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Atletas-militares e os Jogos Olímpicos

Wagner Xavier de Camargo

Dia desses recebi uma ligação telefônica de um amigo, que disse já fazer parte de um grupo de atletas-militares de dada modalidade, que representarão o Brasil em Tokyo-2020. Segundo mencionou, ele foi incorporado no Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas Brasileiras. Portanto, tornou-se, então, um “atleta-militar”, com direito, inclusive, ao hífen no termo.

Não sei se me lembro bem, mas, de acordo com regras da formação de substantivos compostos na língua portuguesa, quando dois termos distintos se juntam por composição (no caso, atleta e militar), o terceiro substantivo formado é único e tem outro significado (atleta-militar), tendo o plural, igualmente, flexionado nos dois termos (atletas-militares).

E a questão semântica não foi a única tônica de nossa conversa por alguns bons minutos pelo telefone. Ou seja, no momento em que vivemos no país, a adesão voluntária deste amigo a tal programa não é uma “decisão tranquila e sem consequências”, conforme ele defendeu. Apesar de ter à disposição instalações esportivas militares adequadas para treinamento (em centros da Marinha, Exército e Aeronáutica), além dos benefícios de uma carreira de atleta (como salário, 13º, férias, plano de saúde com nutricionista, fisioterapeuta e equipe médica), a resolução de se tornar atleta-militar é muito séria, pois o vincula a um modo de proceder específico.

A boxeadora Beatriz Ferreira e o ginasta Arthur Nory levaram o Prêmio Brasil Olímpico 2019 e, como atletas-militares, vestiram para a ocasião trajes respectivos. Foto: Abelardo Mendes Jr/rededoesporte.gov.br.

É de se supor, como bem mostram dados do passado, que a equipe de atletas-militares nos Jogos Olímpicos de Tokyo-2020 será bem maior do que em outras edições.

No Rio-2016, por exemplo, houve ampla divulgação midiática de que o Ministério da Defesa tinha ultrapassado as metas estabelecidas ao levar mais atletas-militares para integrarem as seleções olímpicas. As federações e confederações esportivas nacionais têm apoiado tal iniciativa (incluindo aí os Comitês Olímpico e Paralímpico Brasileiros).

Em que pese tal incorporação ser novidadeira no cenário esportivo nacional recente, ao menos na última década, militares-atletas (aqui outro substantivo composto) já participaram noutras vezes de competições esportivas representando o país, notadamente nos Jogos Olímpicos de Verão.

A judoca Rafaela Silva, atleta-militar, prestou continência à bandeira no pódio dos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015, durante o hino nacional brasileiro, após receber medalha de ouro. Foto: Divulgação.

Nos Jogos de Antuérpia-20, na Bélgica há 100 anos, a primeira medalha olímpica do Brasil veio de Guilherme Paraense, um tenente do Exército brasileiro, que ganhou de Raymond Bracken, na prova de tiro com pistola. A arma era emprestada da própria equipe americana de tiro, uma vez que os brasileiros estavam com revólveres entupidos devido a um vendaval ocorrido no campo de treino. Notadamente, outro atleta de destaque foi “João do Pulo”, o João Carlos de Oliveira, grande destaque no salto triplo, que era sargento do Exército – ele manteve o recorde mundial desta prova por mais de dez anos.

Os Jogos Mundiais Militares (JMM), por sua vez, ganharam protagonismo nos últimos anos. Criados em 1995 como parte da celebração dos 50 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, tais competições se realizaram em Roma na ocasião e atraíram cerca de 4 mil atletas. Desde então, com (ainda) oscilante número de participações, os Jogos têm se realizado a cada quatro anos. Dentro da “década esportiva” que o Brasil viveu (desde 2007 com o Pan-Americano), os JMM de 2011 aconteceram no Rio de Janeiro, como evento-teste da cidade para as Olimpíadas brasileiras anos mais tarde.

Nesses jogos, os atletas-militares ficaram em primeiro lugar, obtendo um total de 114 medalhas. Foram 45 ouros, 33 pratas e 36 bronzes. Na edição seguinte, na Coréia do Sul, em 2015, o país conquistou a segunda colocação com 84 medalhas ao todo, atrás apenas da Rússia, que se configura como a maior potência esportiva militar do planeta.[1] Na edição de Wuhan-2019, o Brasil alcançou 88 medalhas, sendo 21 de ouro, 31 de prata e 36 de bronze.[2]

A atleta-militar Fabiana Beltrame, medalha de prata no remo nos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015, também bateu continência no pódio. Foto: Divulgação.

O que tem sido interessante ler sobre este fenômeno é que pesquisadores o tem nominado como esporte militar brasileiro, como se, por consequência da participação cada vez maior de atletas que se voluntariam para representar as Forças Armadas em competições esportivas, o próprio esporte do país se transformasse em algo novo. Será que teremos que todo esporte brasileiro se verterá em militar? Ou seja, pela lógica dos substantivos compostos, um esporte-brasileiro-militar?

Quanto ao meu amigo-conhecido (olha outra categoria composta sendo criada), não sei o que a ele acontecerá. Não consigo dizer se sua decisão reverterá em benefícios de longa duração para si, mesmo porque, em que pese sua modalidade permitir uma faixa etária mais avançada, penso que a meritocracia envolvida nestes programas governamentais (não só nos esportivo-militares) talvez resulte em uma morte prematura (sem hífen) na praia de seus sonhos.

Desejo, no entanto, o que um conhecido-amigo pode desejar: que a experiência olímpica lhe transforme e lhe ajude a enxergar as múltiplas faces do esporte, não só a normativa, nem somente a hierárquica, mas a do prazer de praticar uma modalidade com a qual ele se identifica e escolheu para a vida.


Notas de rodapé

[1] RODRIGUES, Claudia S. “Atletas olímpicos reforçam Time Brasil nos Jogos Mundiais Militares”. Agência Brasil/Esportes. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2019-10/atletas-olimpicos-reforcam-time-brasil-nos-jogos-mundiais-militares>. Acesso em: 16 fev. 2020.

[2] “Jogos Mundiais Militares”. Defesa. Disponível em: <https://www.defesa.gov.br/esporte/jogos-mundiais-militares>. Acesso em: 16 fev. 2020.