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Atlético x América: como o primeiro clássico mineiro reflete a atual conjuntura do futebol feminino no Estado

Deborah Guimarães Quirino Electo Conrado, Vanessa Coutinho, João Pedro Durso Ponciano

O futebol feminino no Brasil vem crescendo bastante durante os últimos anos, principalmente desde a disputa dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, devido ao desempenho das atletas em solo nacional e à maior visibilidade durante o torneio. No mesmo ano, houve o ProFut, acordo entre Governo Federal e clubes a fim de quitar as dívidas dos mesmos, ampliando a possibilidade do aumento de verbas para as equipes femininas. Além disso, a Conmebol estipulou que, caso houvesse interesse em disputar a Libertadores, os clubes participantes deveriam ter uma equipe feminina profissional e de base. Em 2018, a CBF também se posicionou, estipulando o mesmo prazo para as equipes que disputarão a Série A em 2019. Com essas regras, esperava-se que a modalidade crescesse, tanto em número de campeonatos quanto em número de times e visibilidade na mídia. Assim, observando esse crescimento e a importância de se trazer essa temática, o evento “Voe Mulher”, juntamente do Mineirão, organizou um amistoso no último sábado (23/03) com duas das equipes de futebol feminino do estado de Minas Gerais.

O evento ”Voe Mulher” foi o primeiro evento de empreendedorismo feminino dentro de um estádio de futebol em Minas, que aconteceu nos dias 20, 21, 22 e 23 de março no Mineirão. Contando com nomes como o de Fernanda Gentil, o evento teve como objetivo ”inspirar, conectar novas experiências, promover, integrar e desenvolver negócios em todo o Brasil”. Nele aconteceram palestras, workshops, oficinas voltadas para o mercado do empreendedorismo e a inserção e presença da mulher nele. Além disso, o evento também proporcionou um amistoso realizado entre as equipes femininas do Atlético MG e América MG, nosso foco neste texto.

O amistoso, além de ter marcado o reencontro entre as equipes mineiras, também celebrou o primeiro clássico feminino disputado no estádio. Inaugurado em 1965, o Mineirão somente foi receber suas primeiras partidas femininas durante as Olimpíadas de 2016, em que passaram por seus gramados as seleções dos EUA, Colômbia, França, Nova Zelândia, Brasil, Austrália, Canadá e Alemanha, sendo palco para clássicos mundiais como EUA x França (números 1 e 3 do ranking mundial da FIFA), além da partida com maior público da temporada do estádio entre Brasil e Austrália, com incríveis 52.660 torcedores presentes [link 1].

Agora sobre os times, é de se ressaltar que a equipe do América foi a primeira a ser regularizada como profissional em Minas, uma vez que, num aspecto mundial, apenas 24,1% das atletas são profissionalizadas (FIFPro Women Football Global Employment Report, 2017) [link 2]. Após uma grande renovação em seu elenco, tanto de comissão quanto de atletas, a equipe veio embalada para o jogo após a conquista de mais um título do Campeonato Mineiro [link 3], conquistado ano passado, visando organizar e observar o desempenho do time para o início do Brasileirão Série A2. Já a equipe do Atlético, recém-formada [link 4], procura construir suas bases para o mesmo campeonato, através, também, de campeonatos disputados regionalmente, como a tradicional Copa BH. O amistoso foi, então, um bom parâmetro para os dois times iniciarem a preparação para a temporada, com o Campeonato Brasileiro, o principal, se iniciando já no dia 27 de março (quarta-feira).

O jogo contou com a presença de, aproximadamente, 4 mil pessoas, que se organizaram nos espaços dentro dos portões A e B do estádio. Com predominância feminina e atleticana, pode-se observar que as torcidas estavam bem misturadas pelo espaço, convivendo em plena harmonia. Notamos que esse ambiente proporcionado pelo clássico feminino fez com que as mulheres se sentissem mais confortáveis de estar naquele espaço, que, geralmente, é marcado pelo preconceito e pela dominação masculina: “Estou me sentindo hiper, mega, super mais confortável por estar numa partida feminina. Eu nunca vim aqui por fato de ter medo mesmo, né? Então, tô me sentindo hiper, mega segura.”, revelou uma das entrevistadas.

Mesmo com um público considerado “atípico” para jogos dos times masculinos – onde a presença de homens é dominante – marcas dessa torcida, geralmente observadas no contexto do futebol profissional masculino, foram observadas também em alguns grupos presentes, como cânticos misóginos e xingamentos realizados à árbitra da partida. O cântico que se destacou sobre os demais foi o de “Maria, eu sei que você treme” (em referência ao principal rival do time alvinegro, o Cruzeiro Esporte Clube que não estava envolvido com a partida). Em concordância com discursos predominantes e infelizmente enraizados por uma construção social machista, esses cânticos acabam por novamente subjugar a mulher e seu papel na sociedade, já que utilizam um nome tradicionalmente feminino para agregar construções socioculturais de inferioridade, fragilidade e afins.

Para além dos times e das torcidas, e apesar da grande importância do jogo, a impressão que ficou foi de que a organização não se importou tanto com a divulgação do mesmo e com o controle da entrada. Inicialmente, o jogo era para acontecer às 16hrs. Com a alteração do jogo do Cruzeiro no mesmo fim de semana, o jogo passou a ser às 10hrs do mesmo dia. Porém, essa não foi uma informação amplamente divulgada pela organização do evento, o que deixou muitos torcedores confusos, como observado em um dos relatos coletados: “Eu achei, ei, realmente eu achei, assim, um pouco desorganizado nesse sentido. Porque a gente pesquisou, tava uma data, e depois não atualizava nos sites as informações e, como eu queria realmente ver, então eu tive que ir atrás, buscando informações” conta outra entrevistada.

Além disso, a confusão se estendeu para os ingressos. Foi anunciado inicialmente que, para conseguir a entrada, o torcedor deveria apenas levar produtos de higiene feminina (ação conjunta em apoio à população carcerária) para a troca no mesmo dia do jogo. Porém, para que facilitar se você pode dificultar e, assim, poucos dias antes, foi informado, por meios não oficiais, que a torcida deveria comprar um jornal local, recortar o “vale-ingresso” contido, levar até um shopping popular da cidade e, só assim, conseguir adquirir o real ingresso para a partida. Visto o problema de divulgação, foi anunciado dois dias antes do jogo que seriam distribuídos 2000 ingressos na portaria do Mineirão na sexta-feira, mas, chegando no local, a organização não estava completamente a par de como aconteceria essa distribuição, gerando, mais uma vez, confusão entre os interessados pelo clássico. Essa falta de organização com relação ao jogo não fez com que a partida perdesse sua importância, mas pôde demonstrar um certo descaso vindo da organização com a mesma, ainda mais considerando que a organização do evento preza pela inserção da mulher em um espaço em que ela não é reconhecida (no empreendedorismo), porém, em outro espaço onde ela também não é reconhecida (futebol), não é dada a mesma importância/seriedade que a outra atmosfera.

Atlético-MG e América-MG fizeram a primeira partida de futebol feminino da história do Mineirão. Foto: Mineirão/Reprodução.

É interessante observar que o jornal no qual foi distribuído o “vale-ingresso’’ é conhecido por sempre expor mulheres seminuas em suas páginas principais para atrair mais compradores, o que coloca em dualidade a forma de exposição das mulheres, uma vez que reforça estereótipos machistas de objetificação feminina, sobrepondo conceitos e padrões estéticos à frente de conteúdos realmente informativos, mas, ao mesmo tempo, abre espaço para medidas de inclusão esportivas ao colocar um “vale-ingresso” para uma partida de futebol em seu jornal de fácil acesso populacional, ainda que a burocracia para validar esse ingresso ou adquiri-lo direto no estádio acrescente barreiras interpessoais, como socioeconômicas de transporte.

A cobertura midiática do evento ocorreu por algumas plataformas online e jornais impressos, além de matérias em jornais esportivos regionais de rádio e televisão. A partida foi transmitida apenas pelo canal oficial da equipe atleticana, denominada TV Galo, que utilizou suas redes sociais como meio de transmissão. O clube atleticano deixou a desejar na escolha da equipe de narração no momento em que escolheu um homem como narrador principal da partida, deixando mulheres na posição de comentaristas esportivas e ocultando a importância de uma narradora nessa partida histórica. Ainda que a presença de mulheres, por mais que tenha sido nos comentários, já será um grande e importante passo de se normatizar, a escolha de uma narradora feminina para o jogo seria mais interessante, tendo em vista o contexto do jogo e os objetivos do evento sobre empreendedorismo feminino que o organizou. Essa importância se dá, principalmente, para dar continuidade à recente, mas contínua quebra de tabus iniciada com o destaque local e nacional de Isabelly Morais, a primeira jornalista a narrar jogos de uma Copa do Mundo nas transmissões brasileiras. 

Entretanto, ainda que engatinhando, é de se valorizar a realização do clássico pelos organizadores e pelo Mineirão, que tiveram a intenção de trazer a pauta do futebol feminino para o foco, ainda que ao fazerem isso revelem através dos percalços relatados nesse texto o quanto há de construções machista na nossa sociedade. Eventos como esse são de extrema importância não só para ressaltar o crescimento da modalidade no país, mas também para permitir que o público tenha o interesse despertado para conhecer mais sobre a modalidade, seus times e um contexto mais geral, principalmente por estarmos em ano de Copa de Mundo (que será realizada na França de 7 de junho a 7 de julho e que será transmitida pela Rede Globo – partidas da Seleção Brasileira – e integralmente pelo SporTV). É necessário um maior engajamento dos organizadores e demais envolvidos para os próximos jogos, caso eles aconteçam, de forma que a presença do público seja facilitada e ainda maior, uma vez que é preciso fomentar a cultura de apoio também ao futebol feminino, esporte que ainda não vemos o anúncio de partidas como masculinas mas que constantemente vemos diferenciadas como femininas. Por mais que a máxima seja comumente utilizada, principalmente por comunicadores de massa, há muito ainda que se caminhar para que ela seja verdadeira e para que sejamos realmente o “país do futebol” como um todo.


Link 1: <http://globoesporte.globo.com/mg/olimpiadas/noticia/2016/08/show-de-torcida-brasil-x-australia-tem-maior-publico-do-mineirao-em-2016.html>.

Link 2: <https://fifpro.org/attachments/article/6986/2017%20FIFPro%20Women%20Football%20Global%20Employment%20Report-Final.pdf>.

Link 3: <https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/mais-uma-partida-de-futebol-o-que-aconteceu-na-final-do-mineiro/>.

Link 4: <https://www.atletico.com.br/atletico-firma-parceria-com-time-de-futebol-feminino/>.