este instrumento antes do VAR), instrumento que vou chamar de Assistente de Arbitragem nas Redes Sociais. Nada mais do que uma maneira autoritária de controlar a opinião dos atletas com o intuito de proteger decisões polêmicas da arbitragem.

Vale aqui, no final deste texto fazer uma observação sobre o ocorrido neste último dia 27 de abril com o brasileiro Neymar Júnior na final da Copa da França. Após a partida, na qual o PSG perdeu nas cobranças de penalidades para o Stade Rennais, Neymar Jr., entre outros jogadores, foi provocado por um torcedor adversário. O atleta brasileiro, subindo as escadas visivelmente decepcionado com o resultado empurrou o celular do torcedor e desferiu um soco contra a boca deste mesmo torcedor. Ato errado de Neymar, mas perfeitamente compreensível em minha opinião. Como o próprio atleta disse: “ninguém tem sangue de barata”. O torcedor provocou não só Neymar, que estava saindo nervoso de campo, após ter feito uma boa partida, mas sua equipe ter perdido. O atleta provavelmente sofrerá um processo do torcedor por lesão corporal e será punido pela Federação Francesa de Futebol, organizadora do evento. Não julgo Neymar pela atitude. Foi errada, mas ninguém tem sangue de barata.